NOS TRILHOS DA NOITE

Bhaltus
-
O homem, incrédulo, olhou para o lado e disse:
-Estás a falar comigo?
-Vês aqui mais alguém com riscas luminosas nas calças? Perguntei, se tens medo de ser atropelado por uma cobra? Com essas risquinhas luminosas verde alface, se não fosse o teu tamanho, diria que és um pirilampo. Pregaste-me cá um susto! -respondeu o gato.
-Nahh, sou um Varredor. Mas tu falas? -balbuciou o homem.
-Para homem és muito inocente... Claro que falo! Os gatos falam, os homens é que não os entendem, quer dizer, a maioria das pessoas apenas ouve miados, o que é extremamente ofensivo para os gatos! Mas de tempos a tempos lá aparece um ser especial que compreende a nossa linguagem -disse o gato.
E acrescentou:
-Muito gostava de saber qual é a tua especialidade, pareces-me uma pessoa insignificante!
-Olha que, para gato és muito rufia! -disse o homem.
-Rufus, é o meu nome, significa vermelho em latim. O meu dono é um complicado, gosta de nomes ilustres... Tens um minuto? Vendo bem ainda faltam uma horas para amanhecer e isto está tão calmo que até aborrece! Senta-te aqui comigo neste muro -convidou o gato.
O homem pousou a vassoura e a pá e com um pulo ágil saltou para junto do gato.
Estava uma noite fresca de fim de Verão, a lua fazia o seu caminho no céu estrelado, na araucária gigante ouvia-se a fala das corujas e os seres da noite sussurravam entre a folhagem.
Então o gato contou, que como animal nocturno que era, escapulia-se todas as noites pelas janelas sempre abertas da sua casa e vadiava pelos jardins, aventurava-se pelas ruas desertas, conhecia todos os jogadores do Casino e todos os que bebendo demais, nunca se lembravam onde tinham arrumado o carro.
Sabia quais os vizinhos que entravam tarde e os que saíam muito cedo, os que cantavam e os que discutiam, os que dormiam descansados e os que tinham insónias.
Dos cães rafeiros não tinha medo, assustavam-se só de verem a sua cauda enfunada para manter o respeito e os outros, fechados atrás de portões e protegidos por alarmes, ladravam-lhe nas canelas mas não lhe conseguiam chegar.
Quando o pássaro da manhã soltava o seu grito e o dono acordava e preparava o café ao som de um disco de Jazz, já ele tinha regressado a casa, lambido a tigela da comida e dormia sossegado na sua almofada.
Rufus era um gato feliz!
Então o homem contou ao gato que embora sendo um Varredor, era de facto um Respigador, recolhia o que os outros não queriam, já tinham esquecido ou, o que os magoando, desejavam ver bem longe.
-O quê? Trapos, sapatos, móveis velhos? perguntou o gato.
-Não. Coisas mais subtis, no meio de um papel amachucado, um sonho.
Entre uma chávena quebrada, uma ansiedade. Numa farpa, um desespero. Escondido numa carta, um desgosto. No bolso de um casaco velho, um medo. Entre as páginas de um livro, uma alegria, uma inspiração. Então recolho-os e guardo-os comigo.
O Homem explicou ao gato que era tudo uma questão de saber ouvir e estar atento no silêncio das madrugadas, o resto, o que os outros perdiam, largavam ou deitavam fora, era fácil de recolher.
-E o que fazes com tudo isso, Respigador? -murmurou o gato.
-Esculpo um poema de pedra.
O pêlo do gato teve um relâmpago de brilho e o pássaro da manhã lançou o seu grito de espanto.
-
Num constante respigar, esculpimos o que os outros perderam ou quiseram deitar fora.
-
Manuela Baptista
Estoril, 11 de Setembro 2009

31 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

POEMA DE PEDRA


Poema de pedra
eu esculpo
ao pé de tuas histórias de amor
estórias de um gato felpudo
e de um respigador
puzzle de sonhos estragados
entornados
aos bocados
são os teus contos recados
que me preenchem de ardor


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 11 de Setembro de 2009

Alegria Joie Joy disse...

Queria eu ser não sei se o gato, ou o varredor, cada um com seu olhar do mundo, com sua esperteza ou sabedoria.
Como sempre um regalo vir até aqui e ler tuas histórias, esta em particular gostei muito, talvez por que goste de gatos, da noite, ou de guardar o que os outros me contam.

Beijos e adoro tudo que você escreve no seu bloggue.

