O RAPAZ DO ENTARDECER

É muito jovem, como os muito jovens de férias, um pouco dispersos um pouco entediados com a calma das tardes, o sol em brasa nos corpos perfeitos.
As calças pretas da farda aquecem-lhe as pernas e os pés, fechados em meias e sapatos, pedem liberdade.
Serve cervejas, águas e gelados. Entrega toalhas amarelas, coloca colchões e chapéus de sol, ouve agradecimentos e resmungos.
Arruma o que os outros desarrumam, sorri com timidez profundamente agradecido pela oportunidade daquele emprego de Verão.
O rapaz concentra-se no seu trabalho, limpa disfarçadamente as gotas de suor que lhe molham a testa, ajeita a camiseta branca e o cinto das calças, para que esteja bem, para que pareça sempre bem.
Das 10 às 19 horas acompanha o caminho do sol no seu percurso brilhante até que a brisa marítima e as sombras do entardecer começam a arrepiar os que não têm pressa e se estão nas tintas para os horários dos outros.
Então, recolhe toalhas, recoloca espreguiçadeiras e mesas, espera pacientemente pelos que desarrumam cinzeiros e tornam a espalhar toalhas...
O sol já se pôs e finalmente a silhueta do rapaz aquieta-se na linha do horizonte em frente ao mar. O trabalho terminado, a promessa do jantar que o espera em casa.
E é nesse momento, apenas nesse momento que o seu coração dá um pulo e pensa na rapariga tão nova, tão loura e tão linda que lhe atravessa os dias, que o olha de frente e sem medo e com quem ele gostaria de conversar!
Antes que ela faça as malas, antes que o Verão acabe, antes da saudade chegar.
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"You May Say I'm A Dreamer, But I'm Not The Only One"
John Lennon
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Manuela Baptista
Estoril, 5 de Agosto 2009

6 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

RODA


Roda roda meu amor
roda ensaia esta flor
que encontrarás o sabor
desta casa e sua cor


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Agosto de 2009

Filomena disse...

Manuela!

Quer-me parecer que o rapaz nunca vai ganhar coragem para se dirigir à rapariga.
Ficarão as saudades de nunca lhe ter dito nada. E às vezes é melhor assim

Gostei, como sempre


Beijo


Filomena

Alegria disse...

Olá, obrigada por ir até meu blog, adorei o seu e sempre voltarei, e as vezes dou um tempo para ouvir Chico Buarque, descobri este cantor, compositor, escritor ainda menina meu pai adorava escutar "Carolina".

Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajudar
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar

Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar

Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.

Beijo.

manuela baptista disse...

Filomena,

Na adolescência, o Verão e os seus amores parecem eternos, mas raramente o são.

O Rapaz era verdadeiramente tímido e bem educado e eu só desejo que tenha encontrado dentro ou fora dos seus Verões a menina loura dos seus sonhos.
Ou dos sonhos que eu lhe inventei...

Obrigada pela visita

Um beijinho

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Rê,

Seja bem vinda neste azul!
Obrigada pelas palavras e por me ter recordado uma das composições mais antigas de Chico Buarque e a sua lindíssima letra.

Assim como a menina da história que não viu o rapaz... e só Carolina não viu.

Um beijo

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA


Isto vai-se animando!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Agosto de 2009