III - Francisca




A minha história é a mais difícil de contar. Sou um cão feliz. Rafeira por parte do pai, princesa pelo lado da mãe.
Um dia vi uns pés enormes a caminhar para mim e pensei, se não correr para eles agora, nunca mais terei sorte na vida. Precipitei-me, tropecei em três ervas rasteiras, fui de focinho ao chão. Seguraram-me duas mãos que me elevaram no ar, e que no momento me pareceu ser a altura de um prédio de dez andares. Uns dentes brancos e um enorme sorriso e eu dando o meu melhor, fiz estes olhos meigos, quase, quase, a chegar às patas.
Fomos os dois viver na cidade, o meu dono e eu. Cresci e as minhas orelhas cresceram ainda mais do que eu. Quando me solto numa corrida doida, elas levantam-se fazendo um ângulo de 90º com o meu pescoço e se eu acelerasse, estou certa de que voaria. Às vezes sinto a cabeça cheia de pássaros.
Não gosto do monstro que habita o saco do aspirador, acho-o desprezível e é inacreditável ser o meu dono a ligá-lo, como faz com o despertador. Aí mora um outro monstro, só que mais pequeno e estridente. Não vale a pena enfrentá-los, escondemo-nos debaixo das mantas e fingimos que não existem.
Os homens e os cães aprendem imensas coisas uns com os outros. A rosnar ao vizinho do 3º esquerdo, por exemplo, que embirra com cães, tapetes fora do sítio, dias de sol e panos de pó roídos por mim; a partilhar os restos do frigorífico nos domingos à noite quando chove e a ladrar às caravanas que passam. Isto das caravanas é uma metáfora, como devem calcular.
Mas o mais significativo, é os cães entenderem a linguagem dos donos e estes responderem-nos em, aufs, aufs! que é a linguagem perdida dos cães.
Nos dias úteis, que são aqueles dias em que os nossos donos se esfalfam a levar e a trazer bolas aos patrões e estes nem uma festa no pelo, faço uma escapadela. Saio pela portinhola da porta da cozinha e vou para as ruas de focinho no ar. Aventuro-me nos becos sem saída, nos jardins, à porta das lojas, mais longe, nos descampados. Depois regresso, a língua de fora, cheia de sede, uma pulga atrás da orelha e espero pelo meu dono à porta de casa.
Quando ele aparece, a língua de fora, um ar cansado, eu faço uns olhos meigos, quase, quase, a chegar ao chão.
O meu nome é Francisca, nesta história tão simples de contar.



retratos quase vadios
terceiro e último conto: Francisca








em Portugal são abatidos 100 000 animais a cada ano
se não os abatêssemos, não seríamos tão abatidos

22 comentários:

. intemporal . disse...

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. "quase, quase, a chegar ao chão." . preciso agora de um tempo im.preciso . preciso .

.

. porque o amor deste momento . tem também o seu tempo . para que possa então . exteriorizar.se .

.

. íssimo . sempre feliz .

.

. e dois aufs . agradecidos . :) . e orgulhosa.mente gratos . en.ternecidos .

.

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Kika disse...

Kriu?

Eu permaneço em lista de espera... em espera e à espera de outros voos, nos quais eu possa, participar e liderar...

Mas duvido que saibas pintar-me e muito menos contar a minha história...

Parabéns à Siri Francisca Menezes Fonseca dos Santos Jardim!

Kriu!

disse...

Orgulho-me de que faças parte da minha família... E por isso mesmo escolhi-te e nunca te abandonarei...

(Não és como aquela badocha das traseiras de Fânzeres, que abandonou o cão, quando foi posta fora de casa pelo marido, já fartíssimo dela...)

Parabéns à Francisca, por ter sabido tão bem escolher o "dono"!

Nilson Barcelli disse...

Gosto de histórias de cães.
Cresci no meio deles...
Tem um bom fim de semana, querida amiga Manuela.
Beijo.

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Tudo isto é muito bonito mas só há uma coisa que eu não percebo:

Tu escreves sobre cães e eu escrevi um tratado, filosófico mesmo, chamado With The Cat que consta das minhas publicações, com um destinatário preciso, a nossa gata.

Pois mesmo assim e apesar de tudo, é o teu colo que ela prefere!

Ingratidões ...!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 19 de Outubro de 2013

Rogério Pereira disse...

Um dia, volto a ler isto à procura de inspiração
Recontarei a tua história
na perspectiva diferente da do cão
mas daquele
que os deixa abater

Um dia...

