seriam encarnadas as flores e negro o chão









Na fotografia antiga ela tem um ramo de flores caído no chão. Há uma escada e em cada degrau dois rapazes, três raparigas, cinco rapazes, duas raparigas, até perfazerem vinte e cinco. Vestem um casaco de fazenda pied de poule, que quer dizer pés de galinha. Empurram-se, fazem caretas, riem. Ela sorri apenas e as flores no chão. Eu não estou visível nessa fotografia e só me lembro da velha máquina do meu pai e da gritaria da minha irmã, tu não sabes mexer nisso, para, larga, é minha. E era.
A cores, seriam encarnadas as flores e negro o chão.












pela páscoa





























Não faço perguntas às quais sei responder, tal como o vento não interroga as árvores, nem os esquilos da floresta interrogam as sementes. Um dia seremos húmus. As árvores, os esquilos e as sementes, que por sua vez serão plátanos, oliveiras e pinheiros mansos. Um sopro de paixão apenas. O sussurro de uma ave que voou mais alto do que as montanhas e ultrapassou o limite das nuvens.
Do outro lado, quem sabe. Balem os cordeiros e os copos enchem-se de vinho generoso, que é aquele que se entrega. Cai um pingo na toalha branca, é tinto ou sangue, não faz mal, enfeitam-se as manchas com as pétalas das flores azuis escuras como a noite antes da ressurreição. 
Pela Páscoa gosto de pão ázimo e dois ou três pezinhos de alecrim.













cem gramas de sal





































Não me saiu bem. Eu queria uma sombra miudinha, um chapéu a dançar sobre a cabeça, um movimento acelerado de quem está feliz assim, numa gabardina cinzenta.
Fechei o caderno, tapei-a com papel esquisso para não borrar, ela protestou, tira-me daqui, sufoco. E pontapeava as folhas com as botas azuis, birrenta e teimosa. Eu fiz ouvidos de criador.
Esqueci-me dela, até que um dia me faltou o sal. E os cavalos marinhos e os peixes, as anémonas e os caranguejos e os oceanos que conheço, mas sobretudo os que nunca vi.
Lembrei-me dela e acordei-lhe o sono de chuva fraca, dei-lhe um saco de pôr ao ombro e disse-lhe, vem daí esconjurar a fraqueza da primavera. Vamos à praia, morrinho de saudades de sal.









às vezes as ondas parecem aves a voar