erva-dedal


Quando o rei avistou o primeiro gaio nas varandas do palácio, lembrou-se que não tardariam os dias longos e as noites quentes, as luas plenas e o mar chão. Já os botões de rosa despontavam e muitas e variadas espécies cresciam nos canteiros e as princesas, num assomo de inocência e vaidade, disseram, pai, senhor nosso rei, deixai-nos fazer uma festa de flores e vestidos de seda. O rei concordou impondo apenas a condição, de que seriam elas próprias a costurar as suas vestes e a de todos os convidados. Elas amuaram, mas meteram mãos às tesouras, linhas e agulhas e começaram a costurar. No entanto eram frágeis os dedos das princesas, habituados a dedilhar pianos e harpas, a bordar um ponto de cada vez, sem pressas, nem hora marcada. E sangravam-lhes os dedos e elas escondiam as lágrimas numa caixa de prata para ninguém ver. Até que lhes apareceu em sonhos uma rã e falou-lhes de uma planta amante de solos húmidos, terrenos sombrios e siliciosos cujas flores, semelhantes a dedais, lhes protegeriam os dedos e cicatrizariam as feridas. Na manhã seguinte elas procuraram nos jardins do palácio, pelo campo à volta, nas aldeias distantes e só depois de muito procurar, a encontraram na serra junto aos pinheirais e levaram com elas alguns pés e outros ainda para os canteiros do palácio. E os dedais de flor protegeram os dedos finos e o chá das folhas fortaleceu-lhes o coração.
Foi então que o rei descobriu nos canteiros as dedaleiras em flor e nos quartos das princesas, um número infindável de vestidos e vestes de seda onde não se via uma gota de sangue e pasmou. 
Nas crónicas do mês de maio ficou registado que nunca se vira naquele reino uma festa assim.










8 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


como se poderia ter visto uma festa assim se são as tuas dedaleiras que bordam estórias mágicas sem fim


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Maio de 2017

Graça Pires disse...

E uma festa assim ficou no meu coração. Vi-me menina, ao colo da minha mãe, que me contava uma história de encantar como a tua.
Um beijo, Manuela.

Luis Alves da Costa disse...

Todas as flores e o calor e as cores têm trazido um mês veraneado, e assim queremos que continue :-)

Marcos Satoru Kawanami disse...

O oceano atravessado a um clique.
Aí está fazendo calor cedo, e aqui o frio também resolveu chegar antes do inverno.
Texto caloroso e carinhoso. Uma vez, ouvi alguém dizer calorento em vez de caloroso, e calei-me; mas aqui se aplica a ambiguidade.

:)

Maria Rodrigues disse...

Que conto lindo.
Uma planta útil e bela que contribuiu para imortalizar essa festa de maio.
Beijinhos
amria

mz disse...

É Maio e o Maio faz-se de flores selvagens e dos canteiros feitos. Sempre com uma imaginação espantosa, Manuela.

Um abraço.

Jacintinha Marto disse...

Pois eu venho aqui com uma senhora, ache que hoje e o último dia antes de ser promovida, queria só agradecer o carinho todo que me têm dado ao longo destes anos,
quando o meu pai, o Abóbora, me disse, um dia, jacinta, vais ser santa e nem vais precisar de muitos estudos para isso, naquela altura não era preciso estudar muito, bastava olhar para cima e ver o solzinho a dançar, e o Abóbora dizia-me, um dia, vai vir um homem de branco, com um sorriso lindo, como o cantinflas, vai agarrar em ti e dizer-te, és santa, os outros que te orem,
era eu pequinina,
ainda não sabia que ia ter a vida cheia de coisas grandes,
custou muito, mas já está,
é caso para dizer que vivo entre duas covas, a da Iria e a da Moura, sendo que a segunda é muito mais difícil de suportar do que a primeira, dizem as irmãs das segurança social, aguenta-te, jacinta, pelo menos, até amanha, só que as noites de sexta são muito penosas, agora que acabaram asaulas, trazem o insucesso dos mais novos, para me submeter a provas de recuperação,
é por ali o caminho, diz o Francisco Bergóglio, mas não é preciso ensiná-los, que eles sabem muito bem chegar á carne velha, amanha, serei santa, creio que irei apadroar a Cova das Moura, ou um musseques angolares, serão minhas as preces da guiné, aquém e além mar, a sorte é que vou poder fazer milagres, e o primeiro será o poder sentir alguma coisinha, para perceber por que olham para mim com tão grande ar de espantação, quando cessam as noites e eu me entorno toda nas bermas, entre lenços brancos e guardanapos de papel,
respeito é coisa que a escola não lhes dá...

© Piedade Araújo Sol disse...

Manela
uma história de encantar, que se lê num ápice.
gostei, mas confesso que as imagens me fascinaram também.
boa semana.
beijinhos
:)