ainda azul





Os dias tórridos, o tanque das regas, cuidado com as trovoadas, não mergulhem, não se atrevam. Aquela história antiga do rapaz e da bicicleta e do raio que o matou perto da oliveira que lhe serviu de abrigo e morta a oliveira e o rapaz, entristeciamo-nos um pouco apenas.
Comíamos finas fatias de melão à merenda e não me recordo de outros assim, simultaneamente doces, picantes e sumarentos. Na pouca luz noturna os céus eram de estrelas e o vento quente sussurrava-nos loucuras ternas.
O verão não se pintava já de azul-marinho, talvez azul-pervinca.









conto breve de um burro manso que gosta de pêssegos-rosa




Em agosto amadurecem. De polpa doce e firme, tom rosado, pele fina e raros, tão raros agora. A menina explica-lhe ao ouvido estas e outras coisas, tais como a complexidade das romãs e o crescimento acelerado das ervas daninhas. Manjerico espeta as orelhas, abana-as para refrescar e ouve-a atentamente. A menina promete, um dia, plantaremos um pessegueiro-rosa e repartiremos os frutos contigo. Manjerico acena que sim com a cabeça, enquanto com a cauda, enxota três ou quatro moscas e a menina ri e o burro zurra feliz.
A menina é de agosto como os pêssegos e o burro gosta de pêssegos, do calor de agosto e da menina. Esta é uma complexidade que não se explica, nem ao ouvido, nem aos gritos para o interior de um poço, nem tão pouco em direção às estrelas. Manjerico tem boa memória, nunca se esquece de um caminho percorrido, de uma carícia feita no focinho, de uma guloseima na palma da mão.
E às vezes, nas noites quentes enquanto a menina dorme e sonha, o burro ganha asas e leva-a a viajar até às terras mágicas onde crescem os pêssegos-rosa.



Para a Mar






conto das orquídeas anãs e da colher de pau






Antes do equinócio o tempo mudou. Com as marés altas e fortes, as ondas deixaram sobre a areia toda a espécie de lixo, calhaus rolados, paus, cordas, redes de emalhar. O rapaz gostava dos entardeceres enevoados, a praia deserta, ele e o cão e as gaivotas nos seus jogos e lutas e o cão a ladrar em corridas loucas para as afugentar. O rapaz guardava no bolso as pedras e as conchas, e registava na memória muitos objetos por identificar. Foi assim que ele a encontrou. Um pedaço de madeira sujo de terra, esburacado, mas simultaneamente bem esculpido e desenhado, a lembrar uma ferramenta antiga, uma espátula. O rapaz observou-o, dedilhou-o como um pianista, sentiu-lhe o cheiro, aproximou-o do ouvido direito e sem hesitar, levou-o consigo para casa.
O que trazes aí, perguntou o pai. Um tesouro, respondeu o rapaz, e riu-se mostrando-lhe o pedaço de madeira. O pai pegou-lhe, olhou-o com atenção e disse, parece-me uma colher de pau perfurada pela erosão, quem sabe uma colher de pau mágica. E os olhos do rapaz brilharam.
Cuidadosamente colocaram-na numa caixa de cartão junto da varanda, para que apanhasse humidade e luz solar e lhe fizessem companhia as flores, os ramos das árvores e os pássaros diurnos.
Nessa noite o rapaz teve um pesadelo. Viajava como ajudante de cozinha num grande veleiro repleto de marinheiros esfomeados e a cada madrugada era obrigado a cozinhar cinco quilos de papas de aveia e a mexê-las com aquela colher de pau. O tacho era enorme, as papas ferviam e cresciam e o rapaz cansado murmurava, se ao menos fosse mágica esta colher de pau, se fosse mágica.
Acordou perturbado e a suar, mas como era um rapaz curioso muito mais do que assustadiço, levantou-se e sem fazer um ruído, nem ligar as luzes, foi até à varanda espreitar a caixa de cartão. A colher de pau permanecia lá, quieta, misteriosa, estranhamente vivaz. Na claridade da antemanhã o rapaz adormeceu agarrado ao cão e à caixa. E exorcizando o pesadelo, sonhou que o pequeno ajudante de cozinha que era ele próprio ou talvez não, se libertava do tacho, da aveia, dos marinheiros embrutecidos pela borrasca, pegava na colher de pau mágica e lançavam-se os dois ao mar, enfrentado as correntes, nadando com as baleias brancas e os golfinhos, aportando às ilhas equatoriais onde nas noites de lua nova o rapaz e a colher faziam sopa de estrelas. E ainda hoje o ajudante de cozinha era um peixe e a colher, um pedaço mágico de madeira envelhecida.
Passaram-se alguns meses, o rapaz cresceu um palmo e meio, o cão continuou meigo e brincalhão, o pai perdeu dois cabelos louros e dentro da caixa de cartão qualquer coisa de maravilhoso despontava muito lentamente. Uma folha, duas folhas, e por fim várias plantas. E de um lado floriram as orquídeas anãs. Do outro, as pequenas orquídeas colher-de-pau.











maio






Os campos seriam verdes, estou certa que o eram, mas das papoilas, não me recordo das papoilas desse dia. Saíamos cedo, as saias vermelhas e as camisas brancas, os sacos de algodão e o pão cortado fininho entre a manteiga e o queijo amanteigado, o chá gelado e os morangos de Sintra porque não havia outros como eles e já não há. Ríamos das coisas tolas, dos namorados, dos filmes censurados, do que era proibido e tão fácil afinal de ser quebrado. Medíamos apenas um metro e cinquenta centímetros de altura e éramos tão grandes quando chegava o entardecer e falávamos das coisas tristes e sérias e boas desta vida. 
Só não me lembro das papoilas porque nunca as apanhava nem trazia de volta para casa nesse dia.