BOA ESPERANÇA

Salvador Dali

Era uma vez uma velha Senhora que morava numa casa grande junto ao mar.
A casa tinha dois andares, sete portas, vinte janelas, cinco varandas e seis torreões.
Rodeada por um estranho e desorganizado jardim, onde cresciam plantas de nomes exóticos tais como metrosidero, pitosporum e tamarix, possuía junto ao portão de entrada um enorme pinheiro e uma placa onde se podia ler "BOA ESPERANÇA".
Era o nome da casa.
Quando a Senhora tinha seis anos e toda a gente dizia "Que linda Menina mora nesta casa!" o mar ficava a quinhentos metros de distância e pelas largas janelas sempre abertas entrava o cheiro a maresia e as gaivotas mais ousadas pousavam nos torreões.
Quando a Menina tinha dezoito anos e toda a gente dizia " Que linda Jovem mora naquela casa!" o mar tinha subido vinte metros.
Quando a Jovem se transformara numa linda Senhora de quarenta anos e as pessoas já não diziam nada, o mar tinha subido outros cinquenta metros.
Agora, que a linda Senhora era uma velha Senhora ainda muito bela e com um coração de Menina, o mar estava ali mesmo a uns escassos cem metros das escadas que conduziam aos rochedos.
Na casa existia um piano de cauda Steinbeck tão antigo como a própria casa e nele três gerações tinham aprendido a tocar.
Os dedos da velha Senhora já não tinham a agilidade de outrora e como os filhos e os netos apenas regressavam nas férias de Verão o piano também se sentia um pouco enferrujado e solitário com algumas notas fora do tom.
Na verdade tratava-se de um piano especial, um pouco temperamental, um pouco louco. Nas noites de lua cheia e maré vaza ouvia-se pela casa o som das suas notas em escalas trabalhadas, em exercícios rítmicos, em suaves melodias que subindo de tom terminavam na madrugada em apaixonadas sonatas.
A velha Senhora dizia:
-Este piano está a ficar desafinado, deve ser do sal do mar e das correntes de ar! Talvez fosse bom fechar a janela.
Mas quando fechavam a janela da sala, o piano aparecia na casa de jantar e se nessa noite fechavam a janela da casa de jantar, o piano aparecia na copa ou no quarto de hóspedes.
Por fim desistiram de lhe fechar as janelas e ele permaneceu quieto e desafinado na sua própria sala.
Então a velha Senhora disse:
- Deixem o piano em paz ! Vou chamar um afinador de pianos.
E na manhã seguinte veio um jovem e belo afinador de pianos e com a sua voz de afinador afinada, disse:
-Bom dia minha Senhora, eu sou o Afinador de Pianos!
E a Senhora sentou-se junto dele e do seu velho piano e começaram a conversar e ela contou-lhe que há muitos, muitos anos, conhecera um Afinador de Pianos, tão jovem e tão belo como ele.
E o jovem disse:
-Talvez fosse o meu avô.
E a Senhora pensou "Quem sabe?!".
E sem saber bem porquê, deu consigo a contar como o outro jovem Afinador de Pianos, com as suas mãos sensíveis e um diapasão que retirava de uma maleta de pele castanha cheia de instrumentos, lhe explicava que temperava o piano e lhe falava de batimentos e de ondulações e como o seu coração batia mais forte e ondulava também. Contou como guardara para sempre o segredo do seu amor, porque nesse tempo não era corajosa e decidida e o Afinador de Pianos nunca suspeitara que a rosa vermelha que todos os anos encontrava sobre o piano quando o ia afinar, era ali colocada por ela.
A Senhora suspirou e o jovem disse:
-Minha Senhora, a tristeza é como o mar! Vai e vem com as marés, mas ninguém lhe retira a profundidade e a beleza.
-E o que é feito do seu avô?- perguntou a Senhora.
-Afinou pianos durante muitos anos e por fim comprou um veleiro e partiu para descobrir outras ondulações e escalas.
Naquela noite de lua nova estalou uma violenta tempestade, a casa oscilou e pelas janelas todas abertas entrou o vento e a chuva forte.
O piano afinado, em frente à janela aberta vibrou uma escala em dó maior e arrancou imediatamente para uma sonata.
Eliminada a distância entre a casa e as ondas, navega agora no mar alto um grande navio com dois andares, sete portas, vinte vigias, cinco convés e seis chaminés. Junto à proa pode ler-se o seu nome: "BOA ESPERANÇA".
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-
Esta é a página nona, em que vos conto que BOA ESPERANÇA era o nome da minha casa na Parede e vos convido a navegar na nau BOA ESPERANÇA em companhia de um Piano, de uma Menina e de um Afinador de Sonhos.
Manuela Baptista
Estoril, 17 de Agosto 2009

