e por fim falo-te dos jarros ou nem isso











Abro todas as janelas da casa, as portas, as gavetas, a tampa do açucareiro, os frascos de doce de abóbora amarela e os cadernos onde pincelo nadas.
Numa indefinida linha, era uma vez, inventa qualquer coisa, um reino pacífico, um bordado, quem tem vocação para bordar agora sem campos de linho ou arte tão pouco, paciência, a transpor motivos pelo buraco de uma agulha. E apago, deito fora o que escrevi.
Chega a estontear o adocicado das flores da laranjeira e os morcegos são os pássaros da noite a ecoar rotas seguras. Apago mais uma vez.
Faz-me falta a menina dos fósforos, a andorinha do príncipe, a Justine, de Alexandria. O Grande Hotel da Praia, em Balbec. Tão poucos afinal os que me provocam um frio no estômago, um desejo de eternidade. E lê-los, relê-los, até os saber de cor, até os saber perfeitos. Tudo o mais é vaidade, desabafo, suspiro, entretenimento, repetição, consolação, confidência, sublimação de sentimentos, querer dar o talento que não se possui. E não apago.
Crescem espontâneos, por todos os recantos haja luz e terra. Na ausência de uma razão maior, vingam-se quando colhidos, mancham as toalhas dos dias de domingo e os dedos e as unhas e os livros mais do que perfeitos. Se levarmos as mãos à boca nauseamos, asfixiamos sem conseguir respirar.
E por fim falo-te dos jarros, ou nem isso.


























21 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


E por fim falo-te dos jarros
ou nem isso
um jarro te dei
e gostei


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Março de 2014

Agostinho disse...

Jarros. E porquê jarros no fim quando a brancura está no início?

Rogerio G. V. Pereira disse...

Guardo o teu não talento
numa jarra
e te recomendo
nunca apagues nada

dá-me esses pedaços apagados
farei deles plágios
ou, quem sabe, jarros

Nilson Barcelli disse...

Os jarros chegam a ser uma praga.
Mas são bonitos...
Tal como o teu texto, que é magnífico.
Manuela, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Fez muito bem em não apagar: Dos jarros, fiquei a saber o que não sabia,e quanto ao resto gostei de a ler.E depois, conhecer o que outros escrevem não retira nem um só pouquinho de prazer àquilo que possamos nós escrever...

Um abraço e boa semana.
Vitor

Isa Lisboa disse...

Gosto sempre de tudo o que a Manuela me fala aqui! :)
Beijos, boa semana!

Maria Silva disse...

Amei seu texto sobre jarros...
Gosto deles, mesmo só folhas que prefiguram uma elegante flor...

Rita Freitas disse...

Soberbo como sempre!

bjs e uma boa semana

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Esse texto me lembrou o livro do Eclesiastes.


abraço
Marcos

Graça Pires disse...

"Chega a estontear" esta capacidade de escrever tão bem, com simplicidade à mistura com a erudição, com o jeito sensível de quem conhece a ternura e a mágoa...
Um beijo, Manuela.

Kika disse...

Kriu?

Quando é que pintas uma arminda do campo?

Vá lá, pinta cá!

Mesmo que não caiba numa página, publicas, em duas ou três...

E para não gastares muito dinheiro em tinta, utiliza a cal...

Kriu!

disse...

As armindas não são fáceis de se pintar, correm e por vezes voam de blogue em blogue, fazem as necessidades no FB e escorregam na própria língua e depois rastejam na respetiva baba...

Evanir disse...

Hoje Dia Do Blogueiro..
Venho te deixar meu abraço
carinho e agradecimento
por caminhar comigo .
Que durante muitos anos ainda possamos
caminhar juntos levando paz e amor.
Beijos no coração .
Evanir.

. intemporal . disse...

.

.

. _______________________ . parfait .

.

. :))))))))))))))))))) .

.

. plus que .

.

. íssimo . feliz .

.

.

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto tão bem construído que deslumbra quem lê.

feliz dia da Poesia!

:)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Pois é, escrever...ficar/deitar
fora...mas consigo que escreve
de uma forma tão sublime?
Jarros...confesso que não tenho
uma boa relação com eles mas não
sei explicar...
Bj.
Irene Alves

ki.ti disse...

ora aqui está uma ideia genial

abrir todas as portas e janelas, assim circulo sem ter que miar

Luís Alves da Costa disse...

Troco essas flores do jarro branco pelos primeiros perfumes dos meus jssmins,
ou não troco,
por que, das janelas da minha infância elas eram uma constante que ritmavam muros :-)

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Tão suave e gostoso, esse cenário tão simples, tão intimista tão cheio de vida serena...fantástica, na poesia que aqui sempre encontro... Manuela.
Beijo,
da Lúcia

Mz disse...

O talento também é espontãneo mas não floresce se não o cultivarmos.

E tudo começa com pequeno nada; um fio, uma palavra, uma pincelada e depois tudo cresce.

Se desistirmos nunca saberemos até onde poderemos ir.

Abç



Graça Pereira disse...

Os jarros...são tantos agora na verde da natureza...Deitam-nos fora mas tu apanhaste-los e fizeste palavras novas sem medo do amarelo que mancha...Um texto de brancura que apetece dobrar e guardar dentro de um livro...
Beijo
Graça