na terra

camera girl de Sean Mahan

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faziam as malas o tempo escasseava

posso levar sete livros e o canto escondido do meu quarto
não podes

a bicicleta ocupa o espaço de um suspiro voa sozinha e não tem asas
as camisolas às riscas ficam bem e se forem às bolinhas têm a música perdida das uvas maduras moscatel que é doce e faz tossir quando sofregamente trincada

o mar fica colado às minhas costas e não me sento nas cadeiras para não afundar os barcos de papel que ainda me navegam de manhã

o tanque das regas cheira a lodo a rãs a pomar de maçãs a cidra a terra molhada
a mergulhos em dia de trovoada se vem um raio parte-te
perigoso é não arriscar nada
tiro retratos às patas das galinhas e aos olhos do cão estranha é esta criança
objectivar foi o meu pai que me ensinou não tremas não te rias não te mexas
cada momento são tantos dias e uma vida é feita de relâmpagos que acontecem

na tarde que sufoca o ar não se respira respiramos nós sem ele e fazemos batota nas cartas que largamos reis rainhas de copas e de ouros valete é um pajem e o príncipe está escondido no sótão

aquieta-se então o fim do dia e o chá gelado é preto macerado de limão madalenas não há
estão no primeiro dos sete dos meus livros mas é escuro o pão
tem o sabor ázimo do que é puro se me bateres digo à mãe então diz mas adormeço primeiro no chão quente carregando nos olhos o céu repleto das estrelas
que apenas a terra tem

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continuo a ler num tempo reencontrado

18 comentários:

AC disse...

Uau, que labirínticas veredas tão apetecíveis...! Ainda corro o risco de me perder, mas talvez o chá preto com pão ázimo me salvem.
Tiro-lhe o chapéu, Manuela!

Beijo :)

relogio.de.corda disse...

Muito interessante este texto.
"O mar fica colado às minhas costas" surpreendente imagem! Gostei mesmo.

Luís Coelho disse...

Sempre a surpreender pela qualidade da escrita criando imagens que se chocam e se contradizem mas que criam uma atmosfera própria.
Parabéns

walter disse...

Olá Manuela!

esta criança estranha(?) que jamais deixe de fazer as malas!

que eternamente seja bicicleta que voa sem asas, o canto escondido do quarto, a princesa de tantos livros, o relâmpago - clarão de céu estrelado, a terra molhada - abençoado o pão ázimo que dela brota, o coaxar da rã em cada madrugada, o azul do mar colado na alma... e que nunca deixe de tirar retratos às patas de galinha e aos olhos do cão

e estranho sou eu porque nunca me lembrei das patas das galinhas e do meigo olhar de um cão

:))

Manuela,
gostei muito de pisar esta terra e sentir o odor que a chuva lhe emprestou e o pão ázimo fez crescer!

um beijo

walter

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Uma vez, há já muitos anos, em férias, levei comigo À la Recherche du Temp Perdu de Proust no original, em francês ...

Comecei a ler o primeiro volume, esse de que aqui escreves mas já não sei porque artes, perdeu-se, perdeu-se mesmo!

Nunca mais arranjei tempo nem disponibilidade para embarcar em tão volumosa dissertação literária ...!

Está-me cá a parecer que, também com Proust o ombreias muito bem!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Agosto de 2010

Lídia Borges disse...

Um prazer esta leitura, de facto!

Obrigada pelas "flores" deixadas nas minhas searas.

Um beijo

Linda Simões disse...

Ai, ai !

Tão perto, tão perto de vocês!

Que boa leitura essa, de encontrar os amigos, de fazer parte da Tertúlia...


Pois, com o céu cercado de estrelas, que só a terra tem...

...

um beijinho afetuoso,


Linda Simões

Graça Pires disse...

"o mar fica colado às minhas costas e não me sento nas cadeiras para não afundar os barcos de papel que ainda me navegam de manhã"
É por isso que não rejeito a inocência presa nos calcanhares das crianças e fico tão volúvel como as marés...

Um belíssimo texto, Manuela. Li e reli e gostei imenso.
Um grande beijo.

BRANCAMAR disse...

Olá Manuela,

Regressou cedo a net cá por casa, numa janela virada para o sol.
Esta história diz-me muito, a Manuela tem o dom de apanhar a alma das coisas e dos momentos.
Logo volto para a recomentar como deve ser, agora o tempo é curto no meio dos livros, dos chás e da procura das madalenas que andam por aí num sítio perdido, :))

Beijinhos.
Branca

Dulce AC disse...

"se me bateres digo à mãe então diz mas adormeço primeiro no chão quente carregando nos olhos o céu repleto das estrelas
que apenas a terra tem"

e em terra me aquieto não as perdendo de vista no pensamento
procurando-as com o olhar...

as tantas estrelas que a terra tem
e eu é que vou dizer à minha querida mãe
onde as hei-de encontrar...

por me querer tanto nelas iluminar

Manuela olá num abracinho grande de ternura...
adorei este pedaço de história.

dulce

alegria de viver disse...

Olá querida amiga

Nesta continuação, deste belo texto, encontrei a registradora de todos estes momentos, a máquina fotográfica, fico com ela, assim nunca mais estas memórias serão perdidas.

Seu coração é lindo.

Com muito carinho BJS.

Ana Martins disse...

Boa noite Manuela,
nunca deixe de carregar nos olhos o céu repleto de estrelas, é nesse olhar sobre a terra que se desprende toda a inspiração e sensibilidade transmitida em textos como este.

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Maga disse...

Passei por aqui, nestes dias infernais em que a empregada decide ir de férias e me deixa abandonada, tratando sòzinha de meus 3 homens (meu Deus, tantos!), só para comunicar que ainda estou viva e mexo...
Mas ao ler o texto acho bom pedir que nunca acabem de fazer as malas, que deixem para sempre o mar colado ás costas...
Um beijo da
Maga

BRANCAMAR disse...

Manuela vou adormecer outra vez, o dia foi longo, reli a história, mas de tão linda e metàforas tão inebriantes nem sei que lhe dizer mais.
Depois do Walter nunca sei que dizer, pois, ele diz tudo! :))

Beijinhos
Branca

Maria João disse...

Manuela

Das noites estreladas, bebidas tantas vezes a chá preto e macerado pelo cheiro a terra molhada, fica o silêncio e, muitas vezes, as mãos vazias de pouco que se soubermos procurar, terão sempre, na dobra escondida dos dedos, um brilho qualquer que lá ficou preso, depois de se soltar da ponta de uma estrela que de dia se apaga.

Aqui, um espaço especial de leitura. Aquele que preenche a nossa alma quando lá há espaço para voar.

O meu beijo maior e um abraço apertado

rouxinol de Bernardim disse...

Texto delicioso e que vale a pena saborear...

um mimo!!!

Pássaro Notívago disse...

ah Manu!

Que imagens lindas que crias!!
Consigo nem dizer palavra diante destes teus "desenhos"!!!

beijos!!

manuela baptista disse...

pelo tempo

que me ofereceram reencontrando-me

obrigada!

um abraço

a todos

manuela