apontamento





Foram-se os gaios, com a chuva e a humidade da noite. É deles o castanheiro alto, os ouriços e as doces castanhas. Para nós, a erva-doce e um qualquer outro fruto. 
Belo, é o preto-branco-azul-celeste das asas e aquela graça de nos imitar a fala, o assobio, o canto.











Isidora





Dizem que já andei por aí aos caídos. Entre os muros de pedra, escondida na hera a ganir de medo. O rapaz das jardineiras azuis encontrou-me, fez-me festas na cabeça, pegou-me ao colo, eu lambi-lhe o nariz, reconhecida. O rapaz riu-se e meteu-me no bolso das jardineiras com a cabeça de fora. Dali é que eu não queria cair, era alto demais, mas deu-me coragem e ladrei duas vezes de alegria. O rapaz percorreu todo o bairro, tocava às campainhas e perguntava, é sua? Perdeu uma cadelinha pequena, castanha, as orelhas compridas? É essa aí, perguntavam. Sim, respondia o rapaz. Não é nossa, respondiam eles. O rapaz cansou-se e eu com ele no bolso das jardineiras azuis e voltámos para casa, a dele, porque eu não sabia qual era a minha. Foi assim que eu fiquei com o rapaz numa casa branca com duas portas e sete janelas.
Brincávamos o dia inteiro na casa, no quintal, na rua e nos campos à volta e, se avaliarmos bem os termos desta amizade, éramos os seres mais sortudos à face da terra. Quando a minha voz engrossou e o meu peito alargou, eu ensinei o rapaz a escavar a terra dura e desta forma encontrámos um texugo, dois lagartos e um coelho. Em contrapartida o rapaz ensinou-me a não lhes fazer mal, a soltá-los, a libertá-los para que escavassem eles próprios os seus labirintos, que não eram os nossos. Apenas se cruzavam, como o rapaz das jardineiras azuis se tinha cruzado comigo naquela manhã junto ao muro de pedra.
Ele chamou-me Isidora e eu não o chamei, fiquei com ele. Até as suas pernas se tornarem fortes como as minhas, um pouco mais longas é certo, até a sua voz engrossar, até as jardineiras se romperem, até ele ser corajoso e ladrar como eu, de tanta alegria. Ainda andamos por aqui os dois.



Dachshund, cão texugo






mergulhante






Um mergulho, antes do sol-pôr? Antes de as sombras cobrirem a água, antes do grasnar das aves, um pouco antes da quietude da noite?






















E no fundo o lodo, a rocha, o peixe calado. Depois voltamos à superfície, inspiramos, regressamos a casa a tiritar, enrolados nas toalhas, os pés ainda descalços e a porta aberta, está sempre aberta a porta para quem quiser entrar e a mesa da cozinha é grande e o pão quente com muita manteiga.

Se ouvirem rir, sou eu a mergulhar, a respirar, a desalinhar, a outonar, a aportar.








conto da rapariga, do coelho, do macaco e de Dodo, a boneca de pano






Gostava do tempo quente, das uvas a amadurecer na latada, do feijão-verde a trepar pelas canas-da-índia, das galinhas à solta a esgaravatar a terra, do canto do galo ao amanhecer. E virava-se para o outro lado e pensava, hoje não há escola e a mãe vai fazer um bolo de cenoura e laranja e enfeitar-me o cabelo com flores azuis e amarelas para combinar com o meu vestido novo amarelo e azul. E readormecia feliz.
Uma noite, um ruído estranho despertou-a. Não era o galo, não era o cão a ladrar, não era o vento a dançar nas ervas do monte. Parecia alguém a arranhar os vidros da janela, talvez um pirilampo a fosforear, uma borboleta noturna a confundir as trevas. E a menina levantou-se e perguntou, quem é? Do outro lado uma vozinha fraca respondeu, sou eu, o coelho, deixa-me entrar e a menina deixou. Sentaram-se os dois aos pés da cama e a menina observou atentamente o coelho. Era pequeno, as orelhas compridas, o pelo, castanho e branco, fofo e bem tratado, os olhos um pouco tristes.
Esta é a tua toca? perguntou o coelho. A menina riu-se e o coelho estremeceu. Por esta altura já as prateleiras dos brinquedos se agitavam e aproximaram-se da cama, o macaco de peluche e Dodo, a boneca de pano. Sentaram-se no tapete e fazendo eco da pergunta do coelho, repetiram, esta é a nossa toca?
A menina refletiu trinta segundos e atendendo ao facto de que o seu quarto a protegia do frio e do calor, da chuva e da tempestade e a sua cama servia de esconderijo quando estava amuada, levantou-se e dando pulos sobre o colchão, cantarolava, sim, esta é a nossa toca! Esta é a nossa toca!
O macaco batia palmas de contente, Dodo rebolava-se a rir e o coelho saltava como só os coelhos sabem fazer. Depois calaram-se e o silêncio pousou dois ou três dedos sobre as suas cabeças. A menina bocejou, o macaco e a boneca regressaram respetivamente à segunda e terceiras prateleiras da estante e o coelho começou a contar à menina a sua vida de coelho nas bordas da serra. Como as águias o ameaçavam durante o dia e o bufo-real o perseguia durante a noite. E tinha sido num destes momentos que ele se aproximara da janela do seu quarto e a acordara. 
Então a menina deu a mão ao coelho e sem fazerem o mínimo ruído, saíram os dois pela janela. As estrelas brilhavam no céu e as sombras brincavam nos muros da quinta e a menina conduziu-os à horta e o coelho nunca vira tanta cenoura de rama viçosa e tanto verde alface. Roeram os dois quatro cenouras e o coelho, uma couve coração. O coelho desenhou na terra batida o caminho para a sua toca e disse à menina, vai-me visitar. A menina abraçou o coelho e ficou ali, descalça, até o ver desaparecer em segurança entre as ervas do monte. Por fim, cansada, regressou a casa, meteu-se na cama mas deixou a janela aberta. 





Para a Mar
no dia do seu quinto aniversário