janeiros





Janeiros são os dias a passar. Disso nada sei, pensou a raposa retomando o sono, o sonho e o ronronar. Aparente é o abandono das árvores e dos ramos e este respirar quente e sereno dos animais adormecidos sobre a terra. 


















litania para adormecer o menino






O menino rabujava e a rapariga cantava, vai-te embora papãozinho, não te quero ver, deixa dormir o menino até o sol nascer. O papão deu uma gargalhada gelada, mas ela insistiu, vai-te embora papãozinho até o menino crescer.





Grande sou eu, disse o papão e meteu no saco de sarja o menino, a rapariga e um casaquinho de lã azul que ela estava a coser. O papão afastou-se dos caminhos luminosos e chamou os habitantes das aldeias dizendo-lhes, olhem para mim que vos roubei o menino, a mãe e o casaquinho de lã que ela estava a coser. Recolham às vossas casas, colem o medo à soleira da porta, fechem os olhos para não me ver.





O menino rabujava e a rapariga cantava, foi um sonho mau, meu menino, não te assustes. E vestiu-lhe o casaquinho de lã azul estrelado e enfeitou a casa com um ramo de azevinho, um rebento de pinheiro manso e uma flor vermelha para aquecer.





Festas Felizes!




antigas são as janelas da casa





Vou-me embora, mas levo todas as janelas da casa. Os vãos, as ombreiras, os vidros sujos da chuva fina e da terra que voa das calçadas. Atravesso o portal de cada uma delas, a luz refletida nas esquinas, os outros lá fora nas suas próprias janelas, o pano do pó, o grito, vem para casa o jantar está na mesa, estará. O vaso a ver o sol no parapeito, a flor a crescer, o pássaro pousado, ousado, a bicar migalhas dos biscoitos de azeite e canela, como aqueles que a avó fazia aos sábados à tarde e nós a quebrar nozes nas dobradiças das janelas. Os plátanos suspeitam das partidas e chegadas e o musgo aveluda-se na lapinha. A chuva forte, as mãos espalmadas nos vidros numa despedida e eu pergunto-me como será possível reconstruir a memória adezembrada, tão antigas são as janelas da casa.


























conto do homem, do cão, do pássaro e da árvore dos frutos sextos





Era uma vez um homem que possuía uma casa, um campo, uma horta, duas galinhas e um cão. O homem cavava, semeava, plantava, às vezes colhia, outras não. O homem e o cão eram inseparáveis, os passos de um seguiam as pegadas do outro e o cão ladrava e o homem cantava e assim o tempo corria como a água dos rios da nascente até à foz.
Um dia de manhã apareceu o pássaro. Pela cor dir-se-ia um verdilhão, não fora tão grande. Pelo canto, um pássaro raro e preso nas unhas, um fruto qualquer. O homem silenciou o cão e ficou parado a observar a ave, até que esta largou o fruto no chão. Era amarelo limão. E todas as manhãs o pássaro regressava e oferecia ao homem um fruto diferente na cor e semelhante na forma. O segundo fruto, verde-maio. O terceiro, verde-musgo. O quarto,  verde-escuro, O quinto, verde-azeitona e o sexto, verde-esmeralda e foi aí que parou. Das sementes dos frutos o homem plantou uma árvore e ela foi espigando e o homem e o cão sentiam saudades do pássaro raro e ansiavam pelo seu regresso.
Depois do outono, o inverno e as romãs maduras e as amêndoas doces. As frésias e os morangos, o calor e o frio das estações e o homem e o cão envelheciam porque o tempo corria como a água dos rios da nascente à foz. 
Já a árvore era alta e os frutos sextos a despontar, cantou o pássaro verde e raro, soltando na mão do homem assombrado, um sétimo fruto, amarelo dourado como o sol do verão.