a carta das estrelas





Tens frio? perguntou o menino. A raposa olhou-o, franzino, os olhos brilhantes, o casaquinho de malha a arrastar. E replicou-lhe, tens medo?
Não, disse o menino, mas posso acender as estrelas do céu e também as do mar. Como te chamas? perguntou a raposa. Menino. E tu? Raposa, respondeu a raposa.
Então o menino trepou para o dorso da raposa, segurou-se ao seu pescoço e começaram a caminhar. Atravessaram o gelo e os ursos seguiram-nos. Percorreram as florestas, os pântanos e os desertos e foram com eles os lobos, os cordeiros, os esquilos, os cavalos, os cães, as garças e os rouxinóis. Um ou outro pinguim e ao longe as baleias e os golfinhos. Às vezes paravam a descansar. A raposa sentava-se, uma estrela cintilava junto da sua orelha direita e o menino pousava a cabeça na sua cauda e adormecia. Os animais silenciavam-se e suspendiam a marcha, o voo, o mergulho, o salto e o canto. 
Não sei quando e onde chegaram, mas nessa noite, singulares foram aqueles que os encontraram e confiaram no traçado desse caminho.



 


Desejo-vos um Feliz Natal!






gosto da chuva fina que apenas vem logo vai





Não te tomo muito tempo. Mesmo sabendo que ele é relativo, longo na infância, fugidio na idade adulta, enganador na velhice, o tempo é a viagem e o regresso e provavelmente, podemos até nem regressar. Só para te falar da ausência de musgo nos caminhos da serra e daqueles três gaios que se encontraram hoje nos ramos da ameixoeira despida. O primeiro chegou às quinze horas e cinco minutos, pousou, abriu as asas e o azul das penas bateu-me nos vidros da janela e eu calada, colada aos vidros e à janela. E logo um segundo o seguiu, assobiou, esticou a cauda e depois um terceiro bebeu água nas poças do quintal e juntou-se aos outros dois, cada um em seu ramo da ameixoeira despida. Às quinze horas e dez minutos levantaram voo e voaram em direção aos pinheiros da estrada. No entanto pareceu-me eterno aquele repouso dos pássaros. 
E num desejo de que a chuva seja breve e fina, deixo-te três romãs, vermelhas e vivas. Quando os Reis vierem poderás contar quantos bagos tem cada uma delas e comê-los devagar. Um pouco antes, procura uma chaminé, uma estrela ou uma rapariga e um menino a brincar.