desnorte





Em julho, com o vento quente e forte, chegavam as primas. As tímidas, de cabelo escuro e olhos castanhos, baixinhas, arredondadas. As magrinhas espevitadas, abriam as gavetas, espreitavam os diários, escondiam maçãs debaixo do colchão. As de cabelo dourado, liso, espelhado, olhos de veludo, lábios carnudos, sempre mais além a descobrir carreiros, a inventar tartes de amoras silvestres, festas até de madrugada. As crescidas, apaixonadas a cada lua cheia e a cada maré vaza. Os risos faziam bater as portas de entrada e o verão era longo, profundo, infindável.
Não sei onde é que guardei este cheiro a maresia e a alfazema e a Mi e a Fá a trautear uma canção bonita, porque musicais eram as duas, tal como os nomes pelos quais respondiam enquanto o sol brilhava.













egretta garzetta





Sobrevoou as árvores do parque, vinda do mar em direção a terra, rara a ave e eu na pressa das manhãs, a perguntar-lhe, o que fazes aqui garça branca pequena, o estuário ficou para trás, as salinas abandonadas e os arrozais e ela a olhar-me de alto, para que quero eu as minhas asas, perguntou. 
E abriu em leque as penas e nidificou na minha folha de papel.








o chapim-carvoeiro e o imaginário dos pássaros






Era uma vez um jovem pássaro feliz. Assobiava com o vento vindo do mar, debicava insetos entre as agulhas dos pinheiros, rasava a caruma do chão, pousava no ramo mais alto e imaginava a sua cabeça preta a tocar nas nuvens. O pássaro ignorava a existência de outras aves e presumia o mundo composto de árvores, ramos, copas, céu, estrelas na noite, sol de dia, chuva, frio, calor, trovões e relâmpagos, aranhas, moscas e sementes. E a vida do pássaro pequeno era calma e leve como as suas penas.
Um dia uma poupa sobrevoou o pinheiral e avistou o pássaro. Curiosa, foi-se aproximando até que pousou junto dele, abrindo a crista. O pássaro assustou-se, bateu as asas três vezes e piou. A poupa, imitando-o, piou outras três, bateu as asas e voou. O pássaro, pasmado e inquieto, esqueceu-se dos insetos e dos frutos e plantou-se no topo das árvores com o intuito de alcançar o longe e a distância e poder ver a poupa, mas ela não regressou. O pássaro conformou-se, no entanto já não se sentia o mesmo. Desgostou-se dos insetos voadores e das aranhas e cismava se o pinheiral não seria limitado e as nuvens mais altas. E uma tarde a poupa voltou. O coração do pássaro saltou-lhe no peito e perguntou-lhe, quem és? Um pássaro como tu, respondeu a poupa. O pássaro não sabia que era um pássaro e a poupa explicou-lhe que ninguém sabe exatamente quem é, até encontrar um ser semelhante a si.
Então a poupa falou-lhe do mundo para lá dos pinheirais e das aves que o habitam. Da perdiz que gosta de atravessar as estradas, do rouxinol cantor, da elegância e beleza do pavão, do guarda-rios que os guarda bem, do mergulhão-de-crista e da sua coragem em mergulhar, da viuvinha-bico-de lacre que nunca está sozinha, da destreza do falcão, da coruja das torres que pia de noite e dorme de dia. Eram tantos e tão variados que o pássaro estonteou e a poupa calou-se, não sem antes lhe dizer e tu, pássaro pequeno e feliz, sabes o teu nome? Não sabia.
A poupa e o chapim-carvoeiro partiram numa longa viagem de reconhecimento de outras aves, de rios, de planícies, de carvalhais, de bosques e de penhascos também. Um dia o chapim sentiu saudades do pinheiral, do cheiro a maresia trazido pelo vento, dos insetos e das pinhas repletas de pinhões e regressou. Pelo caminho avistou um chapim-azul e um chapim-real e no pinheiro mais alto esperava-o um chapim-carvoeiro. Por fim o pássaro feliz soube quem era.



chapim significa ave pequena e até neste jardim o podemos encontrar






o reino das borboletas





Era uma vez um rapaz que morava num palácio imperial virado para o sol nascente. O palácio era grande e o rapaz muito pequeno. O palácio possuía inúmeros salões, quartos, cozinhas, corredores, janelas, varandas, esconderijos, armazéns, caves, escadas, pátios, jardins, hortas, pomares e campos de arroz. O rapaz dormia num quarto com uma janela virada a sul e de seu, tinha apenas uma faca afiada e uma caixa de aguarelas. Levantava-se cedo, pois estavam-lhe atribuídas variadas, mas pouco definidas, tarefas. A principal era cuidar das vestes do senhor do palácio, verificar se estavam limpas, os tecidos esticados, as cores firmes, as botas escovadas e brilhantes e certificar-se de que tudo estaria pronto após o banho matinal. 




O rapaz não conhecia o rosto do Imperador e este ignorava quem lhe cuidava das vestes. No entanto, como era esperto, ágil, de baixa estatura e boa índole, todos o chamavam para resolver problemas fúteis. Procurar as chaves perdidas no lago dos peixes, soltar o pássaro preso na chaminé, resgatar o macaco assanhado na árvore mais alta, ou cantar para adormecer os filhos da cozinheira em dias de festa. Às vezes estonteava-se de tanto chamamento e fugia para os jardins do palácio e sabia-lhe bem vaguear em silêncio.
Numa dessas escapadelas, o rapaz encontrou outro rapaz, um pouco mais alto, um pouco mais tímido. Foi fácil conversarem um com o outro, coisas de rapazes, eu sei construir flautas de bambu com a minha faca afiada, então faz-me uma, está bem, vou-te mostrar um pavilhão secreto. Um pavilhão? Sim, vem comigo, tenho a chave e entraram. O rapaz da faca e da caixa de aguarelas nunca tinha visto nada assim. Centenas de borboletas raras esvoaçavam em redor de árvores também raras e o rapaz grande falou-lhe longamente da vida das borboletas, prisioneiras do pavilhão, tal como ele, prisioneiro do palácio e das suas obrigações de Imperador. E a sua voz era triste e o rapaz pequeno e ágil assustou-se e perguntou, és tu o Imperador? eu não estou autorizado a olhar-te nem a falar-te, nem construir-te flautas de bambu com a minha faca afiada, o meu dever é cuidar das tuas vestes e aqui estás tu tão despojado quanto eu. E perdeu as palavras que lhe faltavam e estas foram colar-se nas asas das borboletas.


Então o Imperador, um pouco mais alto, um pouco mais tímido, um tudo ou nada triste e o rapaz da faca afiada, saíram do pavilhão deixando a porta aberta. Regressaram ao palácio e com a caixa das aguarelas pintaram borboletas em todos os estandartes.