garganta amarela, peito azul, máscara preta





Estivam as aves, as de cauda comprida e o tempo incerto a esfriar-lhes as penas. Gosto-lhes do piar e daquelas nuvens de muitas cores quando chegam e voam e ficam.

Vamos ao estuário do rio, à encosta da serra de Montejunto junto com elas, amarelas, azuis, vermelhas e a máscara preta de assustar venenos e chuvas. Vamos.














Abelharuco, Merops apiaster




myosotis alpestris






Não me esqueço. Dos terrenos rochosos, das zonas montanhosas, da beira dos caminhos.
Paixão, morte e ressurreição. O princípio, uma impressão viva, um amor ardente, uma pena, um pesar maior. A contradição de todos os dias, umas vezes contrição, outras, apenas não.
Não te esqueças. Regressam pequenas e rastejantes, florescem com o calor, azuladas, branqueadas, rosadas. 
Estas são prematuras, chegaram pela Páscoa, para que não as esqueçamos no verão.
























um anel de prata e dez folhas de menta





Troco o meu pano azul por um chá de menta, disse o viajante. Sacudiu a água das sandálias, passou os dedos pelos cabelos e sentou-se no primeiro degrau da escada. Era um ser pequenino, talvez uns doze centímetros de altura, moreno do sol, o véu azul e a túnica branca. Eu andava por ali a apanhar chuva e apesar de não ser muito habitual uma proposta destas, não estranhei. Na minha rua, os cães conhecem-nos pelo nome, os gaios roubam-nos os frutos e os melros conversam connosco de manhã. O carteiro não entrega as cartas, os jardineiros conduzem comboios pela noite dentro e aparecem estremunhados quando faz sol. O mar sobe uns metros a cada maré alta, mas desertos nunca vi.
Tens os pés molhados, disse eu estupidamente e acrescentei, posso fazer-te um chá preto ou de limão ou de erva-príncipe. Ele olhou-me de baixo para cima e eu senti-me envergonhada e alta, que é um sentimento que me acompanha quase todos os dias. Peguei nele, meti-o no bolso com a cabeça e os braços de fora e andei pelos canteiros até encontrar os pés de hortelã.
Convidei-o a entrar. Na cozinha fervemos água e por esta ordem, ele exigiu um bule de prata com um bico longo, açúcar mascavado em abundância, um copo de vidro e dez folhas de menta. Admirei-lhe a perícia e enquanto ele bebia o seu chá, eu bebia o meu, preto e sem açúcar. Coloquei mais lenha na lareira e ele sentou-se no chão sobre o tapete, as sandálias e o pano azul a secar e assim aquecido e confortável, soltou-se e começou a falar. Dos ventos quentes do deserto, das tempestades de areia, do azul-índigo dos panos e de como, sem ele saber porquê, uma corrente contrária o tinha envolvido, enrolado e feito perder.
E saberás regressar? perguntei. Claro, respondeu, logo que tiver os pés quentes e a roupa seca, encontro o caminho de volta. Deixo-te o pano azul, acrescentou.
Não quero o teu pano azul, faz-te falta para tapar o rosto, respondi. Porque és tão pequeno? acrescentei. Porque és tão grande? respondeu.
E deitando a cabeça sobre o braço direito, adormeceu. Silenciosamente fui  buscar um lápis e um bloco e esbocei o viajante, o pano, as sandálias e a túnica. A monotonia da chuva, o calor da lareira e o ligeiro roncar daquele ser magnífico fizeram-me adormecer também.
Uns minutos ou muitas horas depois, acordei, e ele tinha partido. Sobre as folhas de hortelã, um anel de prata.
Nunca mais o vi e lembro-me dele quando chove e quando faz vento, quando sacudo a areia das botas e quando o céu se azula ao amanhecer. Não lamento não o ter fotografado, porque qualquer imagem não lhe faria justiça, como as linhas que tracei dele.
E nos dias cinzentos, ponho o anel de prata no dedo médio da mão esquerda para que os deuses não me abandonem.








azul de março






Lembras-te? daqueles vestidos de algodão, bordados com pequenas flores azuis e rodávamos a saia e rodavam as pequenas flores azuis e a avó dizia, que fresco está março, não levem os vestidos brancos bordados de flores azuis na barra da saia. O vento sopra ainda nas serranias e os barcos presos na barra do porto e as bailarinas na barra a treinar e os juízes na barra a julgar e vocês, tolinhas, que frio e que chuva vão apanhar.
E nós pegávamos nas flores azuis de março, fechávamos os olhos com as pétalas macias e jurávamos, avó, como estão próximas as andorinhas.