os três mantos do rei





Veio o vento forte, quebrou as portas e as janelas, roubou dos armários as roupas e as tigelas e a chuva a zunir, alagou os tapetes, arrastou as cadeiras, os espelhos estalaram e os peixes vermelhos nadaram nas banheiras e o rei gritou, ai quem me acode num dia assim.
O rei era muito pequenino, mas tinha um coração grande e, tantas eram as vezes, não lhe cabia no peito. Não sei porque sou assim, gritava o reizinho, ai quem me acode e me faz um manto que me esconda do vento, da chuva e do desalento e me deixe o coração de fora para espreitar os pássaros e os peixes vermelhos que nadam nas banheiras.
Faço eu! respondeu o alfaiate. E costurou-lhe um manto de veludo bordado e tal era o peso do veludo e do bordado, que o rei encolheu cinco centímetros e chorou duas lágrimas de sal.
Não, não, sou eu que o farei, disse o joalheiro. E coseu-lhe um manto de jóias brilhantes e tal era o brilho, que o rei deixou de ver durante cinco dias e cinco noites e chorou quatro lágrimas de sal.
A cozinheira também tentou e fez-lhe um manto de claras em castelo, leve como o ar e o reizinho voou e só o agarraram dois dias depois. O rei soluçou de tanto se rir. 
Então decidiu fazer ele próprio os seus mantos. Quando a chuva parou e o vento se aquietou, foi ao jardim e escolheu três flores aveludadas, luminosas, leves, singulares e com elas se vestia quando se sentia ensolarado, rodado ou esperançado. O coração grande acompanhava-o sempre, porque agora cabia em qualquer lugar.
































Litania para quando somos pequenos 
e grandes já amanhã






6 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



rei é quem tece o seu próprio manto



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Janeiro de 2018

Graça Pires disse...

Obrigada, Manuela. Hoje precisava de uma história assim para acreditar que são as nossas mãos que melhor conhecem o que o coração pede...
Um grande beijo.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Vim só para lhe roubar um manto
...e zás
veio o rei atrás

E pronto, lá está

Mar Arável disse...

Ainda há reis com sorte
nas mãos dos poetas

mz disse...

E não têm as flores a macieza do veludo, o brilho das pedras preciosas em todas as manhãs de orvalho e toda a leveza das pétalas?

O manto perfeito para esta fantasia!

Maravilhoso!

Luis Alves da Costa disse...

Os três mantos do rei são as três etapas da noite e da madrugada, entre o crepúsculo, a noite profunda e o silêncio frio que precede a aurora. Cada um das flores nos veste por essas horas