o pássaro redondo e o pé-de-flor






Era uma vez um pássaro que apenas gostava de bagas azuis. Quando abundavam os arandos, ele devorava-os sofregamente, arredondava-se, as penas tingiam-se de azul-celeste e a cauda, de azul do mar.
Não gosto de morangos, não gosto, piava o pássaro. Não gosto de groselhas, nem de framboesas, nem das amoras do campo, insistia o pássaro. E cambalhotava por ali e nos dias de sol, ninguém via o pássaro, azul sobre azul, ou por sobre o mar.
Às vezes chocavam com ele as escrevedeiras-das-neves e ele assustava-se, perdia o equilíbrio, caía nas ervas ou nas pedras, com a cabeça a girar. Foi num destes momentos que encontrou o pé-de-flor. Redondo, como ele. O pé-de-flor pertencia à espécie de plantas inventadas pelas escrevedeiras-de-pescoço-preto e abria-se em pequenas bagas de muitas cores. Que falta de sensibilidade, pensou o pássaro ao contemplar a planta. Mas como ainda se sentia estonteado da queda, calou-se e o pé-de-flor embalou-o num canto manso e o pássaro fechou os olhos e adormeceu.
O pé-de-flor habituou-se aos voos intrépidos do pássaro e às suas aterrizagens forçadas e gostava da sua companhia. Todos os dias o pássaro pousava na relva e comia uma baga do pé-de-flor, ora vermelha, ora amarela, ora branca. E durante a noite, uma baga tomava o lugar da outra e o pé-de-flor crescia e coloriam-se as penas da quilha do pássaro e eram ambos visíveis e afáveis para todos os seres alados e outros animais de quatro patas.
No entanto, a cabeça do pássaro permaneceu azul.





















9 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


...permaneceu azul, da cor de um mar celestial como o de Histórias Com Mar Ao Fundo ...


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 24 de Fevereiro de 2017

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Tu desenhas excelentemente, trabalho profissional mesmo.
E os textos sempre carregado de alusões e metáforas, tranquilos e agradáveis, ainda que muitos sejam tristes.

:)
Marcos

Benó disse...

Que bonito!!! Só conhecia o pé de flor como bordado. Agora alarguei os meus conhecimentos e fiquei feliz pelo pássaro de cabeça azul.

Graça Pires disse...

Uma história mágica que me sensibiliza sempre. É na diversidade que reside a beleza. Quase que inocentemente nos dizes isso, Manuela... E a cabeça não precisa de mudar... Tudo muito belo! Adorei o pássaro redondo.
Uma boa semana. Um beijo, minha Amiga

Rita Freitas disse...

Adorei como sempre. Saio daqui sempre com paz no coração. Obrigada

Beijinhos

Mar Arável disse...

Pensam azul
Belo

Bj

Beatriz disse...

Eu já prefiro as berries, todas vermelhas!
Mas gostaria muito que um pássaro azul pousasse na minha janela para ouvi-lo cantar...

Beijinho grande Manuela

Bia <º(((<
www.biaviagemambiental.blogspot.com

. intemporal . disse...

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. a genuinidade dos animais é o maior conforto que trago comigo na epifania de todos os dias .

.

. e.será.sempre.assim . :) .

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. e é este conforto que um dia espero levar comigo . :) .

.

. íssimo feliz .

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Luis disse...

Esse pássaro é como a felosa,
não fosse ele verde: surge súbito, de frente, e procura um mundo redondo e completo, nas árvores
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