de quem não sei a luz do olhar

" girl in hands" de Sean Mahan

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não sei a cor dos teus olhos não entendo a língua que tu falas tanta Pérsia estudei e não esqueci dos desertos de que me falaram


as tuas mãos que eu nunca vi têm dez dedos que acariciaram os cabelos sedosos dos teus filhos o colo que ao colo os embalavas na saudade de os saberes distantes no medo de perder-te de saber-te só e injustiçada

na tortura dos que te arrancaram confissões que não disseste são essas as palavras torturadas

é tão fácil perseguir os que são mansos os que não pedem os que não desejam nada
apenas que o sal das lágrimas se espalhe nos lagos já salgados e são muitos e à beira do maior eu posso sentar-me


e pedir-te que me contes da voz da tua mãe dos olhos do teu pai das canções que a tua avó cantava dos homens que amaste e que por seres mulher te condenaram

nos três rios que te atravessam o ventre navega o perigo de uma chibatada mas no teu coração desaquietado mora o medo das pedras com que se constroem as casas as pontes as fontes e os segredos de um mundo tão vazio de sentido

e quando eu penso nos seixos que me cortam nas mágoas leves e nas penas que choro
rio-me de mim na falsidade de um valor menor


maior é gritar que tenho frio só de soletrar o teu nome e sentir-me tão pequena na coragem que tu tens e eu não tenho
porque tudo o mais me sobra e não é nada

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respondendo ao desafio de
Bernard-Henri Lèvy para que, a partir de 2ªfeira dia 23 de Agosto, os grandes escritores e artistas enviem uma carta a Sakineh e à sua família
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carta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, Iraniana condenada à morte por lapidação
...de uma muito pequena escritora

Manuela Baptista


foto de mb

10 comentários:

walter disse...

minha alma sangra!

perante o que leio não consigo dizer nada... engulo em sêco um grito de dor e de raiva!

porquê porquê porquê...???

um beijo
Walter

Jaime Latino Ferreira disse...

CARTA A SAKINEH ASHTIANI E A SUA FAMÍLIA


Sakineh,

Mal sabem aqueles que te condenam quanto se condenam a eles próprios!

Escrevo da podridão de homens, homens com letra bem minúscula, que julgando-se detentores e impositores da moral e dos costumes logo no que te condenam se condenam a si próprios!

Ou poderias tu ser condenada sem por mão de homens bem pequeninos poderes vir a ser tão torpemente vilipendiada e condenada do que quer que fosse!?

E os carrascos que eventualmente te venham a infligir a pena, Deus queira que não e Deus é grande (!), o que são eles senão miseráveis cobardes e, por suas mãos, o poder de que se julgam detentores!?

Estou absolutamente Contigo e com a Tua Família, Sakineh Ashtiani!

Tanto que até me antecipo no envio desta carta ...!

Sabes, querida Ashtiani,

Aqueles que contra Ti apontam, cobardes, o dedo, não é apenas o dedo que trazem enlameado!

São as mãos e o seu próprio coração!!

E tanto mais assim é quanto, na invocação do Santo Nome, seja ele Deus ou Alá, Jeová ou Buda se julgarem, impunemente, os seus algozes ...

... porque é nisso que se tornam, condenando-te tornam-se em algozes, condenadores da própria Pessoa de Deus!!!

Ashtiani, estou incondicionalmente Contigo,


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 21 de Agosto de 2010

BRANCAMAR disse...

Impressionante, fico comovida e como diz o Walter é de fazer sangrar a alma. Infelizmente tantos casos se repetem ainda em alguns cantos do Mundo. Tantos, que um dia não tive mais forças e fiz cobardemente um intervalo na minha participação constante na Amnistia Internacional, que durante alguns anos me fazia uma dor imensa através do jornal que recebia com dezenas de causas,não eram só as políticas, que acompanhei desde a prisão já domociliária de Nelson Mandela, eram outras causas também, mais anónimas, como é esta até que alguém as faça saltar para as páginas dos jornais e perante tantas cartas que escrevia para tantos governos, perante tanta tortura e maldade, alguma de um requinte maquiavélico, tive que parar, perdi as forças, porque realmente somos muito pequeninos perante tanta dor.

Há algum tempo penso voltar, será talvez esta a melhor ocasião.

Para além de escrevermos cartas na blogosfera, podemos fazê-lo também directamente para o próprio governo Iraniano, é uma forma de pressão habitualmente usada pela Amnistia Internacional e que costuma fazer bastante pressão sobre as autoridades. Há um modelo exemplificativo, já escrito em inglês em:

http://www.amnistia-internacional.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=1439&Itemid=111

Se todos o fizermos aqueles senhores ficarão com o correio entupido e hão-de ter vergonha...

Beijos Manuela, bem haja por esta participação tão linda e comovedora, bem haja. Toda a pressão é pouca.

As imagens são lindas, a flôr oferecida a Sakineh é comovedoramente significativa, belíssima, côr de sangue, de vida também.

Beijos
Branca

BRANCAMAR disse...

Correcção de erro: domiciliária e não domociliária, :))
Beijos

Graça Pereira disse...

A minha dor e revolta é que ela não é a primeira... e nem será a última...infelizmente!
Um dia John Donne afirmou:" cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra". É uma citação bonita e muitos repetem em momentos de circunstância mas... ainda não faz eco nas cinco partes do mundo...Não nos irmana e não nos apura os ouvidos...para o choro e angústia destas mulheres...Somos responsáveis pelas flores que murcharam no seu olhar...nas sementes que não florirão amanhã...na terra do seu coração...Somos incapazes de erguer-nos numa onda gigante de solidariedade e amor...Somos incapazes de coordenar gestos e palavras...que tenham o valor de uma vida...E afirmamo-nos irmãos e companheiros de todos os outros...Será? Quando acreditaremos que SÓ O AMOR...é a única prisão que liberta?

Beijo
Graça

Luís Coelho disse...

Leio. releio e não entendo nem me restam palavras.
A verdade dói e é perseguida.
A verdade de alguns mata os inocentes e indefesos.
Só restam as pedras no fundo do rio.

AC disse...

"maior é gritar que tenho frio só de soletrar o teu nome e sentir-me tão pequena na coragem que tu tens e eu não tenho
porque tudo o mais me sobra e não é nada"

Também as minhas inquietações me parecem ínfimas quando confrontado com a barbárie, a acontecer mesmo ao nosso lado. E não se pode fingir que não existe, não se pode assobiar para o lado.
Muito turvas vão as águas dos rios, muito inquinado está o perfume das rosas...

Beijo

alegria de viver disse...

Querida amiga

Fico pensando, em que planeta vivemos...é uma discrepância.
Onde as diferenças são muito diferentes, e desiguais.
Enfim, totalmente amorais.
Que a paz entre nos corações e os ilumine.

Linda amiga que sua luz continue brilhando.

Com muito carinho BJS.

Dulce AC disse...

"as tuas mãos que eu nunca vi têm dez dedos que acariciaram os cabelos sedosos dos teus filhos o colo que ao colo os embalavas na saudade de os saberes distantes no medo de perder-te de saber-te só e injustiçada"

Manuela Olá...

as Suas palavras são silêncio profundo na minha alma
de um querer sem fim de que tudo pudesse ser diferente
de que tudo fosse hoje diferente..

Um abraço de esperança e de fé
contudo, hoje muito triste...

Dulce

manuela baptista disse...

obrigada a todos!

um abraço

Manuela