nos dias mais aguados


Não faz mal, há dias para tudo. Depois da Páscoa pego no meu casaco de veludo preto, um botão de cada cor e vou por aí fora em busca da caneta de tinta permanente que perdi.
Tirava o tinteiro da prateleira da estante, agitava um pouco o frasco e o líquido preto cobria as paredes de vidro. Rodava a tampa para a esquerda e pousava-a em cima da mesa, o tinteiro ao lado. A seguir despojava a caneta das peças que a compunham, carregava na borracha para lhe extrair o ar, mergulhava o aparo e lentamente soltava o dedo polegar. A tinta era sugada fazendo um som voluptuoso, quase obsceno. Fechava a caneta, tapava o tinteiro rodando a tampa para a direita e estávamos prontas para aquela cumplicidade de gestos e de traços.
Muitas vezes me ofereceram recargas de plástico, limpas, práticas, descartáveis, mas não. Eu gostava da tinta Quink, dos dedos sujos, do tinteiro na prateleira da estante, dos desenhos rabiscados na margem dos cadernos a acordar-me longe dali.
Não adiantava dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Simplesmente não é possível escrever com uma caneta que não seja a nossa. O aparo é moldado à pressão da nossa mão, ao tamanho dos dedos, à calma ou agitação que lhe infligimos, ao nosso estado de espírito. A revolta é forçosamente pesada, a alegria enérgica, a tristeza tão mansa. Aparamos o que se torna áspero ou irregular.
E num desajeito, a caneta perdeu-me ou fui eu que a perdi. Comprei uma bic cristal e não adianta dizerem-me, empresta-me a tua caneta. Não empresto, não posso. Tenho medo que os outros escrevam o que me vai na cabeça, que assinem por baixo, que imaginem por mim.
Nos dias mais aguados dizem que a angústia vem sempre ao de cima, como os corpos dos náufragos, os troncos ocos das figueiras do diabo ou as folhas velhas que perderam o norte à primavera. Talvez.
Nesses dias, seguro entre o dedo polegar e o indicador da mão direita a minha invisível tinta permanente, dedilho o teclado como se fora um piano forte, chamo a luz refletida na água e a paz vem à tona.
Na permanência das coisas que possuímos, a minha caneta é um pássaro preto bico aparo prateado a voar teimoso e fiel sobre o seu país. Para que ele venha à tona e eu acrescente mais um botão a cada cor.
folha sobre luz aguada

24 comentários:

Rogério Pereira disse...

Sinto e compreendo
Tenho o mesmo lamento
A afeição que temos ao que escrevemos leva-nos a colocar num simples aparo a magia das palavras
(as doces, as simples, as bravas e as avinagradas)
Também eu perdi um dia a minha caneta, era verde, era de pau e tinha uma ranhura, curva, por onde enfiava, com gestos religiosos e cuidados, os aparos. Era um pássaro corriqueiro, um pardal... ainda hoje a imagino entre o pequeno espaço destas teclas, patetas, que escrevem estas letras. Ah, tivesse eu a minha caneta de pau... e verias, neste comentário, um sonho escrito (ou desenhado)

Bloguinho da Zizi disse...

E não emprestes teu teclado já moldado, porque só tu o podes tocar.

Beijinhos

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Nos dias mais aguados, como este, tocas um acorde maravilhoso!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2013

. intemporal . disse...

.

.

. permanente é esta escritora . maravilhosa . que nunca conseguiu escrever algo que não nos arrepiasse . à primeira leitura .

.

. as seguintes . são sempre re.leituras de tudo e de tanto . de êxtase . onde o espírito se arrebata . e se enleva na contemplação do que é divino . sobre.natural . maravilhoso . digo e digo e re.digo e repito . maravilhoso .

.

. permanente é esta escritora . maravilhosa .

.

.

. íssimo . de raiz . e para sempre feliz .

.

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Kika disse...

Kriu!

É aguado por causa dos ovos...

Se passasses pelo que eu passo, até o tinteiro estremeceria nos teus dedos!

Kriu!

disse...

Sim, deixa isso para depois da Páscoa, pois não quero desculpas para não encher a barriga!

Não te esqueças é de me ir buscar, olha que eu estou quase de partida!

Sim, porque tu és como a da caixa do correio... e também como a amiga do cinescópio...

ki.ti disse...

Eu quando ponho as patas na tinta, faço uma borrada cinescópica.

Isa Lisboa disse...

E num dia mais aguado, como é bom ler o que essa caneta escreve!
"Na permanência das coisas que possuímos, a minha caneta é um pássaro preto bico aparo prateado a voar teimoso e fiel sobre o seu país." - Sim, é isso!

Beijo, Manuela

Isa Lisboa
=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa

Mar Arável disse...

Nada é permanente

porque é possível
escrever com os dedos na areia

e só depois aguardar
que as marés transportem
as palavras

Sempre bom vir aqui
ao seu espaço partilhado

Malu Silva disse...

Pois eu escrevo a lápis, mas sempre tive por perto uma caneta que se perdida me traria uma dor no peito, já que as canetas são mágicas e feiticeiras.
Um abraço FADA DAS PALAVRAS...
Ainda esta semana publicarei teu conto e aviso-te. Beijinhos

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

Neste mundo cada vez mais descartável, também acabámos por deitar fora aquilo que era só nosso e tinha carácter - por uma banal esferográfica, coisa que até parece pecado...

