o sapo, o rapaz e a andorinha














































Era uma vez um sapo verde. Habitava um lago calmo onde flutuavam nenúfares e o sapo gostava do lago e dos nenúfares e imaginava um mundo calmo, verde, redondo e repleto de nenúfares. Um dia chegou uma andorinha dos beirais e guinchou de alegria e executou seis voos rasantes sobre a água do lago, quase tocou a cabeça do sapo e este pode verificar que ela não era verde, nem redonda, nem calma. O sapo inquietou-se, temeu que a paz do lago se quebrasse, mas era tão veloz e elegante a andorinha que ele se deixou cativar. Os dias quentes de verão foram passando, o sapo a flutuar nas folhas de nenúfar e a andorinha em voos picados sem se preocupar com os beirais.





















Foi então que chegou o rapaz. Vestia umas jardineiras azuis, uma camisola às riscas e caminhava descalço. Sobre o ombro esquerdo, uma cana de pesca, no direito, um saco com isco e no bolso das calças, duas maçãs. O sapo escondeu-se, a andorinha silenciou-se e ambos confirmaram que o rapaz não era verde, nem redondo e assim à primeira impressão, parecia não ter asas. O rapaz sentou-se na beira do lago, os pés na água, preparou a cana e lançou-a. Num primeiro minuto os peixes não picaram. Nos quinze minutos seguintes, também não. O rapaz largou a cana, pegou numa maçã e começou lentamente a comê-la. O sapo foi-se aproximando e à tona de água surgiram cardumes de peixes. O rapaz trincava a maçã e lançava-lhes pequenos pedaços e passou à segunda e assim que terminou, despiu-se e mergulhou, assustando o sapo e a andorinha e fazendo fugir os peixes. Nadou durante muito tempo e ao entardecer pegou no sapo, meteu-o no bolso e regressou a casa. A andorinha seguiu-o, os peixes não. A andorinha construiu o ninho nos beirais da casa do rapaz e o sapo ensinou-o a dar saltos grandes e longos. O rapaz não o ensinou a pescar, porque verdadeiramente nenhum deles tinha necessidade disso.
Depois os dias foram ficando mais curtos e o tempo a arrefecer e a andorinha sobrevoou o rapaz e o sapo de uma forma diferente e eles perceberam que pela natureza das andorinhas tinha chegado a hora dela partir. Para que o sapo não entristecesse, o rapaz colocou à porta de casa um vaso redondo pintado de verde e o sapo regressava ao lago e logo voltava.
Passaram invernos e outros tantos verões e quando as jardineiras do rapaz encurtaram até aos joelhos e ele não mais as conseguiu vestir, despontou uma flor de nenúfar no beiral virado para sul. 











27 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



virado para sul está o nenúfar dos nenúfares e o mar azul



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Setembro de 2015

Marcos Satoru Kawanami disse...

Conto bem humorado. =)

Rogerio G. V. Pereira disse...

Se em vez de sapo fosse rã, este conto seria real, verdadeiro, verídico
Mas mesmo assim, não sei se não terá acontecido

(ao meu neto as jardineiras já estão pelo tornozelo)

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Histórias que nos encantam e também nos fazem sonhar.
Desejo que tudo vá bem por aí.

disse...

O único sapo verde que eu conheço chama-se Jorge Jesus...

Kika disse...

Kriu?

Ah Manuela, as tuas histórias levam-me sempre à minha infância porque ainda dentro do ovo de minha mãe eu já sabia ler e lia sempre todos os teus contos de encantar...

Um grande beijo, Manuela, porque sei que não é de palminhas que estás à espera...

Kriu!

Beatriz disse...

Encantador!
E assim partem as andorinhas ao fim do verão... para enfim voltarem um dia com, quem sabe, mais uma bela história como esta <°)))<

Um beijinho Manuela

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Olinda Melo disse...


Da diferença nascem ideias e coisas lindas.

De um sapo, de uma andorinha, de um rapaz,
reunidos num mesmo desejo, nasce uma flor de
nenúfar no beiral virado para o sul, onde o
sol aquece ao redor dos ninhos.

Histórias de encantar, cara Manuela, que leio
e releio.

Bj
Olinda

Graça Pires disse...

Estás sempre a encantar-me, Manuela. O sapo a andorinha e a rã fizeram amizade pela magia das tuas palavras. O tempo passa e deixa-nos no olhar a nostalgia de outros céus, de outros lagos, de outros mares...
Um beijo, amiga.

Obrigada por me leres.

. intemporal . disse...

.

.

. e.n.c.a.n.t.a.d.o. .

.

. um beijo . amiga .

.

. obrigado por me leres . :))) .

.

.

Benó disse...

Se em vez do rapaz fosse uma rapariga, talvez o sapo se transformasse num príncipe. História de encantar que adorei.Mesmo quando as calças encurtam é preciso sonhar.

Maria Eu disse...

Tão terno que comove.

Beijos, Manuela, e que nos continues a perturbar o coração. :)

Luís Alves da Costa disse...

"Depois os dias foram ficando mais curtos", e chegou a vontade de esquecer. Esquecer os dias frios e as rotas do ar sem luz, e mergulhar no catálogo dos verões, onde as páginas da memória são reconfortantes e enganadoras, onde a um verão se sucede logo outro, e mais outro e outro afim, a fazer esquecer todas as palavras de invernos

Mar Arável disse...

