os idos de março









Escondemos uma chave no vaso verde-musgo da entrada. Existem outros ritos, debaixo do tapete, atrás da coluna do lado esquerdo, na caixa do correio, no cesto do gato, mas este é o mais seguro. Ninguém procurará uma chave de casa escondida no vaso verde-musgo da entrada. Os muros, as grades, os sistemas de vigilância, os alarmes sonoros, os cães que ladram e não mordem, alimentam o imaginário urbano e aquele que pretende entrar, entrará sempre, independentemente dos obstáculos que se lhe deparem. Já vos falei da rã, que por terem deixado secar a água da Casa dos Lagos aqui da rua, atravessou a estrada, saltou duzentos metros e mudou-se para o vaso verde-musgo da entrada. Coaxou o inverno todo e agora calou-se. Foi-se embora neste mês de março. A chave guardou a memória da rã, dos lagos, dos mosquitos ao entardecer, dos saltos altos. Um dia destes abala, em busca da rã ou de uma porta pintada de verde-esmeralda. 











13 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Ainda bem que a rã tomou conta da chave. hahahaaha

=)

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


não bastasse a história, os desenhos, são maravilhosos os teus desenhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Março de 2017

Benó disse...

Estou a ver uma chave aos saltos a imitar uma rã em busca duma porta pintada de verde mas que, também, poderá ser pintada de azul, da cor do céu. Quem sabe? Um bom domingo e se a chave desaparecer, já sabes. Procura um a porta verde ou azul.

. intemporal . disse...

.

.

. destaco os tons de azul . belíssimos . a aproximarem.se de uma exactidão de um tom que supomos não ser possível alcançar .

.

. íssimo feliz .

.

.

Graça Pires disse...

O vaso verde-musgo que guarda a chave, que acolheu a rã é o lugar onde se acoitam as palavras e se conquista o silêncio desta maravilhosa história, Manuela.
Os teus desenhos são tão belos!
Uma boa semana. Um beijo.

P.S. ainda não me conformei...

Rogerio G. V. Pereira disse...

Sou mais prático e não tenho vaso
Deixo a porta no trinco
E quanto àquela pequenina rã, um dia encontrada na alface, convenci o Diogo a libertá-la, no lago que existe do outro lado da estrada.
(coisa de que me arrependi, pois ao irmos lá visitá-la confirmámos que levara sumiço.
Um dia perguntei a uma gaivota que me sobrevoava a casa se a comera. Ela respondeu, num grasnar conhecido,
que já nem se lembrava disso)

O Puma disse...

Prisioneiros com chave
de todas as cores

Luis disse...

Belo, belo vaso, e belas flores,
apenas gosto do verde almofadado,
que é do musgo:
dá-nos olhos nas pontas dos dedos

. intemporal . disse...

Alguém viu a ki.ti?

Jacintinha Marto disse...

Para eles não há calendário, só noites escuras, saem desembestados do curral do "Luanda",
não é cá por coisas,
elas,
da segurança social,
á deviam saber que há lugares onde não se deixa uma aleijada,
mas vão namorar com os homens delas,
ninguém namora a empurrar uma cama de rodinhas,
e eles até são muito simpáticos, já houve dias em que se estava a esfregar na soror Irene, ainda me caiam os dois em cima do colchão, dizem que as aleijadas se partem, se nos cair em cima um par de leões marinhos, a menina Irene está com mais uns quilitos, e ele nem se fala, careca e tatuado, coitada de mim, é por isso que eu aceito ser deixada nas esquinas de Alcântara-Mar,
um chama-lhe deixar a coxa ao relento, eu acho que é o meu calvário,
que aliás fica ali ao lado,
fosse a noite menos longa e eu estaria sozinha, o problema é quando eles vêm soltar a franga entre os latões de lixo, trazem a chave na mão, querem esconder a chave em qualquer lugar, o vaso da entrada que está mais à mão é sempre a aleijada,
quais muros, grades, sistemas de vigilância, alarmes sonoros, cães que ladram e mordem, eles alimentam o imaginário urbano e aquele que pretende entrar, entrará sempre, independentemente dos obstáculos que se lhe deparem,
eu que o diga, antigamente vinham de lanterna na mão,
agora,
já só acendem o isqueiro, e toca de carregar no fardo,
coitado do fardo, que nada sente e nem se defende,
chega a noite, contam as irmãzinhas que até mortos houve,
e eu, beata e melancólica,
nem coragem tenho de perguntar se foi morto algum daqueles que me levou ao martírio,
o meu grande sofrimento é ter ficado viúva involuntária de um par de rastas,
meia hora tão longa, e nem a aliança me meteu no dedo,
só as chaves todas, nos vasos que calharam,
se isto não é um horror, então onde está o horror,
jacinta?... :-/

Jacintinha Marto disse...

Só voltei cá, meus amores, para vos dizer que já sou santa,
falam pouco dos meus milagres, mas são muitos, apaziguei a sociedade e tenho resolvido no meu regaço muitos dos problemas sociais dos condomínios da Cova da Moura.
Há quem chame ao meu colchãozinho com quatro rodas o Obamacare, embora eles agora até tragam os amigos arraçados de brancos, fosse viva a Lúcia, que nunca compreendeu como eu vivia em silêncio esta dor, e diria que, das santas, a haver santa, primeiro vai a Jacinta, que é a que tem o corpo mais sofrido, pareço aquele pezinho da estátua do sr. são pedro, em roma, onde todos têm de passar a mãozinha,
fosse só a mãozinha que roçam em mim, seria uma harpa dedilhada, mas é mais do género de me fazerem vibrar a membrana dos tímbales, pareço uma marcha marcial de cada vez que lhes tocam as trompetas da lua cheia,
milagre é ter-me passado tudo por cima, gerações das ilhas secas, ainda às vezes o avô deixou em em cima as cascas de amendoim, já o neto fuma brocas em cima da carcaça da aleijada,
milagre, dizia eu ao santo pai francisco,
santo pai, francisco,
milagre foram estas multidões que me sulcaram as rodas
e eu nunca ter sentido nada,
pudesse eu sentir,
mas milagres desses ainda não,
fica a dor da aparição...

mム尺goん disse...

A flor do poema se abrindo....



beijo

Agostinho disse...

Chaves há que se dissimulam de rã e que saltam no peito vestidas de vermelho onde ninguém as descobre a não ser o dono.
Bonita é a rã, ou a chave, ou a rã, ou a... da história.
Bj.