© Piedade Araújo Sol disse...

cada nova história que aqui deixas é puro deleite para quem lê.

acho que ia adorar a Francisca.

bom domingo Manela

BEijos

:)

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Gostei muito de ficar a saber sobre o mundo dos homens, visto por este encanto de cadela ladina, e capaz de fazer qualquer dono tão feliz como ela...
E afinal esta história nada tinha de difícil no contar, para quem tão bem percebe da poda...

Um abraço; bom resto de Domingo
Vitor

Rita Freitas disse...

Gostei tanto da Franscisca!

" A civilização de um povo vê-se na forma como tratam os seus animais." Ghandi.

Beijinhos

Isa Lisboa disse...

Gostei de conhecer a Francisca. E o dono dela, apesar de que... há tantos como ele...!

Um abraço

tulipa disse...

MANUELA BAPTISTA

Gostei da história da FRANCISCA
rafeira por parte do pai,
princesa pelo lado da mãe.

Que a felicidade esteja por aí.

No "Momentos Perfeitos"
mostro os meus trabalhos
no raid deste ano
e foram distinguidos com uma "menção honrosa"

Caso queira, dê um saltinho a:

http://pensamentosimagens.blogspot.pt

Um abraço e boa semana

Silenciosamente ouvindo... disse...

A Francisca...o seu enorme talento...os animais abandonados(já
se abandonam pessoas e se matam
bebés...)
A Francisca teve a liberdade de
passear,(liberdade) e ter um dono
que a recebia de volta(felicidade).
Bj.
Irene Alves

Mz disse...

Francisca tu és um doce!
Não te percas nas tua saídas e cuidado com os homens da câmara, sabes que eles apanham os canitos fugidios?

Agora toma lá um biscoito ^..^





Kika disse...

Kriu?

Estamos quase no inverno e já não se justifica teres o búzio na "entrada" do teu blogue, por muito bonito que seja...

Porque não o trocas por uma rosinha branca, descaída e desmaiada, com reflexos e tudo?

Assim, no Natal, até podias enfeitá-la com luzinhas que acendessem e apagassem... e ficarias com o teu blogue tipo a loja do chinês!

Achas saloia esta minha ideia?

Quanto ao fundo negro do teu blogue, o mesmo, provoca por aí tal inveja, que até já te plagiaram... Que gentinha mais sem ideias...

Kriu!

disse...

Cá para mim, o que ficaria muito bonito na entrada do teu blogue, seria uma bela seringa... pousada diagonalmente bem em cima daquele livro que te levou e elevou a seres aquilo que és hoje, uma grande "Poetisa"...

. intemporal . disse...

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. risos sibilantes . até às lágrimas . ! . ah ah ah ah ah ah ah . :)))))))))))))))))))) .

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ONG ALERTA disse...

Animais merecem respeito....
Beijo Lisette,

disse...

E dizes tudo, sem ruído, apenas com alma de poeta e a sabedoria de quem está atento à vida...e são tão poucos.

Beijos

soldeinverno.blogspot.com disse...

Passei para desejar um bom
fim de semana.Bjs.
Irene Alves

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gosto muito de animais e quanto mais ternos eles são mais depressa nos afeiçoamos a eles.
Existem cães que são muito mais espertos que os seus donos. Conseguem ver quando é que eles os vão abandonar nas travessas mais escuras da cidade ou pior quando tencionam abatê-los porque carregam muitos anos e transportam visitas indesejadas.
Esta Cadela parece-me que teve sorte. Chegou inteira ao fim e quando se sentia a mais escapava-se e ia dar uma volta até que a dor de cotovelo passasse ao patrão...
Beijinhos. Bom fim de semana.

Maria João Brito de Sousa disse...

Não acrescento nada. Sou apenas mais uma que lê - deliciada, claro! - sobre a Francisca, sobre a linguagem perdida dos cães...


O meu abraço! Para ela também :)

Lunna Guedes disse...

Sabe, eu tenho um cão - chamado Patrick. È um boxer. Chegou pequenino. As orelhas não cresceram muito, mas lhe dão trabalho, as vezes precisa de remédios. São frias. E eu adoro coçá-las. Ele parece gostar porque geme. Faz festa quando chego e fica triste quando tenho que sair, mas se comporta porque sabe que eu volto. Deita no sofá e dorme. Quando abro a porta a festa, o passeio, o carinho e nós dois crescemos. Eu aprendi com ele a ser mais humana, mas ele nunca deixou de ser canino, embora as vezes pense que é gente. Outro dia olhou pra mim de maneira estranha no elevador. Estávamos a sair os dois para um passeio. A frente o homem a dizer asneiras a sua senhora. Esbravejou. Disse coisas desnecessárias e os dois saíram a ralhar um com o outro. Ele, sentado e eu ao lado, eu sei, não me perguntei, mas sei o que ele pensou "e eu quem preciso de coleiras"... rs

bacio