parece-me longa a noite e azul a manhã





Lembras-te das joaninhas, predadoras de afídios, ácaros e cochonilhas, um vai e vem nas costas da nossa mão e depois um sopro, leve, as asas abertas e o voo livre até às folhas do limoeiro. Dos pirilampos a alumiar as bermas da estrada e levávamos um para casa escondido num frasco de vidro, cativo na noite, liberto de manhã. As horas mais quentes a observar as formigas no carreiro e espalhávamos açúcar para as aliciar e matávamos uma ou duas, para as ver carregar, pois não as deixavam para trás, não sei se as comiam, se sim, era a medida exata da nossa crueldade, pois era. Os gafanhotos que nos picavam, o canto dos grilos e das cigarras, as abelhas assustadas e, no limite, espetavam-nos o ferrão, põe uma moeda, um cubo de gelo, que isso passa, não passava.
















O menino João, não era um menino, era um homem e sabia tudo sobre os insetos e a terra. Os besouros, os escaravelhos, as libelinhas, as vespas, a polinização das plantas, as sebes, os pomares e as vinhas rodeadas de outras culturas. O menino João dizia, equilibram a natureza e nós sabíamos que sim e ele levava-nos a passear na charrete pintada de azul puxada por um cavalinho branco. Era nosso amigo.
Um dia, João, que não era um menino mas um homem, teve um desgosto grande, muito maior do que ele. Em desequilíbrio na trave do celeiro, enforcou-se. E nós lembrámo-nos das formigas mortas e as pessoas hipócritas cochichavam e diziam, não foi nada, saiam daqui, mas sabíamo-lo invertebrado, o corpo dividido, cabeça, tórax e abdómen, as pernas articuladas, os olhos compostos e aquele cheiro adocicado das vinhas e do feno. Perdemos um amigo, mas esse não foi um tempo triste. O cavalinho branco continuou a pastar por ali e dez milhões de insetos ensinaram-nos o equilíbrio entre as espécies.
E assim é pleno o verão e ilusória a dimensão dos dias. 








história simples da andorinha e do limpa-chaminés





O limpa-chaminés era um rapaz magrinho e ágil e não devia ter mais de vinte e cinco centímetros de altura e quinhentos gramas de peso. Morava numa mansarda virada para o mar e os móveis da sua casa eram pequenos como ele, apanhados aqui e ali junto dos contentores de lixo, quando as crianças se cansavam das bonecas e das memórias do Natal.
O rapaz tinha uma paixão por chaminés e depois de as limpar, gostava de se sentar lá no alto a trincar uma noz e a observar as nuvens e os pássaros até o sol se pôr. Só então carregava as escovas, os espanadores e as vassouras e regressava a casa, tomava banho e dormia tranquilo a sonhar com as alturas.
Naquele bairro eram poucos os que sabiam da existência de um rapaz pequenino e ágil que cabia em todas as chaminés, nem tão pouco se interrogavam sobre a razão de elas estarem sempre em perfeito estado de limpeza. Às vezes o rapaz deixava-se ver e esses, raros, que o conheciam, tinham a noção deste privilégio, mas guardavam segredo e deixavam-lhe em cima do fogão, sopa quente de abóbora, bolo de chocolate, um recado escrito à mão.
Com as flores de maio chegou a andorinha. A cabeça, o dorso, a cauda e as asas azuladas. A face e a garganta avermelhadas, o peito a branquear. Volteou sobre as casas, observou as chaminés, a terra barrenta dos quintais e o seu instinto de ave decidiu-a a ficar. Numa dessas tardes em que o rapaz, sentado na beirinha de uma chaminé, descansava, avistaram-se os dois. O limpa-chaminés conhecia os melros, os verdilhões, os gaios, os piscos e os chapins, mas estonteou perante aquela ave leve e hábil, a mudar constantemente de direção em perseguição dos insetos voadores que lhe serviam de jantar. Quando a andorinha pousou por um instante na chaminé, o rapaz susteve a respiração para não a assustar.