Lindamente descrito o ritual de enchimento desse ventre de borracha, que sendo de tinta dita permanente, ainda assim também se esgotava...

Gostei muito, está uma delícia!

Abraço amigo, boa semana.
Vitor

Mz disse...

Mal acabei de ler o primeiro parágrafo, recordei-me logo dos dedos tingidos de tinta, dos pequenos e imprevistos borrões no caderno, quando me atrevia a usar a caneta do meu pai. Saudades.

E concordo contigo Manuela! Existem coisas que temos receio de emprestar e que não têm nada a ver com egoísmo mas apenas pelo "medo" de que nos possam escapar para sempre.

Abraço grande!

Silenciosamente ouvindo... disse...

Os dias aguados continuam...
Vamos sempre perdendo algo todos
os dias...e é verdade que há
coisas que têm um valor sentimental
tão grande que não as queremos
emprestar...mas há sempre um dia
"em que tudo nos escapa ou somos
nós que nos escapamos"...Boa
Páscoa.Bj.
Irene Alves

Nilson Barcelli disse...

Mais um excelente texto.
Ler-te, é ter a certeza de voar e sonhar na criatividade das tuas palavras.
Manuela, minha querida amiga, tem uma Páscoa Feliz.
Beijo.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

A minha caneta-tinteiro renasceu, como por encanto e, junto, veio o mata-borrão. Um lindo recordar.
Beijos,da Lúcia

Kika disse...

Kriu?

Se o que eu escrevo aqui é agora publicado em diferido, então, quando eu for escritora, já a poetisa é médica!

Kriu!

ki.ti disse...

E eu tigre!

disse...

E eu José Sócrates!

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Manuelamiga

Vogando pela blogosfera, sem rumo definido, encontrei-te no blogue da Lúcia Bezerra de Paiva,uma boa Amiga. Vim até cá – e gostei. Foi uma boa dica. Se não tivesse gostado, também to dizia. Sou pão, pão, queijo, queijo; ou como na tropa aprendi: serviço é serviço; conhaque é… conhaque.

Vou a caminho dos 72 aninhos. Sou virgem (20/09/41, para efeitos de prenda…) mas tenho, temos, a Raquel e eu, três filhos, três noras/filhas, quatro netos e uma neta. E vamos fazer 50 anos de casado – ai o que eu tenho sofrido para aguentar tamanha cruz… Bodas de ouro? Nada, não. Na verdade, bodas de felicidade.

Gosto de ser brincalhão e brejeiro com quem mo merece – e mo permite e me responde no mesmo tom. A minha Travessa do Ferreira (http://aminhatravessadoferreira.blogspot.com ) pode ser o exemplo do que adoro gozar: enfim, sou um velhote que persiste em ser jovem… da cabeça… de cima.

Como aqui vim e como Amor com Amor se paga, espero por ti, pelos teus comentários e pela tua (per)seguição. O mesmo já aqui fiz, ou seja: já faço parte dos teus seguidores. Podes entrar na minha Travessa que então será também tua. Isto é, nossa. Não pagas portagens, não te cobro impostos, incluindo o IVA a 23%.

Peço-te desculpa deste escrito que é maior do que a légua da Póvoa; mas tentei meter o Rossio na rua da Betesga e aqui está o desastroso resultado. Enfim, eu sou realmente assim, maluco e orgulho-me de o ser. Sou mais de prosa, mas gosto também de poesia e de quando em vez faço umas quadras, uns sonetos, ou seja coisas do antigamente…

Qjs = queijinhos = beijinhos

_________________
NB – Este texto é estereotipado. Não tinha, nem tenho, nem teria tempo de o escrever a cada um, um por um. Mas não entendas isto como falta de consideração ou despautério. Mas posso assegurar-te que quando se é reformado é quando se trabalha mais. E ainda: um jornalista nunca se reforma – no papel, sim, na mentalidade, nunca.

ONG ALERTA disse...

Uma Páscoa iluminada beijo Lisette.

Rita Freitas disse...

Mágico e tocante.
É sempre um verdadeiro prazer ler aqui.
Bjs e feliz Páscoa

Dulce Morais disse...

Boa tarde Manuela,

Sou editora no blogue "Pense fora da caixa".
Gostámos muito da sua escrita, que pudemos ler aqui e no seu outro blogue Tesouros do fundo do mar.

Gostaria de a convidar a colaborar como autora no "Pense fora da caixa" de forma regular.

Pode visitar o blogue aqui:
=> Pense fora da caixa

Pode também conhecer os outros autores aqui:
=> Pense fora da caixa Autores

Gostaríamos de receber a sua resposta por email: penseforadacaixa@hotmail.com e dpmorais73@gmail.com

Muito obrigada!
Até breve.

Lunna Guedes disse...

Minha cara, acho que acabei de descobrir porque não gosto de emprestar a ninguém a minha lapiseira pentel 0,5 que foi um presente de mio babo e a quem escondo dos dedos alheios. rs

bacio

Canto da Boca disse...

(No fundo importa mesmo, são as emoções que despertas em nós a cada leitura sua. Temos amigos em comum, sempre que posso passo por aqui, mas hoje não resisti e deixei meu "rastro". Belíssimo texto!)