Lembras-te das joaninhas, predadoras de afídios, ácaros e
cochonilhas, um vai e vem nas costas da nossa mão e depois um sopro, leve, as
asas abertas e o voo livre até às folhas do limoeiro. Dos pirilampos a alumiar
as bermas da estrada e levávamos um para casa escondido num frasco de vidro,
cativo na noite, liberto de manhã. As horas mais quentes a observar as formigas
no carreiro e espalhávamos açúcar para as aliciar e matávamos uma ou duas, para
as ver carregar, pois não as deixavam para trás, não sei se as comiam, se sim, era
a medida exata da nossa crueldade, pois era. Os gafanhotos que nos picavam, o
canto dos grilos e das cigarras, as abelhas assustadas e, no limite, espetavam-nos
o ferrão, põe uma moeda, um cubo de gelo, que isso passa, não passava.
O menino João, não era um menino, era um homem e sabia tudo sobre os insetos e a terra. Os besouros, os escaravelhos, as
libelinhas, as vespas, a polinização das plantas, as sebes, os pomares e as
vinhas rodeadas de outras culturas. O menino João dizia, equilibram a
natureza e nós sabíamos que sim e ele levava-nos a passear na charrete pintada
de azul puxada por um cavalinho branco. Era nosso amigo.
Um dia, João, que não era um menino mas um homem,
teve um desgosto grande, muito maior do que ele. Em desequilíbrio na trave do celeiro,
enforcou-se. E nós lembrámo-nos das formigas mortas e as pessoas hipócritas
cochichavam e diziam, não foi nada, saiam daqui, mas sabíamo-lo invertebrado, o
corpo dividido, cabeça, tórax e abdómen, as pernas articuladas, os olhos compostos e aquele cheiro adocicado
das vinhas e do feno. Perdemos um amigo, mas esse não foi um tempo triste. O
cavalinho branco continuou a pastar por ali e dez milhões de insetos
ensinaram-nos o equilíbrio entre as espécies.
E assim é pleno o verão e ilusória a dimensão dos dias.