eclíptico














Perdemos dois gramas de peso. Escurecidas as folhas, as casas, as marés e as meninas dos nossos olhos.
Há um vale de gelo algures, crateras, longos penhascos e em outro lugar, um castelo de pedras angulares com uma torre virada para o mar. Nela canta uma mulher à espera e os dedos abertos sobre a face fazem lembrar os palmeirais ao entardecer.
No equinócio.























primavera













Leva-me, disse a borboleta. Não te levo, respondeu a folha.





















Sou leve, insistiu a borboleta. Não me leves a mal, respondeu a folha. 
Levo-te a bem, disse a borboleta.















frade, púcara, chapéu-de-sol










Os habitantes secretos do jardim têm mudado ao longo do tempo. O primeiro foi um pintor com saudades da Córsega. Colocava o cavalete entre os troncos das ameixoeiras, espalhava tintas, aguarelava telas, tinha insónias com o ladrar dos cães. Comia saladas com queijo à sombra das árvores, em silêncio. Depois vieram mais três, um gigante, um médio e um pequenino. Estendiam os sacos-cama na terra e contavam as estrelas. Sob o telhado da casa morava Rolando, o rato, e entre as paredes, o urso dos canos roncava quando se abriam as torneiras. Mudaram-se para um país mais quente, multiplicaram-se e nós subtraímo-nos. Deixaram-nos as estrelas e o rato e nunca mais soubemos do urso. Presumimos que esteja bem.
E por fim chegou o rapaz-dos-pássaros. E as sementes e o bebedouro feito de pedras e o comedouro feito de galhos e nós abençoámos a negligência do jardineiro que não corta os arbustos nem as trepadeiras, deixa ao deus dará as velhas ameixoeiras onde crescem os fungos que frutificam em cogumelos frade, púcara, chapéu-de-sol. Não tão amarelos, não, mas neste mundo dos contos as cores não correspondem exatamente à realidade. Nem a forma, nem a sombra, nem o conteúdo. O território foi demarcado por dois chapins de cabeça preta e dois piscos de peito ruivo. Sobram os melros e os gaios.
O rapaz-dos-pássaros escreve livros sobre pássaros e um dia um pássaro escreverá um livro sobre ele. Entre uma coisa e outra, as ameixoeiras ainda não floriram e quando o fizerem, já o aroma das frésias nos embriagou as noites.