conto do rapaz que falava com as margaridas, as zínias, as rosas e as violetas




Quando nasceu não chorou. Arredondou os olhos, fez uma careta, cerrou os punhos e quedou-se silencioso e atento. Não é normal este silêncio, disse a avó. Deem-lhe uma palmada, reforçou o avô. A mãe dormia e o pai pegando nele embrulhou-o numa manta de lã macia, embalou-o e segredou-lhe ao ouvido, Boaventura, é este o nome que te dou.
Aos dois anos de idade disse flor, e esta foi a sua primeira palavra. Cresceu, de olhos arredondados da cor das amêndoas doces e era pacífico e feliz a brincar na terra dos canteiros, a observar as plantas, os bichos-de-conta, os gafanhotos e as minhocas. O pai dizia-lhe, aprende, Boaventura, a semear, a regar, a cuidar das flores. Escuta-as, chama-as pelo seu nome próprio, fala-lhes. E no jardim do rapaz despontavam as margaridas, as zínias, as rosas e as violetas. Ele sabia que a linguagem de umas, não era a linguagem das outras, que as primeiras gostavam de canções e as segundas de poesia. Que as terceiras tinham espinhos e faziam-no sangrar e as quartas, eram delicadas e tímidas.
A avó não se cansava de repetir, enganei-me, este rapaz é único e perfeito e o avô lacrimejava com remorsos da palmada que lhe queria dar e a mãe costurava-lhe um casaco com lapela para ele usar uma flor ao peito. E Boaventura sonhava com um mundo verde repleto de joaninhas.
Os anos passaram, Boaventura é hoje um homem bem-aventurado, verde-esperança ou verde-mar. Conheceu rosas que o magoaram e margaridas que o abandonaram. Mas sobretudo as violetas, pequenas e tímidas, que o fizeram acreditar nas joaninhas.
As zínias permanecem um mistério.










































Artur





Artur era uma ave pequena e destemida. Penas da cor do sol, dos frutos maduros, da água das nascentes, do branco algodão. Vocalizava quatro notas e, não fora a decisão que tomara no outono, dir-se-ia uma ave semelhante a todas as outras. Quando o tempo arrefeceu e a terra dos jardins se atapetou de castanho dourado, os seus companheiros chamaram-no, vamos partir, Artur. Não tarda o vento gelado, Artur e o ninho quebrado, vem connosco, Artur. E ele distraído a saltitar sobre os galhos, a sonhar com sementes, a escutar o piado das estrelinhas-de-cabeça-listada e respondia, elas não partem, porque partiria eu? Foi ficando, na azáfama diária em busca de alimento, no fascínio do voo e do canto. O outono doce e morno passou e Artur percebeu que deveria procurar um abrigo para se proteger do frio, da chuva forte e da nortada. Escolheu um telhado alto e dali via o mar e os pinheirais e entre duas telhas quebradas guardou uma fita de veludo, uma noz-moscada e um trapo de lã. Os melros curiosos, depressa descobriram o colorido habitante e desafiavam-no para corridas sobre as telhas e voos rasantes e era feliz o pássaro entre os residentes do jardim.
No entanto o inverno chegou e ele tremia de frio nas noites gélidas entre as telhas partidas a deixarem entrar a chuva e o vento. Escasseavam as sementes e os insetos e Artur voava mais longe a procurá-los e à companhia das outras aves. Foi numa dessas viagens que encontrou o cão. De raça indefinida, porte médio, olhos meigos e observando o pássaro apercebeu-o cansado e um pouco triste. Vem comigo, disse o cão. O meu nome é Estrela, acrescentou. Artur não teve medo e pousando sobre a cabeça do cão respondeu, o meu nome é Artur e não quis o destino, mas eu próprio, permanecer aqui na tua terra enquanto os meus irmãos voavam para os países quentes. Fizeste bem, disse o cão, se tivesses partido nunca me terias encontrado. Artur sentiu-se quente e reconfortado e caminharam os dois, o cão Estrela e o pássaro pousado na sua cabeça.
Os melros contam que o cão e o pássaro encontraram abrigo, um dono que deles cuidou. As estrelinhas-de-cabeça-listada dizem que não, que os dois viajam ainda nas noites estreladas e o pássaro canta para embalar o cão.
Eu sei que na primavera Artur regressará ao telhado e levará consigo a fita de veludo e a noz-moscada e deixará apenas o trapo de lã.









janeiros





Janeiros são os dias a passar. Disso nada sei, pensou a raposa retomando o sono, o sonho e o ronronar. Aparente é o abandono das árvores e dos ramos e este respirar quente e sereno dos animais adormecidos sobre a terra. 


















litania para adormecer o menino






O menino rabujava e a rapariga cantava, vai-te embora papãozinho, não te quero ver, deixa dormir o menino até o sol nascer. O papão deu uma gargalhada gelada, mas ela insistiu, vai-te embora papãozinho até o menino crescer.





Grande sou eu, disse o papão e meteu no saco de sarja o menino, a rapariga e um casaquinho de lã azul que ela estava a coser. O papão afastou-se dos caminhos luminosos e chamou os habitantes das aldeias dizendo-lhes, olhem para mim que vos roubei o menino, a mãe e o casaquinho de lã que ela estava a coser. Recolham às vossas casas, colem o medo à soleira da porta, fechem os olhos para não me ver.





O menino rabujava e a rapariga cantava, foi um sonho mau, meu menino, não te assustes. E vestiu-lhe o casaquinho de lã azul estrelado e enfeitou a casa com um ramo de azevinho, um rebento de pinheiro manso e uma flor vermelha para aquecer.





Festas Felizes!