II - e o seu coração também galopava









Despontaram as morganheiras-das-praias e o feno-das-areias e junto aos muros cobertos de hera, as primeiras frésias de fevereiro. O unicórnio foi ficando uma noite e um dia e a lua cresceu, minguou e desapareceu e ele seguia o homem e o cão pela terra antiga e regressava com eles à casa da torre. O homem tinha colocado os cordões raros num cesto de vime junto à lareira para que o unicórnio os visse, pois acreditava que possuíam uma finalidade, um propósito, por ora ainda desconhecido. E o unicórnio abanava a cabeça para cima e para baixo, mas não dizia nada.
O homem imaginava o unicórnio possuidor do dom da fala, embora não o pudesse demonstrar. Por isso relatava-lhe todos os acontecimentos da aldeia, os passados e os atuais, como aquele cinzento que teimava em cobrir as fachadas, as pedras da calçada e o cabelo das pessoas.
Numa manhã de sol apareceu um rapaz magro no quintal da casa. O homem plantava amores-perfeitos nos canteiros, o cão dormia e o unicórnio volteava por ali a tasquinhar ervas daninhas. O rapaz foi-se aproximando timidamente, estendeu a mão direita, o unicórnio estacou à sua frente, resfolegou, sacudiu as crinas e por fim cheirou-lhe a mão. O rapaz deu uma gargalhada cheio de cócegas, pousou-lhe a mão no focinho, acariciou-o, observou o corno, tocou-lhe com a ponta dos dedos. Tirou do bolso das calças um cubo de açúcar mascavado e o unicórnio trincou-o.
O rapaz conhecia o homem que pintava e imaginava-o possuidor do dom dos prodígios. Fora ele que desenhara nas paredes do seu quarto um cavalo alado e desde então nunca mais tivera pesadelos. O rapaz não gostava da escola, preferia deambular pela praia, apanhar conchas, procurar cavalos-marinhos. Era um rapaz calado que gostava de cavalos e de prodígios e jamais vira um cavalo assim.
Só nos livros, nas estampas e nos sonhos, disse-lhe o homem adivinhando-lhe o pensamento. O rapaz fez que sim com a cabeça e sorriu. O homem entrou em casa, pegou no primeiro dos cordões que o unicórnio trouxera, colocou-o no pescoço do rapaz e pegando nele ao colo, sentou-o no dorso do animal. Galoparam os dois pelas dunas, pela areia da praia e pela aldeia dentro. Nos quintais estremeceram de espanto os pessegueiros em flor.
E todas as manhãs o rapaz aparecia, ajudava o homem, tratava do unicórnio e do cão. Um dia uma rapariga seguiu-o e depois mais duas crianças e ainda uma quinta, até que os cordões se acabaram no cesto de vime e eram muitas as crianças que ao entardecer subiam no dorso do unicórnio e galopavam pela praia e os seus risos semelhantes a um rio a correr. Lentamente os cabelos das pessoas foram ganhando cor e quando alguém acordava com o cabelo verde ou encarnado, isso era uma boa notícia.
O tempo foi passando, o rapaz cresceu e partiu. O cão também. Os cabelos das crianças voltaram a ser castanhos, louros ou pretos e os olhos das pessoas a brilhar, a refletir o sol na calçada. O homem envelhecera, o unicórnio não. No entanto faltava ainda um trabalho que o homem queria realizar. Comprou cem metros de tela branca, esticou-a nas traseiras da casa e começou a pintar uma floresta cerrada, virada a norte, cercada por campos de aveia, cevada e beterraba. Para que o unicórnio nunca passasse fome, para quando o unicórnio quisesse regressar a casa. E deu-a por terminada.
Uma noite em que o homem dormia e sonhava, o unicórnio retirou do seu pescoço o cordão antigo e colocou-o no pescoço do homem dizendo-lhe, esta é a minha casa. Num salto, galopou pelos campos de aveia, cevada e beterraba, embrenhou-se nas densas florestas do norte e o seu coração também galopava.
Esta é a história do homem que imaginava o unicórnio possuidor do dom da fala, embora não o pudesse demonstrar.









o unicórnio

I - na ourela do mar
II - e o seu coração também galopava









16 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


... mas falava, falava quanto amava ...


