FIDÉLIA

Os olhos são de um azul profundo como a água gelada das praias do Norte, o cabelo, preto como as rochas em noite de lua nova, as mãos finas e compridas como se fora a fiandeira de um rei tecendo mantos de ouro e prata, o corpo magro, longo e flexível como as algas.
Sempre falou pouco, como se as palavras fossem desnecessárias, porque os olhos dizem e explicam tudo e quando porventura dizia alguma coisa as pessoas assustavam-se, tão desabituadas estavam da sua voz.
Os pais inquietavam-se com esta estranha filha, mas sabiam que ela era feliz desenhando estranhos seres como ela, flores inexistentes e igualmente estranhas, mundos de água e mar, sempre a preto.
Todos os anos em Setembro, os pais levavam a filha para o campo, para respirar outros ares e quem sabe, desenhar outros seres.
Fidélia entristecia, sentia saudades do cheiro a maresia, não gostava do calor e sufocava na casa enorme e vazia.
À tardinha trepava montes acima, o bloco e o lápis Ivory Black fechado na mão, procurava os locais mais escarpados e isolados, onde apenas os pastores e as cabras se aventuravam e aí gostava de ficar.
Um dia encontrou Mateus, pastor de cabras, tocador de flauta, cabelos cor de milho, olhos de espigas verdes e coração manso como um cordeiro.
E Fidélia falou e Mateus assobiou.

E Mateus aprendeu a desenhar e Fidélia a tocar.
Ela ofereceu-lhe um lápis preto, ele fez-lhe uma flauta de cana.
Tinham quinze anos e o monte era alto.
Num entardecer de tempestade, um homem seguiu Fidélia pelo monte acima e soprou-lhe palavras da noite aos ouvidos e ousou agarrá-la e tocar-lhe no rosto e ela viu o gume brilhante de uma faca escondida na mão, teve muito medo e gritou:
-Mateus!
Num pulo de lobo Mateus saltou, os cabelos cor de milho maduro voando com ele e num instante em que o mundo parou de girar, o coração ruim do homem da navalha foi mortalmente atingido pelo lápis preto, onde ainda se podia ler Ivory Black.
Fidélia gostava dos lápis bem afiados.
Mateus foi condenado e Fidélia disse, antes de novamente se calar:
-Espero por ti quinze anos e outros tantos esperaria! Mas quem é que pode prender o vento ou conter a água de um rio, sem que o vento morra e o rio seque?
E passados quinze meses Mateus fugiu da prisão e escondeu-se nos montes e toda a aldeia o ajudou.
Ele trocava comida por trabalho, tocava a sua flauta nos casamentos e nas festas e os amigos e vizinhos fizeram um pacto de silêncio, porque ele era um homem bom e tinha o coração manso como um cordeiro.
Fidélia encontrava-o nas escarpas e Mateus encontrava-a na casa do campo.
Tinham trinta anos e o monte era alto.
Quis o destino, a sorte ou o azar e Mateus foi descoberto por um polícia mais zeloso, daqueles que gosta de cumprir a lei, mesmo que ela não seja justa.
Os amigos, os vizinhos e até o padre diziam:
-Não prendam um homem bom, porque ele está bem junto de nós, já cumpriu a sua pena!
Fidélia, o corpo dorido como alga quebrada, disse-lhe:
- Espero por ti quinze anos e outros tantos esperaria! Mas quem é que pode prender o vento ou conter a água de um rio, sem que o vento morra e o rio seque?
Tinham quarenta e cinco anos e o monte era alto.
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Esta é uma página afiada, como um lápis ou uma navalha e onde se conta que a vida tem muitas histórias e algumas podem ser verdadeiras.
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Manuela Baptista
Estoril, 6 de Setembro 2009

24 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

QUINZE


Quinze anos de amor sofri
e mais quinze
e quinze
e sempre te vi
como o amor a que não fugi
que ri
em ti
e quinze mais espero
porque sei
que em ti o amor não passa
e sempre vem
porque o amor em ti
é o que serei


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Setembro de 2009

Alegria disse...

Nossa amei cada linha, cada palavra, que texto maravilhoso, puro e simples na escrita, sem rebuscado, limpo e lindo. Como me orgulho de ter achado uma pessoa como você. Muito obrigada, nunca pare de escrever, escreva por mais 15 anos e depois mais 15 e assim por diante...

Beijos.

Renata muito emocionada do outro lado do mar.

manuela baptista disse...

Jaime

O amor em ti é o que fui, sou e o que sempre serei!

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Para a Renata,

muito emocionada do outro lado do mar, um grande abraço muito apertado deste lado do mar.

As pessoas especiais acabam sempre por se encontrar.

Manuela Baptista

Filomena disse...

Manuela,

Apesar do tempo que passa, do vento que corre, do rio que vai todos os dias desaguar ao oceano, Fidélia esperará sempre por aquele a quem ama.

Lindo conto, como sempre.

Um beijinho


Filomena

manuela baptista disse...

Filomena

Pois se Fidélia é fiel, Mateus é uma dádiva de Deus.

Só Beethoven estava indisponível para musicar este conto.

Beijinhos

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

BEETHOVEN


Será que Beethoven estaria mesmo indisponível para musicar este conto ...!?

Como Deus, a música também escreve direito por linhas tortas e Beethoven sabia-o muito bem!

Pense-se, por exemplo, na sua Missa Solemnis, ou na nona ou ... em tudo o que escreveu.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 7 de Setembro de 2009

manuela baptista disse...