Ao fim da primeira semana já o rapaz conhecia a linguagem da andorinha e a andorinha entendia os gestos e as palavras do limpa-chaminés. E enquanto um limpava, a outra sujava, absorvida na edificação da sua casa sobre as casas do bairro. O rapaz magrinho e ágil e a andorinha leve e hábil ficaram amigos, ligados pela vertigem das alturas e pela presença das construções humanas.
Em junho os insetos multiplicaram-se, o ninho de barro ficou pronto e o limpa-chaminés começou a sonhar. Em julho, pegou em dois escovilhões, prendeu-os a cada uma das suas mãos, subiu à chaminé mais alta, inspirou, abriu os braços e lançou-se no ar. A andorinha gritou, faz-te forte, não percas o norte e acompanhou-o naquele voo trémulo e único e as correntes ascendentes ajudaram e não houve ramo de árvore que o prendesse, nem candeeiro de rua que o parasse. 
Depois desse dia o limpa-chaminés não voltou a voar, nem a limpar chaminés. Aqueles, raros, que o conheciam, perceberam que o verão estaria para breve e que o limpa-chaminés era apenas um rapaz a crescer, cento e trinta centímetros de altura e vinte e cinco quilogramas de peso. A andorinha regressava todas as tardes e conversavam os dois no parapeito da janela. O rapaz registava num caderno de capa azul as viagens da andorinha e as chaminés alongavam-se rumo ao céu escarlate do entardecer.



Hirundo rustica






e a música do vento a fazê-los dançar




Lembro os estendais da minha infância, daquela outra casa, a boa esperança, que invocávamos à tardinha enquanto a avó desfiava o terço pelas almas, pela paz, para que não se nos apagasse a memória das coisas belas, como a bordadura das dobras, das fronhas e da esperança. Apenas uma de nós herdara os seus cabelos claros e as sardas no nariz e as flores de camomila a enfeitá-los para que aclarassem cada vez mais. Da família das compostas, nós e as flores, as margaridas, as arnicas, as maravilhas, os dentes-de-leão. À noite pacificavam os sonos e de dia, a ansiedade das equações e dos verbos transitivos. E quando de tanto chorar uma desilusão qualquer, os olhos nos inchavam, a infusão da camomila refrescava-os tal e qual a limonada gelada no verão.
Refletem a luz nos campos abertos, nas bermas das estradas. O disco solar e o branco luminoso e os estendais de igualmente brancos lençóis e a música do vento a fazê-los dançar e a soltar as molas de madeira de pinho. Nos dias de festa a casa enchia e não chegavam os lençóis bordados para todas as camas. Ficávamos nós então com os mais velhos, macios, passajados e aquele prazer imenso de os romper com os pés magros e rir quase até de madrugada.
Não fui eu que herdei os cabelos claros, as sardas, o terço, a sabedoria das plantas, a boa esperança. Guardei somente a dança dos lençóis de linho e a luz a atravessar os campos abertos e as bermas da estrada.



Matricaria chamomilla






erva-dedal


Quando o rei avistou o primeiro gaio nas varandas do palácio, lembrou-se que não tardariam os dias longos e as noites quentes, as luas plenas e o mar chão. Já os botões de rosa despontavam e muitas e variadas espécies cresciam nos canteiros e as princesas, num assomo de inocência e vaidade, disseram, pai, senhor nosso rei, deixai-nos fazer uma festa de flores e vestidos de seda. O rei concordou impondo apenas a condição, de que seriam elas próprias a costurar as suas vestes e a de todos os convidados. Elas amuaram, mas meteram mãos às tesouras, linhas e agulhas e começaram a costurar. No entanto eram frágeis os dedos das princesas, habituados a dedilhar pianos e harpas, a bordar um ponto de cada vez, sem pressas, nem hora marcada. E sangravam-lhes os dedos e elas escondiam as lágrimas numa caixa de prata para ninguém ver. Até que lhes apareceu em sonhos uma rã e falou-lhes de uma planta amante de solos húmidos, terrenos sombrios e siliciosos cujas flores, semelhantes a dedais, lhes protegeriam os dedos e cicatrizariam as feridas. Na manhã seguinte elas procuraram nos jardins do palácio, pelo campo à volta, nas aldeias distantes e só depois de muito procurar, a encontraram na serra junto aos pinheirais e levaram com elas alguns pés e outros ainda para os canteiros do palácio. E os dedais de flor protegeram os dedos finos e o chá das folhas fortaleceu-lhes o coração.
Foi então que o rei descobriu nos canteiros as dedaleiras em flor e nos quartos das princesas, um número infindável de vestidos e vestes de seda onde não se via uma gota de sangue e pasmou. 
Nas crónicas do mês de maio ficou registado que nunca se vira naquele reino uma festa assim.