I - na ourela do mar








Era uma vez um homem que habitava uma terra antiga virada para o mar. Possuía uma casa com uma torre, um cão e uma caixa de madeira com tintas e pincéis. Considerava-se um homem rico, não tanto pela casa, pelo cão e pela caixa, mas pela alegria que sentia quando pegava nas tintas e nos pincéis e pintava para fazer as coisas acontecerem. Quando um vizinho ansiava por uma boa pescaria, chamava-o e ele desenhava na parede da casa, o barco, as redes, a lua e os peixes a saltar. No dia seguinte o pescador regressava à praia com o barco carregado de peixes. Se uma mulher desejava a cabeça cheia de sonhos, o homem pintava-lhe um chapéu de estrelas e ela não parava de sonhar. Se um menino imaginava uma bola mágica que nunca falhasse as balizas, o homem pintava-lhe a bola de sóis amarelos porque até hoje o sol não nos falhou um amanhecer.
Também por ali paravam os nómadas, armavam as suas tendas e procurando o homem que fazia as coisas acontecerem, pediam-lhe, pinta-me um destino bom na palma da minha mão e ele pintava e o cão ladrava. Outros havia que desejavam ódios e cobiças e o homem respondia-lhes que esse era um traço que ele não sabia desenhar, uma ausência de cor. Nesses instantes o homem inquietava-se com o seu talento e pensava que talvez fosse melhor pintar apenas para si. Regressava à casa da torre, subia ao terraço onde se avistava o alto mar e do lado de terra a vegetação dunar. O cão colocava as patas dianteiras sobre o varandim e o homem acariciava-lhe longamente a cabeça até que a noite chegasse e se ouvisse ao longe o grito das aves marinhas.
E sem dar por isso alterou a sua forma de pintar. Pediam-lhe boa fortuna e ele pintava um pássaro preto e amarelo. Ambicionavam colheitas fartas e ele pintava um coelho e se o pedido era uma grande viagem, desenhava uma baleia azul. Os vizinhos não acreditando no poder mágico dos animais, deixaram um a um de o solicitar e as casas, os chapéus e as bolas daquela aldeia foram ficando cada vez mais cinzentas. O homem não se importou, possuía sempre uma tela em branco em qualquer lugar.
E dormia tranquilo todas as noites e foi numa delas que um ruído estranho o despertou como se uma mão muito delicada tivesse batido nos vidros da janela. O cão espetou as orelhas, deu uma volta sobre si próprio e enroscou-se novamente. De manhã, pendurado no batente da porta de entrada, encontrou um cordão de metal trabalhado, raro, talvez tão antigo como a terra que habitava. Na manhã seguinte, um outro e depois mais outro, até perfazerem seis cordões raros e antigos. O homem guardava-os como um tesouro e na noite do sétimo dia não dormiu e ficou com o seu cão no terraço da torre e no momento em que o ruído estranho se repetiu, ele desceu os degraus dois a dois, descalço, para não fazer barulho e o cão atrás, com patas de veludo. Abriu a porta e à sua frente estava um cavalo castanho claro, um corno em espiral na cabeça e ao pescoço, o sétimo cordão dourado.
O coração do homem bateu mais depressa e se por um acaso não tivesse emudecido de espanto, diria, quem te desenhou, de onde vens, o que pretendes de mim. Mas não disse nada.
E como era ainda madrugada, a lua plena e o frio de janeiro apertava, preparou-lhe uma cama de palha seca para que descansasse, deu-lhe a comer uma tigela de aveia e duas maçãs e adormeceram os três junto à lareira, o homem, o unicórnio e o cão.







 e porque há sempre uma folha em branco e a pressa não está na minha natureza, continuarei a falar-vos do homem, do unicórnio e do cão





o sexto cordão





























a casa do pescador



a casa da mulher do chapéu e do menino















20 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Fico ansiosamente à espera, vá, continua!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Janeiro de 2016

Marcos Satoru Kawanami disse...

"porque até hoje o sol não nos falhou um amanhecer" é verdade, e passa quase desapercebido.
Gostei que pintaste as casas dos personagens.

=)

Benó disse...

E nós ficamos a aguardar mais histórias do homem, do cão e do unicórnio.
Até lá.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Há um não sei quê
que me coloca
sempre
no itinerário da tua história

É que um dia
um homem assim
com telas assim
com poderes assim

me desenhou o sono

e ainda hoje durmo
como se fosse um justo

quanto ao cão, também o tinha
mas desapareceu
e o unicórnio ainda não chegou

Mas espero por eles
enquanto aguardo, leio-te

Luis Alves da Costa disse...

"A lua plena e o frio de janeiro"
neste ano de 2016 oferecidos na forma plena da lua cheia da brisa amena.

Este é um conto que anuncia a primavera

Beatriz disse...

Que bom passar por aqui hoje Manuela, encantada!
Que bom que as folhas em branco existem...

Beijinho

Bia

Graça Pires disse...

Fico sempre tão interessado no que escreves, Manuela. Tens uma escrita e uns desenhos que me sensibilizam pela magia. Fico ansiosa para ver o que vem a seguir.
Um beijo.