Expliquei-me mal.

Beethoven está indisponível para musicar este conto porque já não anda por aqui...

Manuela Baptista

Brancamar disse...

Olá Manuela,

Dsscobri o seu blog por acaso, agora, num bonito comentário seu a um amigo, embora já tivesse há tempos lido sobre a sua existência no sítio da Isabel Venâncio.
Como já deve ter reparado, não tenho sido muito assídua, mas tanto a Isabel, como o Jaime, como a Filomena já devem ter percebido que o tempo me tem fugido...agora cheguei aqui e sei que o Jaime vai pensar que esqueci o seu sítio-mentira, mas não vou dar desculpas, apenas dizer que logo que possa passarei por todos.
Aqui é a primeira vez que aporto e gostei imenso do que vi. Já conhecia as suas histórias, bom humor e inteligência pelos comentários no blog do Jaime e da Isabel. Que bom que tenha criado o seu.
Voltarei amanhã mais cedo, para ler com profundidade cada palavra como merece ser lida.
Beijinho
Branca

manuela baptista disse...

Gratíssimo

é o infinito fio de cabelo que o tempo desenha a preto e branco.

Ao Paulo

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Grande surpresa, Branca Mar!

Afinal este blog tem um pedaço que lhe pertence, mas aqui o tempo corre mais devagar pois as minhas histórias marinam primeiro na minha cabeça.

Fique descansada que o Jaime não tem ciúmes destas coisas!
Ele também anda por aqui assim como eu navego no blog dele...

Seja bem vinda a este Mar.

Um abraço

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

BRANCAMAR


Querida Amiga,

Claro que percebo muito bem a asáfama em que permanentemente anda e não Lhe levo a mal coisa nenhuma!

Como Lhe escreve a Manela, os nossos blogues são extensões um do outro, dela e meu e ambos concorremos num mesmo e plurifacetado sentido ...

Que bom vê-la por aqui!

Estar em Casa de minha mulher, assim como assim e ela me desmentirá, é como estar em minha casa e sabê-La por aqui, em si mesmo, é uma enorme alegria já que, estando com ela a mim me tem ...

Um grande beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 8 de Setembro de 2009

. Paulo . Intemporal . disse...

. 100 palavras para/por dizer .

. nesta prosa de ascensão poética em que a força é sempre motriz de um sentimento .m.a.y.o.r. a rasar a asa que sobrevoa a linha de água .

. a ser horizonte perene e longínquo .

. a ser determinação da íris que se fixa no espelho d`água .

. "amei.de.amar" .

. a.setembro.me aqui, a anteceder o outono que de dedos tarsos é presente ou colheita de todas as sílabas que neste espaço suscitam o universo .

. um beijo, sentido .

manuela baptista disse...

Entre pontos
entre linhas

sem palavras me encontrei.

Com olhos de espanto, aqui deste universo

digo ao Paulo, que interpreta muito bem.

Um abraço

Manuela Baptista

Brancamar disse...

Voltei querida Manuela,

Difícil dizer como me deslumbrou a sua história, profundamente rica de sentimentos ...
O sonho é sempre possível, mesmo quando os montes são altos e a idade de os escalar...
O amor tudo vence.

E se me deslumbrei com o texto, que dizer da música?
Peço desculpa, mas levei o link comigo...para poder ouvi-la sempre que me apetecer. Aliás já conheço há muito o bom gosto musical aí de casa, através de "A Música das Palavras", agora passo a ter mais oportunidades de escolha...sorrio.

Deixo um beijinho de boa noite.

manuela baptista disse...

Boa noite para si também, Brancamar!

E daqui, pode sempre levar o que quizer desde que isso lhe agrade.

Beijinhos

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

BRANCAMAR


Minha Querida Amiga,

Obrigado pelos piropos que aqui, ao blogue de minha mulher e ao meu, não regateia:

Sirva-se à vontade e disponha sempre!

Um beijinho


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 9 de Setembro de 2009

http://renatagomesdefarias.blogspot.com/ disse...

Me diga o que faria sem teus maravilhosos comentários?
Muito obrigada me emociona ler tudo que carinhosamente escreve no meu espaço, muito me honra.

Beijos do outro lado do mar.

Renata Vasconcellos.

Linda Simões disse...

Lindo,lindo lindo o teu blog!



Amei!


Beijinhos

manuela baptista disse...

Renata

E não será um prazer passar diariamente uns minutos, em Olinda, Pernambuco?

Um beijo

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

...e no Recife já pisei de verdade, umas horas em trânsito para o Rio!

Para a Linda

Obrigada pelas palavras e pela presença

Um abraço

Manuela Baptista

Linda Simões disse...

Manuela,

obrigada!


Por me fazer sonhar nas Histórias com o mar ao fundo...

Por partilhar sentimentos...

Pelo carinho da resposta.


Beijinhos,deste lado do mar...

Graça Pereira disse...

Vim conhecer este espaço " com o mar ao fundo" e fiquei gratamente surpreendida. Mas este mar, é sempre assim: calmo ou revolto, conta histórias, fala de sentimentos, de amores perdidos e encontrados,de traições mas ..tambem fala de sonhos! Na próxima onda do mar, estarei na tua praia. Graça

manuela baptista disse...

Cada um tem o seu mar e a sua praia, mas apenas ganham relevo quando partilhados.

Para a Graça

que sempre encontrará aqui uma onda mansa

Um abraço

Manuela Baptista