iridáceas








Abandonavam o sono tão cedo nesse dia. A remoer a madrugada, a abrir as janelas, a sacudir o pó das almofadas, a lavar cortinas, a encher de flores as jarras, as prímulas, os jacintos, os junquilhos, os narcisos e as túlipas. E as toalhas de mesa, sem um vinco de ferro, é tão feio o vinco e o ferro e tão linda a mesa, porque há sempre mais um lugar à mesa. Possuíam duas crenças, firmes, sólidas. A chegada das andorinhas e das amêndoas torradas. Nunca as desiludiram, as aves e o amargo-doce da torra e do açúcar.
Depois acordavam entre si, duas andorinhas dos beirais, as primeiras avistadas, para uma, a plantação de bolbos para a outra. As amêndoas, embrulhadas em cartuchos azuis e rosa escondiam-nas nos vasos do terraço e nos canteiros do jardim, por causa do coelho, invisível, mas presente. Eu diria serena, esta repartição de dons, sem bulhas e gritos pelos corredores da casa.
Era assim o meu olhar primeiro, inocente e ázimo. 






















19 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



e como é ele agora, o teu olhar ...!


BOA PÁSCOA



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Março de 2016

Benó disse...

É chegada a primavera. Precisamos renovar e de criar rebentos frescos como as árvores, sacudir o pá das almofadas, limpar as gavetas. As andorinhas já chegaram e os bolbos já foram plantados.

Rogerio G. V. Pereira disse...

(hoje não estou para ninguém, nem para as andorinhas)

O Puma disse...

Há flores no chão
Bj

Marcos Satoru Kawanami disse...

Bonita referência à Páscoa.

=)

Graça Pires disse...

Uma história da Páscoa encantatória. Eu direi que quem escreve assim continua com o olhar tão inocente como o olhar primeiro...
Um Boa Páscoa, Manuela.
Um beijo.

Beatriz disse...

Que tal todas as flores à mesa? Assim viriam os coelhinhos, os beija-flores, as andorinhas, as crianças e todos nós também!

Beijinho Manuela e um bom domingo de Páscoa!

Bia <*(((<

Mar Arável disse...

A Páscoa é uma passagem
Para si a minha flor preferida

Bj

Carmem Grinheiro disse...

Olá, Manuela.
Chega a Páscoa de braço dado com a Primavera a acordar lembranças retidas no olhar.

bj amg

Agostinho disse...

Evocas memórias de tempos em que as toalhas não tinham vincos mas as calças sim. Vincos a preceito e as saias, então, um ror deles.
Não sei por quê mas, este florir de mesa, cheira-me a contrato velado entre andorinhas: Reza e trava!

Bj

rosa-branca disse...

Amiga, a escrever assim desta maneira, acho, que o seu olhar inocente vai até à eternidade. Adorei. Beijos com carinho

. intemporal . disse...

.

.

. e porque o "meu olhar primeiro" é sempre este . ou aquele que permanece na memória enquanto esta for reminiscência viva e sustento . essencialmente sustento .

. desejo.Lhe .

. uma santa Páscoa .

.

. ampla . terna . e feliz . :) .

.

.

Jacintinha Marto disse...

