é hora do sol pôr






O silêncio dos pássaros, as flores do pessegueiro a rebentar, a litania cantada das vésperas, o sol alaranjado, é hora do sol-pôr, bem queria o meu senhor, a ir atá-lo. Bem queria ir atá-lo.
Com uma fitinha de seda escarlate, prendê-lo noite e dia e dia e noite numa ausência das noturnas estrelas e esta estrela apenas a dar luz aos nossos olhos e vigor às nossas penas e asas e quilha.
Por ele ser tão vilão, não posso amá-lo. Por ele não, posso amá-lo.
Segredo-lhe somente que o paraíso é mesmo aqui, pleno de rios, de mar, de ondas, de rochas, de túlipas, de hera, de macieiras, laranjais e vinhas. De estuários e deltas, de ilhas. De baleias, de garças de pernas esguias. Não fechem os olhos dos defuntos para que o contemplem, ao paraíso, porque a viagem que iniciam poderá essa sim, ser vilania. 
É hora do sol-pôr, bem queria o meu senhor ir atá-lo, bem queria.




























estaca, rebento, botão de vento





Encontrei-o na rua, um galho arrancado como outro qualquer, objeto de brincadeira entre um dono e o seu cão, pau de virar tripas, varinha mágica de uma fada nem boa nem má. Leva-me, pediu ele e eu não o ouvi. Num impulso peguei-lhe e a luz iluminou-o, castanho-escuro, verde, avermelhado, estaca de segurar pés de rosa-chá.




Sobre a mesa, a gata aninha-se numa folha de papel a cativar os últimos raios de sol e o galho a fazer-lhe companhia num solitário de vidro transparente. Ela entende-lhe as histórias passadas, sabe o seu nome de família e ronrona-lhe quietude e silêncio. Um fio de pó faz o seu caminho entre a janela e o chão e lá fora as aves ainda cantam.
Depois veio o frio e os dias a crescer, em breve as frésias pela relva, e a estaca, um rebento e tantos botões de vento.











os três mantos do rei





Veio o vento forte, quebrou as portas e as janelas, roubou dos armários as roupas e as tigelas e a chuva a zunir, alagou os tapetes, arrastou as cadeiras, os espelhos estalaram e os peixes vermelhos nadaram nas banheiras e o rei gritou, ai quem me acode num dia assim.
O rei era muito pequenino, mas tinha um coração grande e, tantas eram as vezes, não lhe cabia no peito. Não sei porque sou assim, gritava o reizinho, ai quem me acode e me faz um manto que me esconda do vento, da chuva e do desalento e me deixe o coração de fora para espreitar os pássaros e os peixes vermelhos que nadam nas banheiras.
Faço eu! respondeu o alfaiate. E costurou-lhe um manto de veludo bordado e tal era o peso do veludo e do bordado, que o rei encolheu cinco centímetros e chorou duas lágrimas de sal.
Não, não, sou eu que o farei, disse o joalheiro. E coseu-lhe um manto de jóias brilhantes e tal era o brilho, que o rei deixou de ver durante cinco dias e cinco noites e chorou quatro lágrimas de sal.
A cozinheira também tentou e fez-lhe um manto de claras em castelo, leve como o ar e o reizinho voou e só o agarraram dois dias depois. O rei soluçou de tanto se rir. 
Então decidiu fazer ele próprio os seus mantos. Quando a chuva parou e o vento se aquietou, foi ao jardim e escolheu três flores aveludadas, luminosas, leves, singulares e com elas se vestia quando se sentia ensolarado, rodado ou esperançado. O coração grande acompanhava-o sempre, porque agora cabia em qualquer lugar.
































Litania para quando somos pequenos 
e grandes já amanhã






a carta das estrelas





Tens frio? perguntou o menino. A raposa olhou-o, franzino, os olhos brilhantes, o casaquinho de malha a arrastar. E replicou-lhe, tens medo?
Não, disse o menino, mas posso acender as estrelas do céu e também as do mar. Como te chamas? perguntou a raposa. Menino. E tu? Raposa, respondeu a raposa.
Então o menino trepou para o dorso da raposa, segurou-se ao seu pescoço e começaram a caminhar. Atravessaram o gelo e os ursos seguiram-nos. Percorreram as florestas, os pântanos e os desertos e foram com eles os lobos, os cordeiros, os esquilos, os cavalos, os cães, as garças e os rouxinóis. Um ou outro pinguim e ao longe as baleias e os golfinhos. Às vezes paravam a descansar. A raposa sentava-se, uma estrela cintilava junto da sua orelha direita e o menino pousava a cabeça na sua cauda e adormecia. Os animais silenciavam-se e suspendiam a marcha, o voo, o mergulho, o salto e o canto. 
Não sei quando e onde chegaram, mas nessa noite, singulares foram aqueles que os encontraram e confiaram no traçado desse caminho.



 


Desejo-vos um Feliz Natal!