faz-te forte













A primeira a chegar foi a grande ave cinzenta. Pesada, as pernas altas submersas na água, concentrada no peixe, na rã, no rato, no caracol, no lodo, no baixio. Levanta voo num bater de asas lento e o longo pescoço retrai-se, encurta-se. Pousa num ilhéu de areia. E uma a uma, as outras aves do sapal.
Os patos-marrecos e os brancos, os flamingos, os maçaricos das rochas, as calhandrinhas e as pegas-rabudas e também aqueles de quem esquecemos o nome por serem tantos e tão distintos e por ali se espalharam, respondendo ao apelo da grande ave cinzenta que logo grasnou. Era rouca a voz e desfiou uma lista de penas comuns sobre a organização hierárquica do sapal e não via mais nada para além do baixio, do lodo, do caracol, do rato, do peixe e da rã.
As aves ali presentes enfastiavam-se de tal grasnar, mas temendo-lhe o bico aguçado, disseram que sim e repetiram, sim, sem entenderem a razão daquela assembleia.
A pequena ave cinzenta foi a última a chegar. Alheada do peixe, do baixio e sobretudo do rato, espantou-se com o burburinho dos visitantes e o agitar ruidoso das patas. Ela gostava dos dias luminosos da primavera quando regressavam as andorinhas. Levantava a cabeça, esticava o bico, crescia um ou dois centímetros e ficava a olhá-las no seu rodopiar louco e, sem se cansar, observava-lhes o voo de asas bem abertas e lamentava a pouca ambição dos da sua espécie, pescadores de superfície, sempre a olhar para baixo.
- Nós devíamos voar como as andorinhas - disse em voz alta a pequena ave cinzenta.
Fez-se um silêncio de lodo no sapal. A grande ave cinzenta abriu e fechou o bico sentindo-se mais pesada e mais lenta. A calhandrinha e a pega-rabuda piaram, os patos-marrecos esconderam a cabeça no dorso, as restantes debandaram.
A água arrefece sempre um pouco quando o sol se põe.















palmira e o coelho













No tempo quente dos pessegueiros em flor, o coelho ganhava duas vidas. Numa delas, que ele não saberia dizer se era a primeira, levantava-se cedo, vestia umas jardineiras de bolsos rotos, trincava uma cenoura com rama e passava a manhã a tratar da horta, a regar as alfaces, a preparar a terra para as túlipas e a erva-cidreira. Era organizado, meticuloso, alinhava os pés de couve e os de salsa numa geometria estudada e quando terminava, sentava-se a descansar sobre uma floreira partida. Depois conversava um pouco com os vizinhos coelhos como ele e quando o assunto se centrava na chuva e na acidez das maçãs reineta o coelho começava a piscar os olhos e a bocejar de tédio e apressava-se a sair dali. Pelo entardecer tomava banho, acertava os pelos do focinho, penteava as orelhas, pegava no contrabaixo e saía para as ruas a assobiar. Sentia-se outro e esta vida que ele ganhava sabia-lhe a bife com batatas fritas e ovo a cavalo e uns toques na banda Spring Rabitt’s Quartet. Os seus dedos agilizavam cordas e acordes, a pata peluda marcava o ritmo e o fascínio preenchia-lhe a noite e a madrugada.
Palmira era parente afastada da família Cervus e nascera com orelhas de coelho. Até aos sete anos de idade obrigaram-na a usar gorros, barretes e chapéus, mas de pouco lhe valia. Palmira era irrequieta, gostava de dançar e ao terceiro passo de dança já as orelhas se soltavam e enrolando-se e desenrolando-se em espiral, erguiam-na uns centímetros do solo e ela flutuava.
Palmira tinha um cordeiro branco com um laço encarnado ao pescoço e todas as manhãs levava-o a pastar. O cordeiro era assustadiço, frágil, delicado, mas gostava de cenouras acabadas de apanhar, de água fresca e de sombras. Foi numa dessas manhãs que o coelho conheceu Palmira. O cordeiro deambulava por ali e eles olharam-se com uma familiaridade natural, como se o facto insólito de ambos possuírem orelhas de coelho os aproximasse. O coelho falou-lhe das manhãs na horta e das noites do outro coelho que tocava contrabaixo no Spring Rabitt’s Quartet. As orelhas de Palmira levantaram-se de curiosidade e espanto e nessa noite, posto o cordeiro a dormir, perfumou-se e calçou os sapatos de dança.
E por este tempo quente das ameixoeiras em flor, Palmira ganhou outra vida. 














eclíptico














Perdemos dois gramas de peso. Escurecidas as folhas, as casas, as marés e as meninas dos nossos olhos.
Há um vale de gelo algures, crateras, longos penhascos e em outro lugar, um castelo de pedras angulares com uma torre virada para o mar. Nela canta uma mulher à espera e os dedos abertos sobre a face fazem lembrar os palmeirais ao entardecer.
No equinócio.