ainda este verão












































Os grilos são agora raros como os pirilampos. Excessivos, o ruído e a luz. Em tudo o mais nada mudou, talvez a hera a romper os muros a força que tem.
Os bancos do jardim, vamos pintá-los de verde como a hera. Fazem-me pena uns bancos assim, sólidos, pesados, perderem um grão de tinta a cada chuva miudinha e ao estalar do sol e a ausência de um livro aberto sobre a madeira gasta. Gastar é qualquer coisa que nos rói a pele e desenha na face os veios do tempo, mas vamos pintar as faces e os bancos ainda este verão.
Sobre o telhado cresceram as ervas do campo e um casal de pombos nidificou na chaminé da cozinha. Arrulham pasmados como sempre arrulharam e será preciso convencê-los a mudar o ninho para o cume das palmeiras mortas pelos escaravelhos. Ou talvez não. É um anseio dos homens e das aves nidificarem abrigados do vento, próximo dos terrenos alagados onde crescem os arrozais, virados para o azul do mar onde abundam os peixes. Por isso vamos subir ao telhado, substituir as telhas, contar os pombos e dar-lhes um nome, replantar as pequenas árvores e tudo isto antes das tempestades do equinócio ainda este verão.
Com galhos e cordel cinzento, preparamos o poleiro dos pássaros vadios e o comedouro das sementes e o alguidar de esmalte a transbordar de água e estou certa que ele vai regressar, o pássaro de muitas cores, e estilhaçar o ar da madrugada com o seu canto. E já que acordarei tão cedo nesse dia, serei eu, uma caneca de café e o último dos morcegos da noite ou o primeiro da antemanhã e a humidade em uma camada fina.
Não quero que me chamem. Tenho ainda de limpar os morangueiros, cortar-lhes os estolhos e certificar-me das marés e das fases da lua. Dar banho ao cão. Não fossem os estolhos e esta camada fina, ainda este verão.











































28 comentários:

disse...

Dás banho ao cão, dás...

Kika disse...

kriu?

Sobe ao telhado que eu e a ki.ti dizemos-te!

Para quem não tem asas, apenas bico, arriscas-te demasiado...

Kriu!

ki.ti disse...

este mundo entregue aos bichos, seria um lugar muito melhor!
o cão, só aparece de vez em quando e não toma banho e aos telhados, subo eu

safa-se o pássaro gordo, dando um desconto às cores de rebuçado anos sessenta

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



Que belo, meu amor, que belo ...!



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Agosto de 2015

Isa Lisboa disse...

Ainda este verão (e nas demais estações), voltarei cá para a ler mais e mais! :)

Beijinhos, boa semana!

Marcos Satoru Kawanami disse...

E aqui já está um calor arreitado.

=)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Teus textos remetem-me para a infância
para uma quintinha, com o Tejo ao fundo
de onde guardo
as melhores recordações deste mundo.
É verdade
Minha avó Mariana dava um nome a cada pombo
E era no verão, sob o odor dominante do café,
que dava banho ao cão

E não eram raros
nem os grilos nem os pirilampos
nem as cigarras
(prometes que um dia ainda me falas das cigarras?)

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Gosto de a ler nestes textos tão vivos que mexem com cada momento do nosso dia
Peço desculpa das minhas ausências. Foram meses difíceis com o casamento do meu filho.
Lentamente vou regressando ao convívio dos meus caros amigos da blogosféra.

Graça Pires disse...

Boa noite, Manuela. Ainda este verão hei-de voltar à infância que inventarei com as tuas histórias de encantamento.
Um beijo.

mz disse...

Eu entendo a vontade dos arranjos, a falta do canto dos grilos e da luz do pisca-pisca dos pirilampos. Aqui, também temos arranjos constantes e a falta das mesmas coisas.

Não me vou esquecer de comprar mais casinhas para os pássaros.

Que bom ter regressado Manuela!Pois é muito bom ler as suas crónicas e contos e fábulas e tudo!

Beijos,
mz

© Piedade Araújo Sol disse...

estórias de encantar com todos os pormenores e não podia deixar esquecer dar banho ao cão...

beijo

:)

Agostinho disse...

Que belo, Manuela!
Uma pessoa assim só pode ser como o sol da manhã.
Mas eu quero é que chegue a noite, sentar-me no "arrebato" de tua casa e pedir: conta mais, conta mais...
Se quiseres ajudo-te a pintar o banco cor de hera tal qual era.
Bj

Mar Arável disse...

