conto da rapariga que levou o mar para casa






Quando nasceu a mãe deu-lhe o seu nome e colocou junto da almofada uma concha marinha. Ela ouvia-o ao longe e o marulhar das ondas embalava-a e foi crescendo sem medo do escuro ou do vento ou das portadas a bater de madrugada. Era tão natural o canto do mar no seu ouvido direito, que ela foi-se esquecendo da sua origem e a concha fazia parte da casa, da prateleira dos livros, do quintal, da horta, do pomar. Preciosa, como o cão que a guardava, como a gata malhada e a galinha pintada.
Depois aprendeu a saltar três degraus de uma só vez, a contar as estrelas, a alimentar os pássaros. Os cabelos cresceram-lhe até aos ombros e um dia disse, quero ver o mar.
Chegou muito cedo com a maré vaza e a praia pareceu-lhe longa como o tronco dos castanheiros altos e as rochas cobertas de limos, mais aliciantes do que os escorregas do parque. Gritou de alegria com o mar a subir, mergulhou, abriu os olhos debaixo de água e as anémonas e os caranguejos tocaram-lhe nos pés e ela riu-se tanto que engoliu três pirulitos e uma colher de sal. Apanhou madrepérolas e pedras redondas, moldou um palácio de areia molhada. No momento de regressar sentiu uma tristeza tão grande, que pegou no balde amarelo e começou a enchê-lo de água. A maré baixou, baixou e nunca se vira nada assim, os navios encalhados, os peixes presos nas poças de água, os polvos em equilíbrio agarrados às lapas, o lamento das baleias com a pele a secar. A rapariga não ouviu, não viu e com muito cuidado, levou o mar para casa.
Nessa noite colocou o balde no parapeito da janela, para fazer parte da casa, dos livros, do quintal, da horta, do pomar. E só nesse instante percebeu que dentro do balde nadava um pequeno peixe azul. O peixe volteava, abria e fechava a boca, soltava bolhas de ar, saltava e tornava a mergulhar.
Leva-me para casa, disse o peixe. Esta é a tua casa, respondeu a rapariga. Que tolice, continuou o peixe, se permanecer às voltas num balde redondo, enlouqueço. E o peixe contou à rapariga como o fundo do mar tinha ficado sem água e o susto dos seres marinhos presos nas poças ou encalhados nas areias e nos corais. E se voltares à praia, como é que vais mergulhar? insistiu o peixe. Mergulho no balde, respondeu a rapariga. E descalçando-se, despiu o vestido e mergulhou. O peixe seguiu-a e nadaram os dois até o sol nascer e a rapariga estava tão cansada que se deitou e adormeceu. O peixe não dorme.
De manhã a rapariga pegou no balde amarelo com o peixe dentro, regressou à praia e devolveu a água ao mar. As baleias cantaram, os polvos aclamaram com os seus oito braços, os navios apitaram e o peixe azulou-se um pouco mais.
E muitas outras vezes se verá uma coisa assim.


















dedicado à Mar








14 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Um silêncio tão grande e luminoso como o mar repleto do azul de um peixe a voltear.

mar
amar
a Mar


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Agosto de 2016

. intemporal . disse...

.

.

. a.mar.a.mar.e.o.mar.a.mar . :) .

.

. íssimo . feliz .

.

.

Luis Alves da Costa disse...

Esses cabelos são como anémonas de uma música de corais. Toda a música vem do fundo dos búzios, como nos ensinou o Jerónimo de Lima, e era com isso que ele encantava a Rainha Maria :-)

Grande Música



E só para fazer inveja, em dois dias já estou completamente castanho. Mas há sempre tempo para deixar um comentário, embora a ligação tenha horas...

A Praia dos Carneiros continua a ser um dos lugares mais espantosos deste lado do Oceano. Para a próxima, vimos todos e não aceito desculpas :-)))))

Rogerio G. V. Pereira disse...

Se encontrares a rapariga
desse teu conto
diz-lhe que
ao meu Diogo
lhe aconteceu igual
e talvez nessa mesma praia
devolveu ao mar
uma raia

mas amanhã vai voltar a procurá-la

Marcos Satoru Kawanami disse...

