sete pedras no bolso









Firme como uma rocha, para dizer das coisas sólidas, fiáveis, que permanecem ao nosso lado e no entanto não fica pedra sobre pedra se a terra tremer e magoa-nos o pé se caminharmos com uma pedra no sapato.
As avós aconselhavam pedra-pomes nos cotovelos e no dedo médio para amaciar, não fossem os calos aparecer de tantas cópias que fazíamos sobre a mesa de pedra da cozinha. E elas a afiarem as facas na pedra de amolar, antiga, gasta e aprendíamos a arte das facas afiadas na pele das batatas e na nossa pele também.
Lá fora a chuva de granizo que era de pedra e nós às mãos cheias a sentir o gelo e uma flor mais frágil a crescer no meio do branco e as violetas nos muros de pedra solta. Os putos da rua a brincar com as fisgas e um fio de sangue na testa, um dia.
Para lançar sobre o mar ou um lago, devem ser achatadas, seis por três centímetros, peso médio. Obtemos assim a conjugação perfeita de um toque na água e um voo, dois toques na água, dois voos e por aí fora, até a pedra desistir de ser ave.
De cada lugar amado trazemos uma pedra, que nos marca e não o contrário e espalhamo-las pela casa, sobre os guardanapos, as tampas das panelas, as contas do gás. A prender a toalha de mesa nos dias de festa, a segurá-la do vento que sempre se levanta nos dias de festa.
Para ser preciosa, compro um casaco de xadrez azul com muitos bolsos e neles guardo as que se formam na fissura de uma rocha, feitas de água, fogo, luz. E a cada hora solto uma, o universo, o fundo do mar, o ocaso, as estalactites de uma gruta, o olho da criação.







Opalas












e ainda Opalas








15 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


o olho da criação às pedras no sapato as liberta e acomoda


Lindo!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Fevereiro de 2016

Luis Alves da Costa disse...

Toda a ficção assenta nas pedras sólidas, mas ao chegar ao fim das letras e das linhas ganham as opalas inefáveis, cujas cores não se deixam apanhar,
exceto,
ah, sim,
exceto nestas maravilhosas brisas da Manuela BaPtista :-)

Beatriz disse...

Aquelas pedrinhas redondas do fundo do rio, como me lembro bem....bons tempos de uma infância que não volta mais!

beijinho Manuela

Bia <º)))<

Benó disse...

Jogar às 5 pedrinhas ou seriam 7? Guardar as pedras do granizo dentro dum frasco quando caía chuva de pedra, gelada. O homem mau que tinha uma pedra no lugar do coração.
Hoje já não sei jogar com as pedrinhas. Não guardo o granizo quando chove. Mas ainda há muitos homens maus com pedra no peito em vez do coração.
Gostei de te ler, Manuela.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Quando me vierem falar
Com sete pedras na mão
Falarei destas tuas
Para lhes tocar o coração

(o Diogo consegue três toques na água!)

Marcos Satoru Kawanami disse...

Muito bem escrito.

=)

Mar Arável disse...

Belos seixos
que por aqui um dia
foram lastro de navios

Bj

Graça Pires disse...

As pedras. Gostei das que voam em paisagens líquidas atiradas por mãos mágicas... Só posso dizer-te que quando comecei a ler o teu texto me senti com as mãos cheias de pedras e todas ganharam asas. Bem hajas, Manuela por deixares que a tua imaginação se me cole à pele...
Um beijo.

Maria Eu disse...

E das pedras se fez a beleza costumeira!

Um beijo, Manuela :)

Hanaé dos Ossos disse...

Fale-me da pedra pomes, Manuela, da pedra pomes,
coisa mai'linda,
enquanto as outras se vão espojar na areia, com escaldões nas peles, a sua Hanaé, a descarnada, a vértebra sempre em pé, só se roça pelas pedras pomes,
fale-lhe das pedras pomes, que tão macias são para os perónios,
o meu colchão de água é feito de pedra,
e eu atiro-me toda lá para cima, e parece o banho de sol das marimbas, o descair dos cimbalões, viesse eu com as coordenadas de Pnom-Pehn, mas o meu cambodja é outro, é estar toda aos estalos na pedra pomes,
nunca tive uma transfusão de sangue,
sou uma exagerada,
só me consolam transfusões de medula,
cada uma que por aqui passa,
caio no chão de olhos revirados,
e as estrelinhas que vejo são todas opalas,
sem coordenadas

© Piedade Araújo Sol disse...

escrita deliciosa que nos transporta a cenas que nos morreram na memória.
entre o fascínio da imaginação algo se entrelaça com a realidade.
tenho um fascínio por pedras, sei que é esquisito e sim, guardo pedras de vários locais por onde passei.
adorei ler-te
obrigada!
beijinho amigo
:)

Jacintinha Marto disse...

Quis a fada madrinha da Cova da Iria passar por mim, e disse,
Jacinta, serás uma opala branca,
pensava eu que fosse um fado e um dom, e não o peso de um martírio,
a raiva que eu tenho aquelas irmãzinhas da Fraternidade Missionária do Cristo Jovem, em Requião
vieram com a promessa de me pôr a andar, e eu desenganei-as logo,
isso nem Deus, querida, portanto, é melhor passar adiante...,
mas elas já levavam o mal no coração, ainda era o tempo da pág. 603 do Teletexto da SIC, só porcarias e anúncios contra a natureza, só muito depois é que percebi que a irmã Purificação punha lá o meu número de telefone com uma mensagem horrível,
és mulato jovem e atraente, queres humilhar a branca?...
nunca mais pararam de bater à porta,
e foi assim que choveu, pó e cinza, como em Sodoma, e eu fui submersa por cinzas negras, de carne e osso,, eu, a opala branca, a deslavada dos produtos lácteos, a OMO-Persil dos santos sudários,
a anémica do "trêuze" de maio,
e foi assim que o meu tormento começou...

Olhe, adorei as opalas, sempre são um pouco de cor alternativa às minhas nódoas negras :-)

Agostinho disse...

Boa noite, Manuela.
como sempre, uma imaginação eterna, ilimitada, a dar-nos memórias ternas.

“E aprendíamos a arte das facas afiadas na pele das batatas e na nossa pele também”
recordo a profilaxia da saliva no dedo confundindo vermelhos na boca.

“Os putos da rua a brincar com as fisgas e um fio de sangue na testa, um dia”
e, no meio do branco, a ver estrelas quando o dia ainda crescia.

“Até a pedra desistir de ser ave”
na modalidade do duplo, triplo, quádruplo, quíntuplo … salto, em razão da perícia e força de lançamento à cabeiro da pedra azada, que se afirmasse asada.

“De cada lugar amado trazemos uma pedra que nos marca e não ao contrário”
e nós que temos a mania de marcar percursos com marcas acabamos nós próprios marcados por uma pedra.

“Compro um casaco de xadrez azul com muitos bolsos e neles guardo” pedras
para espantar pardais e lobos que me perseguem por todo o lado.

Grato pelo pitéu.

Luis disse...

" o universo, o fundo do mar, o ocaso, as estalactites de uma gruta, o olho da criação",
sim, sempre que releio este texto, acho que é isto, mas os últimos bolsos serão os nossos olhos,
espelhos de estrelas

Agostinho disse...

Manuela, voltei para ver se a pedra ainda saltava: cabeiro, não, CABREIRO, guardador, apascentador de cabras! Que são cabriolas.
Daí o jogo da pedra para as conter.