violeta








Morava numa casa de pedra coberta de hera e antiga era a casa e velhos os avós e os bisavós e ela tão pequena ainda. Ouviam-na mal. Ela dizia, bom dia e eles respondiam, parou de chover minha filha. Esqueciam-se de tudo, das horas, da sopa no fogão, das idas ao dentista, de fechar as janelas, de chamar o cão. Perdiam-lhe as meias e os casacos de lã e trocavam-lhe o nome. Maria, Ana, Carlota, Luísa, Margarida. Raramente acertavam e quando o faziam, já ela ia longe.
Liam-lhe os livros das estantes, ensinavam-lhe provérbios, advérbios e as palavras esdrúxulas acentuadas e as outras esquisitas, estranhas como ela. Falavam-lhe da raridade das flores de pessegueiro numa terra prenhe de pedras e escassa em húmus e em vida.
Ela amava os avós e estes gostavam tanto dela.
Às vezes perguntava:
-Onde estão as outras crianças?
 E os avós dormiam.







No espelho do quarto escondia-se uma rapariga como ela, mas feia, antipática, agressiva. Invejava-lhe a voz e o brilho dos olhos e se ela dizia, olá! a outra baixava a cabeça, cerrava os punhos como se quisesse bater-lhe e respondia-lhe o silêncio das superfícies desertas. Um dia fartou-se, tapou o espelho com um papel branco e desenhou uma árvore despida. Num impulso, desceu as escadas a correr e gritou aos avós:
- Vou buscar as flores de pessegueiro e encontrar as crianças perdidas.
- Parou de chover minha filha.
Lá fora a hera dos muros crescia reptante e os pássaros debicavam-lhe os frutos, ávidos de alimento e cantoria.













17 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Flor de pessegueiro
amor
frustrante


Belo como sempre


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Março de 2014

Rogerio G. V. Pereira disse...

A emoção nunca me deixou prostrado, antes pelo contrário, quando me emociono, me levanto (caso esteja sentado) ou apresso o passo (caso não esteja parado). E é na sequência desses movimentos que não dispenso de seguir Violeta, não para a ajudar a ir buscar as flores de pessegueiro, mas para procurar as outras crianças.

Agora, que parou de chover e eu não tenho coisas mais importantes para fazer...

Isa Lisboa disse...

Violeta via a tristeza no espelho e saiu em busca das flores raras! Que bom para ela!

Beijos e boa semana, Manuela!

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Metáfora amarga do Portugal interior de hoje:que vai minguando de novos e velhos, até ao dia em que há-de desaparecer.E onde já não há lugar para as Violetas crescerem...

Lindamente construído!

Abraço e boa semana.
Vitor

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Acho que esse poema talvez represente a lembrança.
E a rapariga do espelho represente a inconformidade com o tempo atual em contraste com a lembrança.

;*

Rita Freitas disse...

Os espelhos algumas vezes são assim, reais :)

Bjs e uma boa semana

Agostinho disse...


Muito bela a história.
As pessoas que vivem nos espelhos são sempre diferentes.

Graça Pires disse...

Muito belo! Posso ver a menina a correr, a pegar as flores do pessegueiro, a procurar outras crianças, a olhar o espelho que sempre nos atraiçoa...
Um beijo, Manuela.

Reparei na coincidência da hera...

Silenciosamente ouvindo... disse...

É só imaginar o que a criança
fará. Como sempre um texto mtº.
bom e que eu li com muito prazer.
Bj.
Irene Alves

Nilson Barcelli disse...

Os avós são assim mesmo, surdos e esquecidos...
Mas é muito bom ter a felicidade de conviver com eles.
Mais um excelente mini-conto. Gostei muito, como sempre.
Manuela, tem um bom resto de semana.
Um beijo.

Graça Pereira disse...

Talvez por ser Violeta...ela aceitava com carinho as deficiências dos avós...afinal as violetas não são as flores mais humildes?
Mas ela precisava de flores e de crianças para alegrar a sua ainda curta vida.
Aqui...com o mar ao fundo...as histórias continuam lindas.
Um beijo
Graça

Beatriz disse...

Acho que tenho ainda uma criança perdida em mim, pois gosto de brincar de me perder por aí, nas paisagens longínquas do meu país...

Um beijo Manuela

Bia

. intemporal . disse...

.

.

. nunca será in.sustentável a leveza . que re.encontro neste en.canto Seu .

.

. a cada momento . de ligeireza . :) .

.

. íssimo feliz .

.

.

Kika disse...

Kriu?

Nunca gostei de espelhos!

Até porque, nem respondem ao que lhes perguntamos, pelo que, estou farta e cansada de tanta indiferença!

Kriu!

disse...

Os pássaros debicam tudo o que lhes aparece pela frente, mesmo que não tenham fome, o que se traduz num vício esvoaçante...

Têm mais olhos do que barriga, essa é que é essa!

ki.ti disse...

ainda bem que voltaram!

isto sem vocês não tem graça nenhuma

Mz disse...

É como o retrato do nosso Portugal profundo.
A desertificação.
Os velhos que restam nas aldeias e as crianças que são tão poucas.

Violeta também é nome de flor antiga que rareia nos jardins. E as flores de pessegueiro são tão maravilhosas como o fruto que prometem.

Um abraço.