Renata Vasconcellos do outro lado do mar.

Linda Simões disse...

Os teus contos,Manuela,são reflexão pura...


Bom vir aqui,


beijinhos

Filomena disse...

Afinal tanto o gato que sabia de tudo( e os gatos são uns grandes cuscos, só que guardam para si o que sabem) e o homem que apanhava aqui e além, que compilava, tinham muito em comum: o conhecimento da alma humana.E eram poetas. cada um à sua maneira

Gostei do conto. Muito.


Beijo


Filomena

manuela baptista disse...

e se uma peça trocada
fizesse do gato homem
do respigador
respigado
e do mal
o bem amado

ao Jaime,

obrigada pelo poema!

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Para a Respigadora de Olinda,

O amor pelos gatos é comum, são seres especiais, calmos (quando não se assanham...) e inteligentes.

Um beijinho à Renata

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Para a Linda,

Reflectora de contos, que fica bem aqui

Um beijinho

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Filomena

Sabe que no início, o gato chamava-se Gaspar, amante dos telhados?
Mas, primeiro não tinha pedido autorização ao próprio e depois o Gaspar ainda mal compilado, deu um salto para a rua e eu pensei que afinal não era o Gaspar, mas o Rufus.

A história dos telhados fica para mais tarde...

Um beijinho

Manuela Baptista

Filomena disse...

Manuela!

Como sabe que o Gaspar SABE TUDO mas mesmo tudo? É que sabe mesmo! E nada diz.

O Gaspar sentir-se-ia orgulhoso em ser personagem de uma história sua.

Beijo

Ana Cristina disse...

Manuela

Para alguém que gosta de cães, este gato encantou-me e fez-me lembrar "A história de uma gaivota e do gato que a ensinou a voaar" de Luís Spúlveda.

1 abraço amigo.
Ana Cristina

manuela baptista disse...

Ana Cristina

Voilá!

Os livros da nossa vida deixam sementes por todo o lado.

Uma festinha ao Alex, para que ele não tenha ciúmes do gato e um grande beijinho para si

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Filomena!

É só esperar um pouco, para não criar alergia aos felinos e verá...

Beijinhos

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


O que para aqui vai!


e se uma peça trocada
os confudisse
alhada
não saberia qual gato
respigador
encarnado
mal amado
não seria
contigo no meu telhado

( Réplica pós réplica da réplica )

E não te esqueças que de gatos aprendi contigo, com a Tita e com o conto With the Cat que a propósito de nós os três escrevi!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 12 de Setembro de 2009

Jaime Latino Ferreira disse...

INFORMAÇÃO


Para que todos saibam, a minha mulher cozinha como conta histórias.

Hoje o almoço foi:

Delícias do mar gratinadas com arroz branco, regadas a vinho branco bem fresco e rematadas, à sobremesa, por gelado de chocolate.

O gelado, tal como o vinho foram comprados, está bem de ver, sob o seu alto critério;

O arroz branco bem solto, prepara-o como ninguém;

Quanto às delícias do mar, absolutamente divinais!

É de degustar para saber ...


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 13 de Setembro de 2009

manuela baptista disse...

Jaime

Obrigada pelo elogio virtual!

Estava tudo muito bom se esquecerem as calorias...mas hoje é domingo não é?

Manuela Baptista

Alegria Joie Joy disse...

Minha linda Manuela (assim como seu nome lindo).

Cada dia tem sido para mim uma alegria, depois que criei este blog tenho aprendido muito, com você a arte de escrever bem e de apoiar quem tenta fazê-lo (eu), um enorme coração sob domínio de uma mente brilhante, assim te vejo, não preciso de sua fotografia e sim da tua companhia em meu espaço.

A ti só tenho que agradecer, por perder seu tempo lendo meus textos e tentativas poéticas.

Beijos e uma boa noite de domingo.

Renata do outro lado do mar...

Canduxa disse...

Esta história encantou-me.
Agora percebo o que faz um dos meus gatos quando se ausenta e salta os telhados. Tantos segredos que deve guardar...
Parabéns!
Um abraço

manuela baptista disse...

Canduxa

Já a tinha lido por aí, mas foi preciso o segredo de um gato para nos encontrarmos.

E se de facto eles possuem sete vidas, imagine os segredos que não terão!

Um abraço

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Para a Renata

Quanto mais escrevermos,
melhor escreveremos.

É sempre uma Alegria partilhar poemas, com um Oceano pelo meio!

