para entardecer gosto do mar mesmo que chova







Terá sido um acaso, uma mudança brusca no sentido do vento, um batimento diferente do coração da mãe, mas o facto é que nascera diferente. À medida que foi ganhando pelo e peso, tornou-se notório que os pelos da cauda não formavam riscas horizontais, mas sim, verticais. Cresceu ágil e trepador alheio à direção dos desenhos do seu corpo e aos comentários hostis dos que possuíam a espécie que afinal não era a sua. A mãe defendia-o com as unhas que tinha e um dia foi ele que se cansou de estar à defesa e foi-se ao mundo. Encontrei-o ontem na praia, ao entardecer.
Para escrever, eu gosto do entardecer. Para chegar a casa e atirar os sapatos para o lado, também. Para beber chá quente, para ouvir a gritaria das aves, ainda mais. Para soltar o gato, abrir a janela, cheirar a folhagem incipiente dos pessegueiros, as flores rosa forte no vazio dos ramos.
Para entardecer, gosto do mar mesmo que chova. Às vezes um pargo, um caranguejo, baleias nem tanto, por isso não me surpreendi de o ver ali, embora peludo. Andava pela beira da água, as patas dianteiras esfregavam as pedras à procura de qualquer coisa. Talvez seja um rato-lavadeiro a quem pintaram a cauda de branco.
-Vê lá, não te cortes nos ouriços - disse-lhe eu, assim como quem verdadeiramente diz – vê lá, pareces-me longe de casa.
E olhei em volta, não fossem os cães tardios como nós ladrar-lhe às canelas. Ele saiu da água, sacudiu o pelo e sentou-se ao meu lado. Eu tirei do bolso um punhado de amêndoas que ele comeu levando-as à boca com os dedos.
Depois contou-me o que já vos contei e seguiu-me até casa.














19 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Tu num outro ser, um cão ... um rúcula!?


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 28 de Fevereiro de 2014

Jacintinha Marto disse...

Devem continuar na viagem, e a entrevada aqui acamada, a servir de colchão... :-\

Rogerio G. V. Pereira disse...

Hoje
Cheguei
sentei-me aqui
a ouvir-te
nem me mexi

. intemporal . disse...

.

.

. nascer diferente é não nascer in.diferente . e vive.se in.diferente . perante tantos olhares presentes . para nós . tantas vezes ausentes .

.

. diferentes . somos todos iguais enquanto bate o coração .

.

. íssimo feliz .

.

. 10:38h a.m. .

.

.

Kika disse...

Kriu?

Que bonita ficou a Siri depois da mise... No entanto, a coloração, poder-lhe-á dar cabo do pelo!

Kriu!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

O final foi surpreendente. Você tem estilo bem pessoal, isso é bom. Contar a estória de animais é diferente, e eu já pensei em o fazer, mas não tenho tal capacidade.
Gostei bastante.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Nascer diferente ainda não é todas
as pessoas que aceitam. Ontem muito
me revoltei com certos comentários
sobre a inclusão de crianças
deficientes num cortejo carnavalesco
das escolas e creches.Havia quem não
concordasse.Que povo é este!!!
Amiga obrigada pela sua preocupação
pelo m/estado de saúde, que estou
ultrapassando.
Bom fim de semana. mesmo que com
chuva.
Um bj.
Irene Alves

Nilson Barcelli disse...

Todos somos diferentes.
E ainda bem...
Gostei do teu conto. Muito bom, como sempre.
Manuela, tem um bom domingo e uma boa semana. E um bom Carnaval.
Beijos.

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Tantas vezes, só se é diferente para quem não nos conhece e a nós não está habituado.Já quanto ao acto de nascer, nele ninguém mete prego nem estopa; somos todos fruto do acaso...

Sorte, a desse rato-lavadeiro, por se ter cruzado com a pessoa certa...

Lindo conto!

Bom restinho de Domingo, com um abraço.
Vitor

ONG ALERTA disse...

Ficou muito interessante,...
Beijo Lisette.

Mz disse...

Mesmo nas nossas semelhanças nunca somos iguais.

Chega sempre um momento em que nos fazemos ao mundo e os pais terão de nos deixar ir.
Fazemo-lo por muitas coisas, seria bom que fosse principalmente por nós.

Depois, aparecem coisas diferentes e desconhecidas e até novas novas amizades.



Beatriz disse...

Belo e suave como o entardecer a beira mar! Já me imaginei e lembrei quantas vezes na areia fiquei a olhar os bichos que por ali passavam...

Uma ótima semana, Manuela!!!

Bia

© Piedade Araújo Sol disse...

um estilo muito próprio de escrever diferente e belo.

gostei muito.

:)

Graça Pires disse...

Não era diferente. Apenas o resultado de "um batimento diferente do coração da mãe". E é ao entardecer que o fantástico acontece. Nessa "hora dos mágicos cansaços" como diria Florbela Espanca. É ao entardecer que se escrevem textos assim, tão belos.
Um beijo, Manuela

Isa Lisboa disse...

Gosto tanto desses que nascem assim diferentes! :)
Beijos

Mar Arável disse...

ao entardecer somos ainda mais diferentes

Belo

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Escutei em silêncio para não perturbar a vossa conversa.
Como sempre sublime.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

. intemporal . disse...

.

.

. the last point . in Hong Kong . :))) .

.

.

. íssimo feliz .

.

. 18.42 p.m. .

.

.

manuela baptista disse...


many happy return

:))