13 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

AFINADOR


Menino e moço afinava quando se metiam comigo

Depois
aprendi a controlar-me mas por dentro
e surda
a afinação foi fermentando
na indignação
da injustiça das suas causas

Um dia
diante de uma bela Senhora
a afinação
brutou doirada e fresca
suco dos deuses
fresca e cristalina como a esperança que nunca esmorece

E não mais parei de cantar como agora canto diante deste conto de encantar


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Agosto de 2009

Filomena disse...

O que significa que não devemos perder a esperança e que por vezes são os objectos que nos fazem lembrar quem nunca esquecemos.

Gostei, gostei tanto que fiquei com aqueles arrepios que nos levantam a penugem nos braços.
Gostei, gostei muito.

Beijinhos e bom fim de tarde.

Filomena

Ana Cristina disse...

Manuela

Boa Esperança para si e para as suas viagens mar adentro!

Beijinhos.
Ana Cristina

manuela baptista disse...

Para o Menino Afinado que ainda mora no Jaime

Para a Menina Sonhadora Arrepiada

Muito obrigada pelos vossos bonitos comentários e sobretudo por gostarem de ouvir histórias. Nem todos têm esta qualidade ou já a perderam.

Tenho que vos pedir desculpa, pois acrescentei mesmo agora umas linhas à página, cujo conteúdo começou por ser o fio condutor do texto e do qual me esqueci no final.

"BOA ESPERANÇA" era o nome da nossa casa na Parede, com menos portas e janelas, mas com um sotão que era um enorme Torreão virado para o mar.

E finalmente o comentário é para os dois, porque o putativo Menino Afinado diz que as minhas páginas têm muitos comentários porque eu respondo individualmente a cada um.

Neste caso passa e vai em conjunto porque os dois são uns queridos...

Beijinhos

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Ana Cristina,


entrou mesmo e de repente mar adentro!

Espero que a sua viagem de hoje tenha sido boa e não a tenha mareado demais.

Obrigada por estar aí.

Beijinhos

Manuela Baptista

manuela baptista disse...

Dou as boas vindas ao Gato da Rádio e à Carla Princesa.

De onde vêm e para onde vão?

Manuela Baptista

Jaime Latino Ferreira disse...

DO MENINO AFINADO


Comentando comigo mas sem querer dar pública parte embora vontade não lhe faltasse, a Manuela logo me perguntou se no poema que lhe escrevi, ao utilizar o verbo brutar eu não estaria a ser um pouco bruto ...

Bruto, bruto, bruto!!!

E assim, com o que aqui vos deixo dou a mão e broto a brutalidade de um verbo inexistente para as calendas gregas!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 17 de Agosto de 2009

entremares disse...

Sonhador_28 acreditava que sim.
Joaninha_azul também.

Conheceram-se num fórum, quando ambos pesquisavam quais os melhores alimentos para os periquitos, a sua paixão comum.
Depressa descobriram, para além do nome das sementes preferidas dos pequenos pássaros coloridos, muitas outras coisas… comuns.
Sonhador_28 depressa se transformou em José Maria… e a Joaninha_azul… em Maria de Fátima; ele, ainda inexperiente na criação dos pequenos pássaros, ela já cheia de truques e pequenas artimanhas.
- Mas tu não sabes que a primeira coisa a fazer é colocar os poleiros de madeira? – foi logo a primeira reprimenda – os coitadinhos detestam aquelas coisas de plástico…
O José Maria não sabia. Como também não sabia que os periquitos apreciavam bastante um bom banho, ou umas folhas suculentas de alface. A Maria de Fátima, é claro, já sabia tudo isto… e lá foi retransmitindo a sua ladainha de conhecimentos ao seu jovem amigo e parceiro de conversas da Internet.
Claro que o tema dos periquitos depressa se esgotou e logo passaram para divagações mais interessantes… e foi então que descobriram possuir muitos … mas mesmo muitos gostos em comum.
Ela era gémeos de signo, criativa, eloquente nas palavras, um humor que desarmaria a mais sisuda das criaturas. Ele, sagitário, fogoso e irreverente, rebelde, idealista. Ela perseguia uma alma gémea que nunca encontrara. Ele acreditava numa alma gémea que ainda não procurara, na esperança de tropeçar nela, num acaso do dia-a-dia.
Nunca trocaram fotografias. Ela não queria deixar-se influenciar pela beleza dele, dizia.
Ele dedicava-lhe poemas de amor.
Primeiro... uns breves minutos defronte do computador... depois aquela angústia da distância, a solidão da espera. Ambos em Lisboa, ambos anónimos no meio da multidão... quem sabe, talvez até já se tivessem cruzado na rua, um dia qualquer...