Um grande abraço

Manuela Baptista

Graça Pereira disse...

Senti-me criança! Sentada no chão devorando livros ou ouvindo o meu Pai que era um excelente contador de histórias... como tu! E tal como outrora, apetecia-me dizer-te: Conta mais !! Um beijo Graça

Recado para o Jaime: Parabens por apreciar lindamente a mulher que tem, elogiando-a poeticamente com essa conversa quase à desgarrada. Um bj Graça

Bia disse...

Amei teu espaço e quis ficar...ouvindo o som sussurrante desse mar...

Jaime Latino Ferreira disse...

GRAÇA PEREIRA


Boa Amiga,

Há coisas que não se regateiam como, por exemplo, a graça de ter uma mulher como a minha, a Manuela Baptista ...

Só regateia quem não sabe dar o valor ou quem tem medo que o elogio estrague ou nos faça sombra e inferiorize ...

Não regateio, o elogio engrandece-nos, a ela e a mim!

Obrigado e um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Setembro de 2009

manuela baptista disse...

Graça

Estou toda babada!
Que sorte ter tido um pai, contador de histórias! O meu não teve muito tempo para me contar as dele.

Mas os livros são mesmo para devorar!
Nas, antigas, férias grandes (porque agora são bem mais curtas) eu lia um livro da Colecção Azul todos os dias!

Quanto às histórias, contarei mais, mas hoje estou aqui numa de tagarelice...

Um beijo

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

À Bia

O porto é seguro e gostei de a receber!

Um abraço

Manuela Baptista

Eliane Santoro da Costa disse...

Grande imaginação,Manuela!

Beijinhos de luz!

Ana Cristina disse...

Manela (nem Manuela,nem Ferreira,como vê,rsrsr),

venha de lá essa receita deliciosa de "delícias do mar gratinadas" a que o Jaime tão bem se referiu r que deixam aqui a malta a ganhar coragem para ir bater à porta e fazer-se convidada para jantar ;)

Até ao fim do chamado período de campanha eleitoral, para mim só existe a Manela.

Beijinhos.
Ana Cristina

Brancamar disse...

Belíssima história Manuela! Saída com toda a certeza de um espírito extremamente sensível e atento.
De facto é nos silêncios e no saber ouvir que as almas se encontram.

A linguagem do silêncio é sempre a mais forte e profunda.

Com um beijinho
Branca

manuela baptista disse...

Para as últimas visitantes deste trilho

Eliane
Nini
e Branca

Um abraço

Manuela Baptista

Isabel Venâncio disse...

Olá, Manuela

Gosto dos seus textos. Como sabe, sou professora de Português.
Nos 3 últimos anos, depois da doença e morte do David, desliguei do Português e passei para áreas de "menor responsabilidade".
Este ano, apesar de continuar à noite e com outros módulos, vou dar a equivalente Linguagem e Comunicação.
Não há manuais e eu escolho os meus próprios textos para explorar nas aulas.
Tinha em mente colocar, depois, no blog pintadadefresco, os comentários aos textos que vamos lendo.
Dá-me autorização que use alguns dos seus?
Não quero, de forma alguma, pressioná-la.
Seja franca.
Um abraço
Isabel

Isabel Venâncio disse...

Manuela

Novamente...
Esqueci-me de lhe dizer (ou talvez já tivesse dito, não sei) que tenho 3 gatas e, às vezes, 4 (a dos meus pais), cá por casa.
Nomes? Todas figuras femininas da ópera.
Tosca
Valquíria
Vali
Genufa (a mais nova), com nome escolhido pelo David.
Gostamos de felinos e de ópera.
Um beijo
Isabel

manuela baptista disse...

Minha querida Isabel!

Desapercebida entre gatos e delícias do mar, não é o meu forte andar para trás (nos comentários)!

O Jaime é que tem por hábito fazer a pesquisa e muitas vezes é graças a ele que os leio, mas desta vez falhou.

Quanta à primeira questão, pode usar os textos que quizer, apenas me posso sentir feliz com isso.

Tosca
Valquíria
Vali
Genufa

povoam esta casa do Estoril amante de Ópera. Na realidade, a nossa gata chama-se apenas Tita, mas é bonita e doce.

Quanto ao Rufus, anda por aí a filosofar nas noites...

Volte sempre que quizer e se sentir bem e para não haver confusões, coloco este recado duas vezes, uma aqui outra na página actual...

Um beijo

Manuela Baptista