Um texto que revejo aqui ao vivo

quase na totalidade
porque aqui os cães tomam banho
na rega automática
à míngua como eu dos belos relâmpagos

Bj

. intemporal . disse...

.

.

. ainda este verão . e tão breve e já gasto e o outono a predizer o inverno e mais um ano que finda .

.

. conforme o tempo vai passando . findam os anos cada vez mais rapidamente . e de repente já estamos gastos e gasto o tempo que passou por nós . ou nós pelo tempo . nesta que é a maior das incertezas tão certas .

.

. um dia . já não estaremos aqui . mas aqui e por aqui e também por aí estarão as palavras que nos fizeram neste . e noutros dias . sonhar .

.

. íssimo . das cores dos rebuçados dos anos sessenta . :) . e sempre feliz .

.

.

Jacintinha Marto disse...

Adorei o texto, apesar de neste início de setembro frio já ter de puxar para as clavículas o meu tricot rosa velho, quem diz que as artroses não tem terminações nervosas está muito enganado, doi-me tudo e todas as maneiras, como dizia a Flor
Espan
Cadela,
au,au, quando nervosa marchava para a braguilha do irmão, que era o homem que tinha mais perto. Quem me dera que arrulhassem pasmados como sempre arrulharam e pudesse convencê-los a mudar o ninho para o cume das palmeiras mortas pelos escaravelhos, ele sabem lá o que é uma palmeira morta, morta ou viva, o sonho era porem-me de pé, e encostarem as vértebras ao tronco, no estado em que eu estou, ficava com cada osso encravado em cada anel de crescimento, e tenho muitos que, em 100 anos, uma aleijada está cheia de anéis de crescimento, o verdadeiro problema é que eles preferem o meu ninho a amarinhar para o topo da árvore, benzó deus, vou ter refugiados a taparem-me a luz do sol, senhor, deixai-me ao menos respirar, tenho de aprender qualquer coisa com as baleias, e já estou a ver este calvário antes do equinócio, durante o equinócio e depois do equinócio. Olhe, adorei o passarinho, pena ter a boca descaída, senão até fazia piu, piu.

Beatriz disse...

SIM! Vamos subir aos telhados e ver como vivem os pássaros, observar a chuva chegando e conversar com os pombos.. e se a maré estiver baixa, corre pela praia sem destino! Viver em harmonia com a natureza, tudo de bom!!!

Um beijinho Manuela e que bons ventos levem suas palavras a todos os cantos

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Kika disse...

Kriu?

Vendo próteses de pares de pernas com patas e unhas para pássaros de pequeno porte em bom estado!

Kriu!

disse...

Quem é a senhora que está a afinar o violoncelo lá em baixo?

ki.ti disse...

é a Jacqueline du Pré, mas está só a fingir que toca...



Majo disse...

~~~
~ Um modo atarefado e interessante
~~~ de despedir-se deste verão...

~ O violino está muito nostálgico!

~~ O outono também é muito belo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

~~~ Dias felizes. ~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Rita Freitas disse...

Um fim de verão calmo e sereno com a nostalgia outonal.

Belo como sempre.

bjs

. intemporal . disse...

.

.

. e . ainda . esta página . ainda . (.e.não.des.fazendo.) . :) .

.

. comprei desodorizantes em promoção para a menina.Senhora.dONA.manu.ela.de.elo . para que possa construir muitas páginas como esta . sem a inconveniência dos anões . :))) .

.

. íssimo feliz .

.

.

manuela baptista disse...

ainda, ainda e ainda

mas com esta oferta, sabemos lá


:)))

Jacintinha Marto disse...

... e a Jacintinha?
E a Jacintinha?
Onde está o desodorizante da acamada?...
Eu sei que as santas não têm cheiro, mas pensem na coitada, nada mexe, nem a anca nem a asa, pudesse eu ser desodorizada, e fazer a dança da narina, coisa última que resta
à acamada

Uma boa semana

ONG ALERTA disse...

Belo, Bjbj Lisette.

Tripa Seca disse...

O último dos morcegos da noite
it sounds good :-)

Luis disse...

Quando dorme o último verão, os sons da noite mergulham na neblina, e a neblina anuncia o sono das coisas

Benó disse...

Manuela, lembraste-me tanta coisa para fazer, ainda este verão, como limpar os morangueiros, arrancar as ervas dos vasos, cortar as rosas velhas e as hortenses, ah| quero ainda semear nabiças para uma sopa rápida quando os netos aparecem sem avisar.
Como é agradável ler-te e ver os teus desenhos. Obrigada.