sem ruído













Que silêncio gelado se instalou neste meu reino? perguntou o rei ajeitando a coroa de estevas que lhe enfeitava a cabeça. Pois não vos ordenei que me contassem histórias, uma para cada dia e acrescentassem outra ainda nas noites de lua cheia quando o tempo aquece e nos parece quase impossível adormecer? 
E continuou a fazer perguntas e da sua boca soltavam-se os pontos de interrogação e pousavam na mesa, no jarro da água, nos canteiros do jardim, nas telhas da casa e eram tantos que os habitantes do reino temeram que o sol se escondesse e foram em grande pressa procurar os contadores de histórias e não os encontrando voltaram a temer, desta feita, a ira do rei.
Para dizer a verdade o rei não era assustador. Media exatamente cento e cinquenta centímetros, pesava trinta quilos, tinha os cabelos cor de fogo presos numa fita preta e todas as manhãs colocava no bolso da camisa um malmequer amarelo com a corola de fora. Depois sentava-se na biblioteca e escolhia o livro onde queria reinar. Abria o primeiro capítulo e entrava. Era feliz assim.


Onde é que estás. Em cima da árvore, não me consegues ver. Não. Então cala-te, no meio do ruído é impossível medrarem os pêssegos rosa. Os de Colares. Sim, esses mesmos. Lembras-te do avô Joaquim todos os anos em agosto e mais dois ou três dias amadureciam. Não se soltavam do caroço. Pois não. Tinham a doçura certa como certo era o dia, a noite e a madrugada. E deus. Deus é incerto. Pois é. Porquê. Não sonha. Mas ainda é maio e o tempo parece-me tão estreito e longo como um corredor de fundo antes da partida.













faz-te forte













A primeira a chegar foi a grande ave cinzenta. Pesada, as pernas altas submersas na água, concentrada no peixe, na rã, no rato, no caracol, no lodo, no baixio. Levanta voo num bater de asas lento e o longo pescoço retrai-se, encurta-se. Pousa num ilhéu de areia. E uma a uma, as outras aves do sapal.
Os patos-marrecos e os brancos, os flamingos, os maçaricos das rochas, as calhandrinhas e as pegas-rabudas e também aqueles de quem esquecemos o nome por serem tantos e tão distintos e por ali se espalharam, respondendo ao apelo da grande ave cinzenta que logo grasnou. Era rouca a voz e desfiou uma lista de penas comuns sobre a organização hierárquica do sapal e não via mais nada para além do baixio, do lodo, do caracol, do rato, do peixe e da rã.
As aves ali presentes enfastiavam-se de tal grasnar, mas temendo-lhe o bico aguçado, disseram que sim e repetiram, sim, sem entenderem a razão daquela assembleia.
A pequena ave cinzenta foi a última a chegar. Alheada do peixe, do baixio e sobretudo do rato, espantou-se com o burburinho dos visitantes e o agitar ruidoso das patas. Ela gostava dos dias luminosos da primavera quando regressavam as andorinhas. Levantava a cabeça, esticava o bico, crescia um ou dois centímetros e ficava a olhá-las no seu rodopiar louco e, sem se cansar, observava-lhes o voo de asas bem abertas e lamentava a pouca ambição dos da sua espécie, pescadores de superfície, sempre a olhar para baixo.
- Nós devíamos voar como as andorinhas - disse em voz alta a pequena ave cinzenta.
Fez-se um silêncio de lodo no sapal. A grande ave cinzenta abriu e fechou o bico sentindo-se mais pesada e mais lenta. A calhandrinha e a pega-rabuda piaram, os patos-marrecos esconderam a cabeça no dorso, as restantes debandaram.
A água arrefece sempre um pouco quando o sol se põe.















palmira e o coelho













No tempo quente dos pessegueiros em flor, o coelho ganhava duas vidas. Numa delas, que ele não saberia dizer se era a primeira, levantava-se cedo, vestia umas jardineiras de bolsos rotos, trincava uma cenoura com rama e passava a manhã a tratar da horta, a regar as alfaces, a preparar a terra para as túlipas e a erva-cidreira. Era organizado, meticuloso, alinhava os pés de couve e os de salsa numa geometria estudada e quando terminava, sentava-se a descansar sobre uma floreira partida. Depois conversava um pouco com os vizinhos coelhos como ele e quando o assunto se centrava na chuva e na acidez das maçãs reineta o coelho começava a piscar os olhos e a bocejar de tédio e apressava-se a sair dali. Pelo entardecer tomava banho, acertava os pelos do focinho, penteava as orelhas, pegava no contrabaixo e saía para as ruas a assobiar. Sentia-se outro e esta vida que ele ganhava sabia-lhe a bife com batatas fritas e ovo a cavalo e uns toques na banda Spring Rabitt’s Quartet. Os seus dedos agilizavam cordas e acordes, a pata peluda marcava o ritmo e o fascínio preenchia-lhe a noite e a madrugada.
Palmira era parente afastada da família Cervus e nascera com orelhas de coelho. Até aos sete anos de idade obrigaram-na a usar gorros, barretes e chapéus, mas de pouco lhe valia. Palmira era irrequieta, gostava de dançar e ao terceiro passo de dança já as orelhas se soltavam e enrolando-se e desenrolando-se em espiral, erguiam-na uns centímetros do solo e ela flutuava.
Palmira tinha um cordeiro branco com um laço encarnado ao pescoço e todas as manhãs levava-o a pastar. O cordeiro era assustadiço, frágil, delicado, mas gostava de cenouras acabadas de apanhar, de água fresca e de sombras. Foi numa dessas manhãs que o coelho conheceu Palmira. O cordeiro deambulava por ali e eles olharam-se com uma familiaridade natural, como se o facto insólito de ambos possuírem orelhas de coelho os aproximasse. O coelho falou-lhe das manhãs na horta e das noites do outro coelho que tocava contrabaixo no Spring Rabitt’s Quartet. As orelhas de Palmira levantaram-se de curiosidade e espanto e nessa noite, posto o cordeiro a dormir, perfumou-se e calçou os sapatos de dança.
E por este tempo quente das ameixoeiras em flor, Palmira ganhou outra vida.