I - ainda agora anoiteceu




Há um primeiro voo de morcego. Entre o candeeiro de rua e o muro pintado de branco contam-se dez paralelepípedos e a lua não está visível. Este instante é lusco, desfoca os objetos, disforma-os, é um ser que perdeu um olho à procura da noite. As mães chamam os filhos distraídos a brincar pelos quintais e repetem três vezes, vem para casa, vem para casa, vem para casa. Como se fora uma reza, uma encomendação. Os animais de pelo macio deixam as tocas, levantam o focinho a cheirar o ar, pacíficos e curiosos. As crias saciadas de alimento e conforto, enroscam-se, talvez sonhem, ou talvez não. A ser este um território apenas humano, como explicaríamos a existência dos seres fantásticos que o povoam.
Era uma vez o guardião de uma gruta escondida na rocha, tapada por uma pedra gigante que jamais alguém fora capaz de deslocar. O seu senhor dissera-lhe, guardarás esta entrada de noite e de dia, com o frio ou o calor, como se lá dentro estivesse o teu bem mais precioso, que neste caso é o meu, e não farás perguntas nem tentarás sequer espreitar pela fresta mais fina ou por outro lugar. Ele disse, sim meu senhor.
Pacientemente guardava a pedra e a gruta e o bem mais precioso do seu senhor. Nos dias escaldantes suava e o suor penetrava na armadura e queimava-lhe a pele abrindo-lhe feridas que muito doíam, mas não se queixava o guardião. Nas noites estreladas olhava as estrelas e sabia de cor a posição de cada uma delas em relação a si, à pedra e à gruta. Foi então que apareceu um rapaz magro que parecia cansado e perdido e o guardião disse-lhe, bebe da minha água e descansa no meu cobertor.
Ele bebeu e dormiu trinta horas seguidas e ficaram amigos os dois.
A terceira casa a contar do início da rua parece abandonada. As enormes portadas de madeira envelhecida têm a tinta lascada e permanecem sempre abertas. A hera cresceu e multiplicou-se, sufocou as laranjeiras, apertou as figueiras e mal respiram os figos e as laranjas amargas. A caixa do correio permanece intacta e todas as quintas feiras o carteiro aí deposita um sobrescrito da mesma cor das portadas de madeira envelhecida.
No entanto, as aves fizeram ninhos nos ramos e o cheiro da magnólia persiste.

Uma noite, o rapaz não resistiu. Deslocou uma pedra saliente, outra e ainda mais uma e pelo buraco formado na gruta, espreitou. E deu um imenso grito.
O guardião tremeu e empalideceu e soltou uma lágrima redonda que rolou pelo chão. Mas o senhor, impiedoso e grosseiro, transformou-o num inseto sem asas.
A lua é plena no calendário lunar.



























18 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Se ainda agora anoiteceu como será o amanhecer povoado da tua fértil efabulação?

Esperemos para ver!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Setembro de 2013

Luís Alves da Costa disse...

Sendo a noite curta, e a luz extensa, como viver intensa, aquela infinita melancolia lunar

das nossas coisas findas?

Vitor Chuva disse...

Olá,Manuela!

Bonita manta de retalhos, hoje: as coisas estranhas que por aqui acontecem com o cair da noite... mais o triste fim do pobre guardião tentado pela curiosidade que matou o gato - a fazer lembrar os marinheiros de Ulisses às mãos daquela malvada Circe.

Bom fim de semana, com um abraço amigo.
Vitor

Kika disse...

Kriu?

Sim, simplesmente obrigada Manuela Baptista, pela beleza dos textos, mas principalmente porque gostaria de escrever um poema para ti, pelo que és, pela tua amizade e agora não me sai da alma nada que não sejam silêncios...mas preciso dizer quanto gosto de ti.

Beijos

Kriu!

disse...

E a Ester, ao que parece, é um bom garfo e escolhe a companhia de acordo com o peso que tem...

Aquele restaurante teve de reforçar os alicerces...

ki.ti disse...

não conheço, Té

mas tu és uma boa companhia

e tens uma nítida preferência pelas trincas da gataria lá do teu monte

Nilson Barcelli disse...

Mais uma história deliciosa como só tu sabes contar.
Excelente, minha querida amiga.
Manuela, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo.

Mz disse...

A noite
é
uma
metamorfose


Eu ansiosa e a medo também deslocava pedras mas quem gritava a maior parte das vezes era eu, pela surpresa.

Bom domingo, Manuela.
Abç

Beatriz disse...

E era uma vez mais uma linda história de ouvir e de sonhar.....

Um beijo Manuela!

Bia

http://odeclinardosonhos.blogspot.com disse...

E é com o anoitecer que todos os seres estranhos saem da toca, percorrem caminhos, soltam lamentos, executam gestos... e regressam de novo à sua toca...
bjs
anacosta

Rita Freitas disse...

A noite nestas palavras torna-se cheia de magia. Um texto cheio de beleza.
Bjs

Silenciosamente ouvindo... disse...

Uma nova história no início do
Outono que como sempre traz uma
mensagem.Ler/reflectir.
Boa semana para si.
Bj.
Irene Alves

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

É na noite que a magia se desprende das almas...e a tua escreveu mais uma linda estória de encantar.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Jacintinha Marto disse...

Felizmente há poemas novos por aqui, se vocês soubessem o que custa a uma acamada andar a arrastar-se de blogue em blogue, para ver uma imagenzinha que não seja a da Santa, ainda por cima, cortaram-me na banda larga, a minha vida é um beco, um vale de atrofia, o "Intemporal" anda parado, venho aqui ver o mar ao fundo, graças a deus esta costa é mais calma do que os atropelos de Carcavelos, onde a terceira e a quarta geração de emigrantes acha que eu sou a pista negra para aterrarem, coitada de quem sofre destas coisas todas, vá escrevendo, que a minha vida é como antigamente, para ir de um blogue ao outro, é pelo menos uma semana de viagem, e deixo testamento.

Bem haja, meu amor, nem toda a gente tem um bom coração piedoso para as acamadas

Isa Lisboa disse...

Curiosa sobre o que aconteceu a seguir...!
Beijos

© Piedade Araújo Sol disse...

e a noite é sempre um mistério...

:)

. intemporal . disse...

.

.

. e,,, .

.

. reparo agora que tudo o tinha para dizer foi já dito pelos anteriores comentadores . é engraçado que todos eles escrevem aquilo em que eu já tinha pensado . é sempre assim . em todos os blogues que visito .

.

. mas . e já que vim por aqui aproveito para reafirmar o quanto gosto de Si . a Nelita vive permanentemente nos meus silêncios . :))) . nos da Alma . :))) .

.

. íssimo feliz .

.

.

Lunna Guedes disse...

Me fez pensar na caixa de pandora. Quanto a noite, acho que um bom punhado de mistérios nos esperam, é só deixar os olhos abertos, mas a maioria de nós prefere fechá-los, não é mesmo? rs

bacio