por causa da muralha nem sempre se consegue ver a lua





Se eu fosse encenador diria, em cena está apenas uma cadeira pintada de branco, não exatamente ao centro. Vinte centímetros à direita do centro do palco. O pano de fundo é preto, cobre o chão, os lados também. No teto um foco de luz que incide sobre a cadeira pintada de branco, antiga, vulgar. O primeiro personagem é um vendedor de balões, dá dois passos e um contrapasso, os balões puxam-no, ele observa a cadeira, finge limpar-lhe o pó, baixa-se, diz-lhe um segredo, ata às costas da cadeira o cordel que prende os balões e sai de cena. O segundo personagem é um rapaz distraído a puxar uma trela e uma coleira de cão sem cão. Dá três voltas à cadeira, o cão que não se vê puxa-o, o cão alça a perna, o rapaz sai a correr e larga a trela e a coleira onde não se vê o cão. A terceira personagem é uma rapariga de vestido preto e cabelos cor de fogo. Como o pano de fundo é preto, brilham os cabelos cor de fogo da rapariga. Traz pela mão uma criança imaginária. O cão que não se vê salta, a criança imaginária ri-se, a rapariga retira dois dos balões presos à cadeira, ata o cordel de um, ao pulso da criança e o cordel do outro à cauda do cão. A rapariga faz uma festa à cadeira e saem de cena.
O número de personagens pode ser infinito, têm em comum a ausência de palavras e o facto de nunca se cruzarem. O diálogo corporal é com a cadeira.
Esta permanece insonora e imóvel mas é o centro da ação vinte centímetros à direita.
Neste instante, momento, mês, ano, dia, tempo, eu sou um espaço cénico em profundo preto e desenhada a branco, resta-me apenas uma cadeira. Por causa da muralha, nem sempre se consegue ver a lua.
E se eu ainda possuísse um banco antigo, vulgar, desenhado a branco.






não estou ausente, é apenas uma tardança, um vagar

19 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

A cena é gostosa de se imaginar, alegre e tranquila, ainda que eu tenha percebido a intensão ligeiramente triste da narração.
Mas a rapariga interage com a criança e com o cão além da cadeira, não é?
Uma peça neste molde sofisticado é algo prazeroso a um público que procure um momento de quietude, reflexão e riso.
A cadeira é a metáfora central, a busca, ou a perda, o elo que falta, a condição humana, a limitação, a dependência, a necessidade de ir além de cada pessoa.

pax et bonum
Marcos

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Eu errei no comentário anterior, pois os personagens menina e cão são invisíveis; daí, realmente os personagens interpretados por atores só irão interagir com a cadeira, conforme você disse.

:)
Marcos

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Imagino que os balões são as aspirações que conduziram o vendedor até a cadeira. Depois, a rapariga tomou uma aspiração-balão para o cão, e uma para a menina.
A rapariga e o rapaz estão sós, mas imaginam estarem acompanhados no mundo, em que o que há de concreto é a cadeira: o diálogo consigo mesmos, os seus problemas e aspirações, o dia seguinte, a busca do sagrado talvez.

:)
Marcos

Beatriz disse...

Manuela
Para mim, a cadeira brilha e reluz.... Às vezes tem até outras cores, todas as cores do mundo!
Ah, se os balões a deixassem voar...

Grande abraço

Bia

www.biaviagemambiental.blogspot.com

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Neste instante, tu és um espaço cénico luminoso e desenhada a mil e uma cores que vai do profundo negro do firmamento à estrela de alva.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 29 de Novembro de 2013

Rogerio G. V. Pereira disse...

vale a pena o desejo
felizmente há luar

(texto muito belo)

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Ricamente encenada e ainda melhor representada, esta peça no palco do faz de conta. Com uma humilde cadeira como personagem central, e onde a imaginação corre à solta.

E enquanto durar esse vagar, que seja confortável essa cadeira branca.

Um abraço e bom fim de semana
Vitor

Kika disse...

Kriu?

Muito bonito este teu trabalho, Manoela de Oliveira Baptista!

Kriu!

disse...

As muralhas estão para mim, como as portas estão para a Tita, apesar dela tão bem ter sabido fechar a porta no aniversário do intemporal...

Quem sabe um dia as saiba também abrir...

A inteligência dos gatos permanece a anos luz aquém da nossa, como se comprova em estudos recentemente efetuados pelo INE...

ki.ti disse...

fia-te...

são uns aldrabões, os do Instituto Nacional da Enteligência

. intemporal . disse...

.

.

. e,,, a.dezembro.me perante este palco onde de.corre a cena . na qual . inúmeras personagens se entre.laçam . sem que se cruzem porém . e a ausência da palavra dá lugar à linguagem corporal . só por si . infinita . e moventemente universal .

.

. a.dezembro.me . aqui . neste dia primeiro onde se a.dezembram todos os passos dados . palcos de tantas cenas em cena . e cénicos . en.quanto o coração bater .

.

. a.dezembro.me . aqui . enquanto o coração bater .

.

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.íssimo feliz .

.

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Luís Alves da Costa disse...

Por um céu permanentemente descoberto, onde a lua sempre fosse visível, ou apenas atravessada por luminosos fiapos de nuvens,
e depois,
quando já todos estivéssemos no nosso sereno dormir, cumprir-se-ia a chuva necessária, intensa e discreta, a desaparecer dos nossos cândidos olhares, muito antes de romeper a alba.

Bom domingo :-*

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Um gesto, vale, por vezes, mais que mil palavras...Um espetáculo se fez!
Bravo!
Beijos, Manuela,
da Lúcia

Rita Freitas disse...

Se eu fosse encenador afastava a muralha :)

Adorei como sempre

Bjs

Nilson Barcelli disse...

As interpretações possíveis, parece-me, serão várias.
Resta saber a ideia do autor...
Manuela, tem um bom resto de semana.
Beijo.

Mz disse...

A complexidade do que nos parece tão simples.

Um abraço

Nilson Barcelli disse...

Vim de novo.
Subi à muralha e acho que já vi a lua...

Manuela, tem um bom fim de semana.
Abraço.

Isa Lisboa disse...

Manuela, por vezes sinto dificuldade em saber o que comentar, de forma a que lhe possa fazer alguma justiça... Hoje é um desses momentos! Por isso vou apenas dizer que gostei muito e que fico a pensar nessa cadeira branca, e no fundo em preto. Talvez eu suba também a esse palco...

Beijos, boa semana

© Piedade Araújo Sol disse...

eu derrubei a muralha e consegui ver a lua...


:)