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Fevereiro de 2016

Hanaé dos Ossos disse...

Galopava o seu coração, como eu gosto de unicórnios, animais de raça, um só osso enfiado na testa, e as coordendas do unicórnio, tudo no unicórnio são coordenadas, a cavalgar, a desossada encosta às boxes, é Carnaval, Manuela, fale-lhe dos desfiles,
do Carnaval do Animais, do tric-trac das costelas,
rótulas com rojões,
tendinites à Alentejana,
hoje
há festival do chocolate, vão-se os molares ficam as gengivas, ou vice versa, fale-lhe dos unicórnios,
nunca seu nome será infame,
e sabe disso,
perdoe aos bois que perderam um galho e andam a fazer de unicórnios para disfarçar,
e agora vou desfilar, espalhar os meus ossos por Ovar, quero ser a anda coxa põe-tem em pé do Paulo Santana Lopes, e ter milhões de vértebras metidas numa cave em casa,
e a cave sou eu

Luis disse...

Para o unicórnio, todas as vogais são brancas: são sempre uma desculpa para a espuma, quando chegar o tempo de voltar ao Mar,
ou ao Mito,
o que é idêntico

Luis Alves da Costa disse...

Domingo gordo, depois de sábado de aniversário :-*

Luis Alves da Costa disse...

"O homem envelhecera, o unicórnio não",
e nós também não :-)

Jacintinha Marto disse...

Vim de Fátima, aluada, do recolhimento da Senhora,
só parada nas portagens pela Brigada da GNR, que já se habituou a ver uma cama rolada de Fátima ao Louriçal,
fizeram-me o teste das vogais, JAcintaA tem dois Ás e um I, e o A é negro, diziam elas,
e pudesse eu encolher os ombros tê-los-ia encolhido,
não posso,
encolho-me mas é toda cá por dentro, eu já sabia que tinha duas pegadas negras no nome,
fosse eu cega dos olhos, e o I seria violeta, como a cor do cair da noite, quando eles atacam,
da cor das vogais,
que tens aí, é um unicórnio,
não minha bem aventurada,
é uma visitação de São Vicente,
encostas quentes da Ilha do Fogo,
pudesse eu senti-los,
olhe, parabéns,
do alto dos meus 100,
invejo eu os seus lindos vintes,
bem haja :-)

Graça Pires disse...

Até eu senti o meu coração galopar enquanto li a tua história maravilhosa, Manuela. Tens uma imaginação prodigiosa e esta intimidade fantástica com as palavras certas...
Um beijo.

Beatriz disse...

O meu cabelo também vai mudando de cor, dependendo do humor... Que pena que o unicórnio ainda não apareceu por aqui, acho que não gosta de clima quente!

Beijinhos Manuela

Bia <°(((<

Mar Arável disse...

Belas as suas palavras aladas
Sempre
Bjs

mz disse...

Acreditar no que temos quase a certeza mas não a vemos, apenas a sentimos, é ter fé na vida e esperança de que um dia essas coisas se revelarão sob qualquer forma.

É lindo escrever assim, eu adoro.
Obrigada Manuela.

Beijinhos

. intemporal . disse...

Um beijo de Koh Samui :)

manuela baptista disse...

boas viagens Intemporal!

Luis disse...

Vai haver um dia em que unicórnio vai conhecer as opalas de Wello, e ficará o Unicórnio das Opalas, viajante dos mares turquesa :-)

© Piedade Araújo Sol disse...

e a minha imaginação também galopou ao sabor das palavras

tão belo isto!

beijinho

:)

Luis Coelho disse...

Que maravilha viajar nestas histórias.
Parece que fazemos parte e deixamos que os acontecimentos nos pintem de outras cores.

Agostinho disse...

Eu li e vi. Por que artes de magia as palavras fugiram? Até as tinha pintado para que ficassem gravadas