parece-me longa a noite e azul a manhã





Lembras-te das joaninhas, predadoras de afídios, ácaros e cochonilhas, um vai e vem nas costas da nossa mão e depois um sopro, leve, as asas abertas e o voo livre até às folhas do limoeiro. Dos pirilampos a alumiar as bermas da estrada e levávamos um para casa escondido num frasco de vidro, cativo na noite, liberto de manhã. As horas mais quentes a observar as formigas no carreiro e espalhávamos açúcar para as aliciar e matávamos uma ou duas, para as ver carregar, pois não as deixavam para trás, não sei se as comiam, se sim, era a medida exata da nossa crueldade, pois era. Os gafanhotos que nos picavam, o canto dos grilos e das cigarras, as abelhas assustadas e, no limite, espetavam-nos o ferrão, põe uma moeda, um cubo de gelo, que isso passa, não passava.
















O menino João, não era um menino, era um homem e sabia tudo sobre os insetos e a terra. Os besouros, os escaravelhos, as libelinhas, as vespas, a polinização das plantas, as sebes, os pomares e as vinhas rodeadas de outras culturas. O menino João dizia, equilibram a natureza e nós sabíamos que sim e ele levava-nos a passear na charrete pintada de azul puxada por um cavalinho branco. Era nosso amigo.
Um dia, João, que não era um menino mas um homem, teve um desgosto grande, muito maior do que ele. Em desequilíbrio na trave do celeiro, enforcou-se. E nós lembrámo-nos das formigas mortas e as pessoas hipócritas cochichavam e diziam, não foi nada, saiam daqui, mas sabíamo-lo invertebrado, o corpo dividido, cabeça, tórax e abdómen, as pernas articuladas, os olhos compostos e aquele cheiro adocicado das vinhas e do feno. Perdemos um amigo, mas esse não foi um tempo triste. O cavalinho branco continuou a pastar por ali e dez milhões de insetos ensinaram-nos o equilíbrio entre as espécies.
E assim é pleno o verão e ilusória a dimensão dos dias. 








6 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Ah, mas é triste sim essa história.
Obrigado pela leitura e incentivo.

:)

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


e assim é plena a ilusão e fugidia a dimensão do tempo



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Junho de 2017

Graça Pires disse...

A infância: o tempo em que a inocência nos torna indiferentes à magia dos lugares, costumo dizer. Mas tu, Manuela trazes a magia nas palavras que escreves, nos desenhos que fazes. Os insectos são tão reais. O João com um desgosto maior que ele. O cavalinho branco. a "ilusória dimensão dos dias".
Sempre me sensibilizo a ler-te, já to disse...
Um grande beijo, minha Amiga.

Beatriz disse...

E os insetos pululam em mais um dia pleno de verão, como deve ser... apesar dos pesares...

Bons ventos Manuela!

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

. intemporal . disse...

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. a jacintinha é que anda sempre exaurida com estes bichinhos . :) .

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. e ilusória é tanta "escrita" que se encontra por aí . que mais não é do que lixo . (editado em livro) . para vergonha de Camões e da Língua Portuguesa .

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. felizmente que nunca encontrei nada disso aqui . :) . nem tal seria expectável . :) .

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. íssimo feliz .

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Mar Arável disse...

Mais um texto para reflectir
ouvi dizer às andorinhas
Bj