Estimada amiga

Uma delícia ler os seus escritos
em todas as estações

Grato

mz disse...

Aprendemos todos uns com os outros e é nessa harmonia que as amizades se constroem.

Um abraço para si, Manuela.

Agostinho disse...

A fantasia da Manuela encanta qualquer um, até a andorinha prometeu voltar.
Posso atestar que a história foi mesmo assim que eu fui espreitar.
É claro que o sapo quando estava no lago verde era verde, parecidíssimo com uma rã. Era verde porque tinha esperança naquela andorinha que lhe animava os Versões todos os anos.

Semiramis disse...

Quando os dias se tornam mais curtos e frios, a lua ergue-se vermelha e calma

Jacintinha Marto disse...

Era uma vez uma beata acamada. Habitava uma cova calma onde flutuavam pastorinhos e a santa gostava do seu altar e dos nenúfares e imaginava um mundo calmo, verde, redondo e com o solzinho a dançar. Um dia chegou um bando de mulatos dos beirais e ela guinchou de alegria, enquanto eles dançavam seis raps rasantes sobre a cabeceira da sua cama, quase lhe tocando a cabeça de santa, que ficou verde, redonda, e de todas as cores, como era de esperar. A inválida tentou endireitar-se, não fosse a paz do lago quebrar-se, mas eles eram tão velozes, elegantes e convincentes que ela se deixou cativar,
e não só.
Os dias quentes de verão foram passando, a Jacinta a flutuar nas folhas de nenúfar e o bando em voos picados sem se preocupar com os beirais.

Não fosse uma rusga que entrasse pelo bairro, e esta história teria tido um final feliz.

(Continua)

Isa Lisboa disse...

Sim, há amizades assim! :)
Um abraço

Jacintinha Marto disse...

... estava eu nisto, a ser tratada como um sapo verde, e há pessoas que não querem trabalhar, aquelas irmãzinhas de Segurança Social já conheciam aquela esquina à saída da Damaia de Cima como "Esquina da Jacinta", onde a inválida sofria o martírio, enquanto ela estava naquilo, cheia de andorinhas negras em cima e rapazes com as jardineiras de rapaz encurtadas até aos joelhos, parecem todos os filhos do Sal durante uma inundação,
deixa-a estar,
diziam elas,
enquanto ela está entretida, nós vamos fumar e para os chats desencaminhar enfermeiros mal pagos,
o que vale é que vem a lua cheia, um eclipse rápido, o mundo acaba e com o mundo acaba o meu sofrimento

(continua, se o mundo não acabar)

manuela baptista disse...

o que me vale nestes meus eclipses parciais,
é que há quem continue a contar histórias por mim


obrigada, Jacintinha :))

Jacintinha Marto disse...

A diferença é que a Manuela vive da paixão das artes, uma coisa que lhe dá e faz um conto, e acaba ali, até vir o seguinte,
eu
vivo do martírio das partes,
e como nada sinto, não percebo quando começa nem acaba, creio que a minha vida deve ser como a Eternidade, um bocado monótona, sobretudo na sua parte final...

Bem haja

© Piedade Araújo Sol disse...


encantada....nem sei mais que dizer, já foi tudo dito.

obrigada Manela

boa semana.

beijo

:)

Majo disse...

~~~
~~~~~ A contrariar as qualidades
~~ de certos sapos que se engolem,
~~~~~~~~~~~ (muitos)
~~~~~ apreciei de modo especial,
~ este sapo amoroso e companheiro.

~ Excelente criatividade, Manuela! ~

~~~~~~~~~ Abraço amigo. ~~~~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Jacintinha Marto disse...

"... Passaram invernos e outros tantos verões e quando as jardineiras do rapaz encurtaram até aos joelhos e ele não mais as conseguiu vestir",
os cortes orçamentais,
estava tão desesperado que ou emigrava, ou dava em migrante, ou votava no Paf. Como estamos em Portugal, imaginem onde ele foi...

Quanto a mim, vou pôr a urna a rodar, salvo seja, não seja para aí escrutinada nalguma esquina, que sextas feiras de minguante, é um a ver se te avias
de minguada

Bem haja, e vote no príncipe, já que andamos muito fartas de sapos,
isto é só coaxar,
cuá, cuá,
benzódeus

Preta da Limpeza disse...

Nhâ prêta não vota,
nhâ prêta num sabi votà,
nhâ prêta só servi,
sinhôra di'acâmá.

Nhâ nêgra nasci,
Nhâ escrava fiquei,
Nhu Estori mi paàssêi,
nhu têsouri
di már mi fiquêi

António Jesus Batalha disse...

Passando pela net encontrei o seu blog, estive a folhear achei-o muito bom, feito com muito bom gosto.
Tenho um blog que gostava que conhecesse. O Peregrino E Servo.
PS. Se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais faça-o de forma a que eu possa encontrar o seu blog para o seguir também.
Que haja paz e saúde no seu lar.
Com votos de saúde e de grandes vitórias.
Sou António Batalha.
http://peregrinoeservoantoniobatalha.blogspot.pt/