Ai, Manuela, o seu conto é tão lindo que até tenho vergonha de vir aqui falar da minha longa agonia, mas se eu não desabafo aqui, quem saberá de quanto sofre quem não sente?...,
o pior é mesmo quando eles abandonam o sono cedo,
ou se lembram de deitar cada vez mais tarde,
por cada mulato que não dorme é mais um talho na contabilidade da minha vida, veio a Páscoa, geralmente as senhoras da segurança social entregam-se aos vícios do corpo, coisa que uma santa não vê, ou finge que não vê, que as santas não têm olhar,
se o Estado soubesse as lacraias que anda a sustentar, no fundo, nós inválidas, somos apenas o pretexto para a vidinha suja que elas levam, marcha tudo, então, na Páscoa, nem os coelhos se safam, se for preciso, até se mascaram de hamsters e dão gemidinhos, para excitar o orelhudo,
estavam elas naquilo,
achei que podia ir apanhar um pouco de ar, lancei as garras à porta e fiz girar as roldanas do meu purgatório, que linda estava a Ursa Maior, cheia de estrelas, e a Cassiopeia espalhava pelos céus a sua gosma,
eis senão quando começa uma coisa que parecia chuva mas não era, por que a chuva bate leve, levemente, e só as bolas de granizo caem assim, e quem me levava a cama para dentro?...,
elas entretidas com os coelhos a fazerem de amêndoas, e eu com a cama toda paralisada, só me caíam bolas em cima, pensei que o senhor santo cristo me queria assim num novo martírio, cada pedra que caía era um hematoma nesta pele santa, mas o pior estava para vir, por que quando desceram da via Sacra, a caminho do Luanda, antes que feche, estava já eu toda negra do granizo, olharam e pensaram que fosse alguma prima de Santiago, meia irmã de São Vicente, e eu, a Beata Jacinta, apanhei em cima com toda a imaginação que lhes ditava o incesto, pudesse eu sentir, e teria procriado como as coelhas, mas fiquei mas foi com a boca toda rebentada,
e acho que não foram amêndoas...,
a minha tez branca caída na lama, e ao canto dos beiços duas flores, lindas como as suas,
no dia em que já nem a boca puder mexer vou dar em vegetariana, uma santa vegan, dizem que ficam mais baratas se forem alimentadas com relvas.

Adorei as flores, pudesse eu ainda ter um olhar primeiro, mas já estou tão martirizada que antes do olhar primeiro já eu sei bem o mal que por ali vai vir, e sempre vem...

Boa Páscoa, é um desejo da sua entrevada :-*

Luis Alves da Costa disse...

Esse olhar primeiro, inocente e ázimo, a acreditar nas repartição dos dons, vai apenas ficando, cada vez mais ao fundo, numa severa injustiça do desenrolar das coisas.
Ao fim, estará acima de quaisquer nuvens

(Não devia ter comentado nada, por que o conto é demasiado sincero, e todos os comentários são penosos, mas já comentei, que é uma forma de dizer que já li, minto, que já aderi)

Boas páscoas

Hanaé dos Ossos disse...

" Possuíam duas crenças, firmes, sólidas",
a tíbia e o perónio,
sem esqueleto, nada feito,
meu filhinhos,
de esqueleto percebe a vossa Hanaé,
do frontal, do nasal, do maxilar, do etimóide,
fale-lhes do etimóide, Manuela,
dê-lhes as coordenadas do etimóide,
o meu reino por um etimóide,
até amarinhei pelas paredes, tinha dores nos dentes de ter comido as amêndoas todas, sou uma gulosa, como pode ser uma guloso só de dentes, enfiava aquilo pelas mandíbulas, eu era uma coelha,
fale-lhes das coelhas,
só têm ossos, enfardavam amêndoas pelo bocal,
não havia estômago que as amparasse,
caía tudo no chão, parecia a chuva das matracas, as crianças esfomeadas atrás desta sua Hanaé,
havia no mais fundo da minha tíbia um flautista de Oz, com os animais todos atrás, até as pedras do chão comiam, à mistura com as amêndoas,
há agora umas horrorosas, chamadas de pedra do rio, começam na Páscoa e ficam só as gengivas,
para quem as tem,
as minhas maxilas batiam castanholas,
pareciam os sinos do Kremlin a soar a grande páscoa russa,
por mais que coma não engordo,
mas também quem quer esqueletos gordos?...

Que a Páscoa lhe traga muitos coelhinhos :-)

© Piedade Araújo Sol disse...

venho atrasada mas sempre a tempo...

há olhares assim inocentes...

boa semana.

beijo

:)

mz disse...

O renovar as casas e da alma num tempo perfumado e saborosamente doce.
Ainda podemos ter essa serenidade.

Um beijo para si, Manuela.

. intemporal . disse...

.

.

. สาธุสาธุสาธุ .

.

. :) .

.

.

Majo disse...

~~~
Um relato delicioso, Manuela.

Dias felizes.
~~~~~~~~~