Jacintinha Marto disse...

O Senhor que morava na torre e pintava com pincéis, chegaram lá as irmãzinhas da Segurança Social, a mando do Sr. Santana Lopes, e disseram, pinte-me uma coisa que dê prazer a esta nossa acamada,
e o senhor sacou dos pincéis e fez um cartão com o número de utente desta vossa doente, o número que me abre todas as gavetas das farmácias, o óleo para as juntas, o Calcitron para as osteoporoses,
deus me perdoe, nisso não quero marcas brancas, só tomo o da Simone, se ela toma e está naquele estado aquilo deve ser mesmo bom,
pudesse o Calcitron pôr-me a andar,
e levantei as cervicais e disse, senhor que moras na torre e pintas com os teus pincéis, pinta uma cadeira voadora onde esta tua enjeitada possa levitar, e ele só sorria, tinha recebido um email do Steve Hawking a pedir o mesmo,
minha filha, pinto, mas não faço milagres, não sou o Tino de Rans, nem aquele padre do PCP, fizeram uma sondagem à boca da hóstia e perderam,
pede-me coisas simples,
e eu,
pinta uma coisa que me faça ver as estrelas,
e ele agarrou num carvão e desenhou aquela rampa da Cova da Moura que aparece em todas as reportagens do Correio da Manhã TV, e só me dizia, o caminho é por ali, um vale de lágrimas, o vale das dores, a agonia dos pincéis, pudesse eu sentir alguma coisa, vai ser a minha carta de desejos para o Professor Marcelo, queria sentir alguma coisa, nem que fosse toda espetada naquelas agulhas de vitrola do Caruso, 78 rotações por minuto, mais os riscos e os dentes falhados, pudesse eu pintar com pena grossa...
olhe,
adorei :-)

Jacintinha Marto disse...

... esqueci-me de falar das aves marinhas,
há noites em que guincho como uma gaivota,
felizmente não há vizinhos,
Sttau Monteiro...

© Piedade Araújo Sol disse...

sempre muito viciante esta escrita da Manela, gostei da magia e das imagens que tão bem ilustram tao bela estória.

aguardemos a continuação...

beijo

:)

Hanaé dos Ossos disse...

Quando é que ele me pinta uma travessa de ossos?...
Quando é que ele me pinta uma cesta de omoplatas?...
Quando é que ele me desenha um cesto de tíbias?...

Manuela, peça-lhe para ele me pintar um caixote de bacias, quero ser a dançarina, a louca, a desvairada, a Hanaé das Omoplatas, quero descer toda nua o Chiado, a bater castanholas com as minhas tíbias, quero ser a Salomé das sinóvias, a Mata Hari dos Fémures, passar pela carrinha da Amália, que tanto canta depois de morta, e dar-lhe as coordenadas dos meus perónios, quero ser a costela menina que canta sem microfone, a cantadeira das vértebras,
truz, truz que truz,
ai, este batuque me embala as ancas,
precisamos de tão pouco para ser só ossos, ocupamos tão pouco espaço no Metro,
e, se nos empurram, espalhamo-nos como um dominó pelas escadinhas todas do El Corte Ingles,
Manuela,
diga-lhe que vá buscar a paleta, que tem aqui uma desvairada, a louca, a Tíbia todas as Tíbias,
quero ser a Ode Triunfal da Coluna Vertebral,
o tique tique do cóccix,
um cimbalinho do cimbalão,
toda eu a assobiar pelas minhas vértebras,
fale-lho dos ossos, Manuela,
peça-lhe para me pintar toda, que sou um teto arruinado, caíram-me em cima as ogivas inteiras do Convento do Carmo,
tivesse eu gengivas e não só salivas,
dê-me as coordenadas do hospício,
para me arranjarem um quartinho low cost,
por favor,
Manuela...

Majo disse...

~~~
Quanta criatividade, Manuela!

Refiro-me ao delicioso conto e às pinturas...

Grata pelo deleite
da leitura de tão interessante prosa poética.

~ Fico aguardando o final...

~~~~ Abraço amigo. ~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Luis Alves da Costa disse...

Quero ser silencioso
e só pintar opalas,
até o inverno virar a página,
e depois da página :-)

Preta da Limpeza disse...

Quando a arte é bela, vem a mancha do costume: a maja vem agora de majo.

Se precisar de ajuda para a limpeza, a vassoura está pronta. 2016 vai ser um ano de desinfestação

. intemporal . disse...

.

.

. สวยมาก . :) .

.

. จูบมีความสุข . ขึ้นอยู่แล้ว .

.

.

Tripa Seca disse...

Treco
treco
treco
treco :-)

Tripa Seca disse...

Hanaé dos Ossos parece Marli cantando :-)

Tripa Seca disse...

... e o Majo cheira à maja das insônias

Rita Freitas disse...

Sente-se a magia e o encanto nestas palavras. E eu aguardarei por mais.

Beijinhos

Agostinho disse...

Com trincha e tinta se pinta
histórias de bem desejar
A Manuela que escreve e pinta
tem sempre boas para dar

Até à próxima, boa inspiração.