Combinaram encontrar-se. Na esplanada da avenida. Num domingo de manhã.
Ele iria de verde, ela de branco. Ambos levariam debaixo do braço uma agenda vermelha, tomariam um café, ficariam a conhecer-se, cara-a-cara... e logo se veria...

Os dias passaram, ao ritmo costumeiro, excepto para os amantes adiados, a quem o tempo nunca chega. Mas finalmente...

Galgou os ultimos degraus da escadaria do metro, desembocando directamente na avenida, a poucos passos da esplanada. Apertou com força a agenda vermelha, debaixo do braço. E se ela não estivesse lá? E se tivesse mudado de ideias? E se?
Um turbilhão de ideias desconexas inundou-lhe o espirito.
Não.
Devia afastar os pensamentos... todos os pensamentos. Seria alta? Baixa? Loura, ruiva, morena? Bonita? Simpática? Sensual? Magra, roliça, gordinha?
Como deixar de pensar?
Acercou-se do local combinado, aquela hora, quase vazio.
Uma... duas... três mesas ocupadas – um casal de namorados, um grupo de turistas, com aspecto de alemães, uma senhora, já de certa idade. Onde estaria a Maria de Fátima?
- Ainda bem que cheguei mais cedo... – deu consigo a murmurar sózinho... assim perceberei logo ...
Sentou-se numa das mesas vazias, entre o casal de namorados e a senhora já de certa idade.
Colocou a agenda vermelha em cima da mesa. Quando Maria de Fátima se aproximasse... saberia logo a quem se deveria dirigir...

(continua...)

entremares disse...

(...continuação )

- José Maria?
Virou-se para o lado, à procura. Não dera pelo aproximar de ninguém, mas a voz soara estranhamente próxima.
- José Maria?
Os olhares encontraram-se.
- De..deve... ser... engano...
Ela sentou-se no lado oposto da mesa, o olhar brilhante e inquiridor.
- José Maria... és mesmo tu? Essa agenda vermelha...
Ele engoliu em seco, e de repente o mundo desabou-lhe sobre os ombros, soterrando-o sem apelo.
- S... So...sou... sou... sou. Sou mesmo eu... e a ... a senhora... é...
A senhora já de certa idade, que estivera sentada por um bom par de minutos na mesa ao lado, sorriu maravilhada.
- Sim... sou eu... Maria de Fátima...

Olharam-se demoradamente, analisando a estranha situação.
Ele nunca lhe dissera a idade... 27 anos... nascido a 30 de Novembro... ela também não .... 72 anos... nascida a 31 de Maio...

Foi ela que finalmente rasgou o silêncio.

Então, José Maria... diz-me lá... ainda acreditas na alma gémea?

manuela baptista disse...

Entremares

Em matéria de histórias sem fundo vence-me aos pontos!

Lamento que o José Maria, com apenas 27 anos de idade, já não acredite na possibilidade de encontrar a sua alma gémea,mas não há gémeos perfeitos pois não?

Obrigada pelo seu sentido de humor e pelas informações sobre o estranho mundo dos periquitos.

Manuela Baptista

Maria Emília disse...

Afinar sonhos só, não basta.
Há que dar-lhes corpo, cor, sabor, abrir a janela e com eles partir, enquanto a menina cresce.
Um beijinho,
Maria Emília

manuela baptista disse...

Exactamente, Maria Emília!

Manuela Baptista

Linda Simões disse...

Morar junto ao mar!

Que linda menina!Que lindo Mar...


Muito bonita.Mesmo.


Beijinhos