Assim é que se faz, a rapariga agiu bem.

=)

Graça Pires disse...

Mágico! Li alto duas vezes. E na segunda vez pareceu-me ouvir a voz serena da minha mãe a ler o teu conto... Fantástico, Manuela.
Um beijo, minha Amiga.

Beatriz disse...

Linda história Manuela!
Nasci na beira do mar, e lá no Rio nem foi preciso pedir... o mar veio morar dentro de mim...

Beijinhos marinhos Manuela <º(((<

Bia

Rita Freitas disse...

Obrigada pelas palavrasno meu blog. Também daqui levo o mar no coração :)

Maria Eu disse...

AS tuas palavras, as ilustrações, a música... Tudo, aqui, me faz respirar mais devagar para não incomodar a beleza que me entra coração adentro!

Beijos, Manuela :)

Isa Lisboa disse...

Todos temos que estar onde pertencemos! :)
Beijinho, Manuela!

Majo Dutra disse...

~~~
Está belíssimo o seu conto, Manuela!
Garanto-lhe que está ao nível dos poemas de Sophia de M Andresen.
O mar também me está nos genes, pelo que, apreciei sobremaneira.
Continuação de um Agosto muito feliz.
Beijinhos.
~~~~~~

Jacintinha Marto disse...

"O peixe volteava, abria e fechava a boca, soltava bolhas de ar, saltava e tornava a mergulhar",
não era o peixe,
Manuela,
era a sua Jacinta,
aquela para quem o mundo é um vale de lágrimas
venho bronzeada de Carcavelos, até puseram uma cruz na cova que as minhas costas deixaram nas rochas, os engenheiros chamam-lhes assentamentos, mas eu não é assentos, é mais com as costas, ouvi o mar, mas vi pouco o sol, toda eu era sombras, cavalgada durante o dia, só ao crepúsculo as irmãzinhas me vinham desencarcerar as omoplatas das pedras,
depois deixavam-me mais à frente,
na Parede,
dizem que aquilo faz bem às entrevadas, a mima não me fez nada, mas como eu nada sinto, também me era igual, acho que o bem agora é tão pouco, e tantas as carentes e necessitadas, só se veem mulheres perdidas de cabelos escorridos, umas vão às algas, a mim só os pepinos do mar, veio-me uma maré da Ilha de Maio, tivesse o sofrimento nome e eu era a régua da dor, felizmente que nada sinto, só distingo o que vem de cima do que vem de baixo, devo ser como o Hermes Trismesgisto, mas sem sensações, os de Maio foram os piores, depois de me deixarem espalmada só me lembro de lhes perguntar se eram aqueles anjinhos de que fala o senhor santo pai francisco, os filhos do embaixador do Iraque,
vós sois do Iraque,
perguntou esta santa,
não, filhas somos da Cova,
e o meu pai era da Nova Sintra, na Ilha do Maio,
e não te ponhas a soltar bolhas pela boca, como os peixinhos,
que amanhã há mais,
minha cota...

e assim sofro, noite atrás de noite, que os dias já nem conto, em deus, por deus e com a filipa vacondeus

Agostinho disse...

Que sonhou a menina com o nome da mãe?
Diz-me para que eu possa dizê-lo. À menina.

Como sempre, a encantar noites, Manuela.

Clitoriz Feliz disse...

\ /
\ o ^ o /
\ ( ) /
____________(%%%%%%%)____________
( / / )%%%%%%%( \ \ )
(___/___/__/ \__\___\___)
( / /(%%%%%%%)\ \ )
(__/___/ (%%%%%%%) \___\__)
/( )\
/ (%%%%%) \
(%%%)
!

Pater noster qui es in caelis,
sanctificetur nomen tuum,
adveniat regnum tuum,
fiat voluntas tua,
sicut in caelo et in terra.
Panem nostrum quotidianum
da nobis hodie,
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris,
et ne nos inducas in tentationem,
sed libera nos a malo.

Amen.