estivam os ursos, os esquilos as marmotas e os morcegos não

























Sentamo-nos no chão, abrimos o saco de pano onde a avó bordou a ponto cruz as letras do nosso nome e contamos quantas nozes, amêndoas e tangerinas doces.
Depois com uma faca velha e gasta, limpamos a lama dos sapatos e entramos em meias pela porta da cozinha. Nesse instante o avô Joaquim acena-nos um adeus junto do portão mas nenhum de nós o vê e nem é para ver, basta saber que cheirava a tabaco de cachimbo e usava camisas de algodão branco. As senhoras dos retratos parados nas cómodas e nas escrivaninhas esboçam um sorriso e ajeitam o cabelo e o fecho do brinco da orelha esquerda ou o anel, mas este caiu no naperon, que é uma palavra antiga como elas.
Neste dia fazemos um bolo de mel e nozes, porque aprendemos a ler em ponto cruz e a enumerar tangerinas.
Lá fora os ursos de sono leve mal cai novembro e hibernam nos ocos das árvores, os esquilos e os sacos de pano cru.











19 comentários:

Kika disse...

Kriu?

Um dia destes, ao voar da cozinha para a sala, também preguei uma nódoa no naperon... E olha que nem o martelo levava comigo, mas, por vezes, sucedem-me situações deveras estranhas, às quais sou, entretanto e no entanto, totalmente alheia...

Os pontos, de fato, aprendi-os com o Cruz! Irra, que não te escapa nada...

Kriu!

disse...

Para o sono leve existe agora o Angelicalm e se serve para o pessoal, também servirá para o animal!

ursos que o tomam, e tu, como delegada de propaganda médica de última hora, contribuis também e de sobremaneira para o sucesso da economia paralela!

Beijinhos, Manuelazinha querida!

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Hibernam ...

... mas a memória, com eles vive!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 2 de Outubro de 2013

. intemporal . disse...

.

.

. a.novembro.me então neste [en]canto Seu . onde já cheira a quase Natal .

.

. e todo o texto é um esplendor de memórias idas . que hoje me comovem . e me fazem vacilar . perante um passado . o qual não esqueço . este presente . que faço por não me lembrar . e um futuro que não desejo . assim .

.

.

. íssimo . sempre feliz .

.

.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não sei, mas esta forma tão intima de partilhares estes fazeres e lugares dá-me a impressão de que sou teu irmão...
(assim se sintam todos)

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Doces e bem cheirosas memórias, estas; que após tanto tempo hibernadas, agora despertam...

E a mim soube-me lindamente ler mais esta bonita história.

Bom fim de semana; um abraço.
Vitor

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Um saco bordado a ponto cruz mas o melhor são as recordações e os doces que enchem o saco.
Gosto de me sentir parte desta leitura e saio sem pressa.

Mar Arável disse...

Ler em ponto cruz
Belíssimo

este cerzir de palavras

Marcos Satoru Kawanami disse...

Manuela,

Lembrança suava, escrita diferente. Eu vivi com minha avó para concluir os estudos secundários, identifiquei-me. Ela assava bolo de banana e bolo de fubá, decorava o bolo de banana com estrelas de carambola.
Eu pito tabaco no cachimbo.

Beatriz disse...

Huuummmm, bolo de mel e nozes, que delícia! Correr livre, sujar roupas e sapatos....me lembram a infância

Um beijinho, Manuela

Bia

Isa Lisboa disse...

Esse saco de pano traz-me memórias, Manuela...!
Um abraço e boa semana!

Mz disse...

Hummm, tanta coisa boa!
O que se vê, o que se cheira e o que se come.

Coisas de família, em sacos de ternura.

Pequenino e lindo numa hibernação perfeita.

Um abraço e boa semana.

Silenciosamente ouvindo... disse...

Tantas memórias boas neste
mágico Novembro.
Bj.
Irene Alves

Lunna Guedes disse...

Ouso dizer, que vi a mim mesma em tuas linhas. Foi como entrar em casa de novo e acompanhar o aceno de mio nono. Parece que escreveu sobre aquela menina que sorri e acena enquanto o comboio parte me levando de volta para a realidade dos dias seguintes. Lindissimo.

bacio

Kika disse...

Que seria de nós sem o poema?
Almas aprisionadas em gestos desumanos, rumando sem luz e sem norte, definhando sem nada que as salvasse.

Que bom que é ser-se tocado por um poema!

Um beijinho
Kika Poetesa :)))

disse...

há uma (in)quietude que me aquieta a cada forma interrogativa, a cada silaba. e, sem como, e sem palavras que não maculem a beleza deste texto,

parto...

fica um ENORME bem-hajas, Né
beijo daqui

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Aqui sempre rememoro a minha infância, pela similitude de alguns personagens e cenários. Tem cheiro de saudade! Eu gosto dessa saudade...
Deixo um beijo e um abraço, Manuela.
Lúcia

Nilson Barcelli disse...

Mais um belo momento literário.
Excelente.
Manuela, tem um bom domingo e uma boa semana.
Beijo, querida amiga.

© Piedade Araújo Sol disse...

gosto, gosto!

:)

PS:acho que por vezes gostava de hibernar.