II - Evita



No tempo em que ainda existiam circos, eu era focinho de cartaz.
Não percam, senhoras e senhores, meninos e meninas, Evita a destemida e os seus cães dançarinos.
Os cães não eram meus. Manolito era o treinador, dava-me uma bolacha se o número corresse bem, disfarçava um puxão de cauda se eu fizesse asneira. Se lhe rosnava, privava-me do jantar. Manolito nem sequer se chamava Manuel, era Júlio, mas gostava de imitar os palhaços ricos e falava um castelhano arrevesado que nem o público entendia. Os cães mais pequenos vestiam uma jaqueta às riscas com uma flor ao peito, dançavam nas patas traseiras, davam cambalhotas e agradeciam os aplausos baixando a cabeça. De seguida fazia-se um silêncio gelado, o tambor rufava baixinho e eu entrava em cena a correr, as orelhas atiradas para trás, dava várias voltas à pista e o amável público aplaudia. Manolito lançava arcos de vários tamanhos e eu atravessava-os sem lhes tocar, uma vez, duas vezes, até ele se cansar. Em seguida prendia-os e ateava-lhes fogo e eu atravessava-os três vezes, quatro vezes, até ele se cansar.
Manolito era o meu dono, o dono de Manolito era o dono do circo, o dono do circo possuía a ilusão de um mundo que já terminara.
Meu amigo verdadeiro, era o rapaz que engolia fogo. Tínhamos isso em comum, o fogo. Ele não gostava de Manolito, achava-o cobarde. Dizia-lhe, tu é que devias atravessar arcos a arder e dançar como um cãozinho humilhado, sem ração, sem festas ao fim do dia.
Às vezes lutavam, e o rapaz que engolia fogo disfarçava o negro dos olhos com o negro do querosene a arder. Depois do espetáculo e das luzes desligadas, já Manolito ressonava, o rapaz que engolia fogo, escondido nas sombras da noite, abria as gaiolas dos cães e deixava-os livres durante umas horas. Eu sentava-me com ele na erva molhada e ele contava-me tantas coisas que eu não sabia e tinha sonhos tão longe do circo e do fogo que lhe corroía a língua, a garganta, a laringe e até o coração.
- Um dia, o meu coração vai arder, Evita. Como as tuas orelhas e o pelo da tua cauda. Se temos de correr riscos, que sejam outros longe daqui. Quando chegar a lua nova, talvez.
Ele falava na lua nova, porque é nela que os seres abandonados se tornam ainda mais pequenos, quase invisíveis, impercetíveis. Depois dava uma gargalhada para afastar o medo e partilhava comigo uma barra de chocolate de leite. Afinal era apenas um rapaz.
Passaram-se muitas luas novas, crescentes, gibosas, cheias, balsâmicas, minguantes, novas.
Uma noite, o coração do rapaz que engolia fogo, ardeu. Júlio, mais conhecido por Manolito, fez troça. Os cães dançarinos que vestiam jaquetas às riscas, recusaram as flores ao peito e eu doida de raiva, rosnei e mordi-lhe a mão direita. Se tenho de correr riscos, que sejam outros longe daqui. Escapei-me, fugi, corri, desapareci. Fiz-me sombra invisível em noite sem lua.
Agora escolhi um dono, não foi ele que me escolheu a mim.


retratos quase vadios
parte segunda: Evita

17 comentários:

Mz disse...

Podemos viver muitos mil anos para a frente e muitos outros mil anos para trás que os "Manolitos" nunca deixaram nem deixarão de existir.

Se eu fosse a Evita, tinha feito igualzinho a ela!

Um abraço Manuela e bom fim de semana.

Rogério Pereira disse...

Bem com o mar ao fundo,
afundámos nesse circo
Onde já ninguém engole fogo
De onde já ninguém sai procurando o dono
Somos todos sombras, a lua partiu com o rufar dos tambores!

Beatriz disse...

As luas vêm e vão, a vida passará, os dias passarão. Evita sempre foi uma guerreira, decidida.... e assim será. Estou contigo, a escolha é sua!

Um beijinho Manuela

Bia

Mar Arável disse...

"Cães como nós"

Kika disse...

Kriu?

Evita foi o ícone escolhido por Eduardo Beauté e seu marido, na comemoração dos 30 anos de carreira de Beauté...

Oriunda de uma atividade circense? Só podia!!!

Kriu!

disse...

Muito icha, apesar de não ser canicha!

Tou nem aí, tou nem aí...

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



... e Evita fez-se gata, dona de si e da sua sombra ...



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Outubro de 2013

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Linda esta história com uma Evita com ar coquette, a viver uma vida que já passou de moda.Que dela cansada se pôs a andar, e eu teria feito como ela...

Uma delícia de texto!

Um abraço
Vitor

. intemporal . disse...

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. e fizeste muito bem . Evita . porque há donos que apenas escolhem e não merecem ser escolhidos . e desfazem.se de vós com o resto da mobília . porque esses donos estão tão cheios de si e especialmente de tantos outros . iguais . o que os leva a não interiorizarem as mais básicas atitudes da condição Humana .

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. e fizeste muito bem . Evita .

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. e fizeste muito bem .

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Isa Lisboa disse...

Ainda bem pelo fogo no final!
Mais tarde ou mais cedo, que tem fogo dentro de si, arde, e a fogueira chama outros!
Um abraço, boa semana

© Piedade Araújo Sol disse...

evita fez muito bem...

cito:

"Agora escolhi um dono, não foi ele que me escolheu a mim."

belíssimo sem dúvida....

:)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Evita...um dia a liberdade...a
saída do carrasco...
De estar aprisionada...
Como nós portugueses nos estamos
a deixar ficar.
Bjs.
Irene Alves

Graça Pires disse...

Olá Manuela! Já tinha saudades de a ler. Foi o que fiz e reconheço na sua escrita sempre a mesma beleza e sensibilidade.
Um beijo.

Kika disse...

És do alto ou do baixo Alentejo?

disse...

Kika, as ciganitas são romenas...

ki.ti disse...

somos do altíssimo

Tejo

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Bom dia
No circo da vida todos corremos riscos e somos quase propriedade de uns treinadores que são empregados do dono.
Vida de cão não é fácil...mas o circo continua. Hoje há ainda os que deitam fogo pela boca e pelos olhos e são muitos os que dançam por um naco de pão duro sem sementes de amor, nem óleo ou açúcar de amaciar ...
Desculpem os tele-espectadores, mas os donos do circo viraram carrascos.
Quando passo por aqui também sonho com momentos comuns da nossa vida política...isto é um circo com palhaços e tudo...