sem ruído













Que silêncio gelado se instalou neste meu reino? perguntou o rei ajeitando a coroa de estevas que lhe enfeitava a cabeça. Pois não vos ordenei que me contassem histórias, uma para cada dia e acrescentassem outra ainda nas noites de lua cheia quando o tempo aquece e nos parece quase impossível adormecer? 
E continuou a fazer perguntas e da sua boca soltavam-se os pontos de interrogação e pousavam na mesa, no jarro da água, nos canteiros do jardim, nas telhas da casa e eram tantos que os habitantes do reino temeram que o sol se escondesse e foram em grande pressa procurar os contadores de histórias e não os encontrando voltaram a temer, desta feita, a ira do rei.
Para dizer a verdade o rei não era assustador. Media exatamente cento e cinquenta centímetros, pesava trinta quilos, tinha os cabelos cor de fogo presos numa fita preta e todas as manhãs colocava no bolso da camisa um malmequer amarelo com a corola de fora. Depois sentava-se na biblioteca e escolhia o livro onde queria reinar. Abria o primeiro capítulo e entrava. Era feliz assim.


Onde é que estás. Em cima da árvore, não me consegues ver. Não. Então cala-te, no meio do ruído é impossível medrarem os pêssegos rosa. Os de Colares. Sim, esses mesmos. Lembras-te do avô Joaquim todos os anos em agosto e mais dois ou três dias amadureciam. Não se soltavam do caroço. Pois não. Tinham a doçura certa como certo era o dia, a noite e a madrugada. E deus. Deus é incerto. Pois é. Porquê. Não sonha. Mas ainda é maio e o tempo parece-me tão estreito e longo como um corredor de fundo antes da partida.













27 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



Onde é que estás?

No estreito tempo que se alonga e que corre de partida.

Que bom rever-te de novo, sejas bem vinda!



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 15 de Maio de 2015

Rogerio G. V. Pereira disse...

Há tanto tempo que procuro um reino assim...

(acho que conheço o avô Joaquim)

Mar Arável disse...

Tudo faz sentido nos seus textos

"até" a musicalidade das palavras

que encantam

Bj

Jacintinha Marto disse...

A história é linda, e o Jaime pergunta onde estou,
aqui estou,
voltei hoje da Cova da Iria, onde ma pagam para fazer de figurante, há os que vão visitar a Senhora e os que preferem os arredores,
eu faço de arredor,
ponho-te toda acamada, e quando eles perguntam cadê a pastorinha, há sempre um guia a quem se dá 1€ e me vai mostrar, com a cara de lado, meio babada, e coberta pelo lençol.

Dizem que se ajoelham e há aqueles que levantam os olhos ao céu e dizem,
parece que está viva,
pois estou, mas deviam pôr-me um letreiro aos pés, a dizer,
mas não sente nada,
o resto já vocês sabem, fiz a peregrinação ao contrário, a acelerar com as mãos as rodas da cama, sofri o martírio em muitas bermas, e muitos nem se deram ao trabalho de me limpar com um lencinho branco, quando passavam em procissão por cima de mim, e depois desandavam, quantas vezes sem dizer adeus.
Cheguei cá abaixo, já o Paulo Intemporal tinha o blogue fechado com coroas, parece um velório, benzó-deus,
e quanto à Manuela, 1 metro e cinquenta centímetros?...
Não estará a usar a régua do lado das polegadas, é que 50 cms já vi, mas nunca tinha de altura um metro...

Bem hajam

Beatriz disse...

O pequeno gostava mesmo das suas histórias imaginárias, que saíam das páginas de um livro e se transformavam em sua cabeça....

Um beijinho Manuela

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Isa Lisboa disse...

Entendo este reizinho...: A mim também me apetece ouvir uma história todos os dias!

Um abraço

tulipa disse...

MANUELA BAPTISTA

eu já cá tinha vindo
mas...
os comentários estavam fechados

muito obrigada pelos seus
votos de parabéns!

sobre as suas palavras:
e se os seus familiares se esqueceram de si, ainda está a tempo, acorde-os, telefone-lhes, faça-lhes saber que hoje é um dia muito especial que merece ser festejado
AI MANUELA
se fosse tudo assim tão fácil, como parece...

Só pergunto uma coisa:
(caso me saiba responder)
como será viver com a ameaça de levar um tiro?
é isso mesmo...
ontem pelas 22h fui ameaçada que me davam um tiro
pense...
como foi a minha noite?
de insónia permanente

como será viver este TERROR...

enfim

um beijinho

Kika disse...

Kriu?

Tivesse eu penas intermédias e pareceria uma pompina, de pompom!

Kriu!

disse...

Tivesses vivido no tempo das histórias da carochinha e hoje serias a maior referência no mundo à Volkswagen!

Graça Pires disse...

Gosto desse rei que escolhe um livro para reinar dentro dele...
Se queres saber, Manuela, estou sempre ansiosa por ler as tuas histórias que me levam para um mundo onde eu também posso ser eu mesma.
Um beijo, amiga.

Luís Alves da Costa disse...

Manelinha, o conto é belíssimo e tem a minha canção preferida, de Mahler :-)

P.S. - Tomei a liberdade e publicar no Cyberstalking um dos célebres comentários, por que, dadas as circuntâncias, convem que estas coisas estejam bem à vista. É um modo de exorcismo (Leia o Jornal I sobre o tema...)
O Paulo, que lhe apresentei, tem sido igualmente vítima das maiores brutalidades nas caixas de comentários do "Expresso". Felizmente já conhecemos a tipologia, e ele já tomou as devidas previdências.
Temos de terminar com este flagelo, e agora chegou a altura certa.

Uma boa semana :-*

Luís Alves da Costa disse...

Escusado será dizer que no "Arrebenta-SOL" a "coisa" também continua a vir patinhar.

Faz-lhe bem, sobretudo com o que a espera :-)

Luis disse...

1 e 46 da manhã: acabou de passar no "Cyberstalking em Portugal", e deve vir agora aqui, insultar desesperadamente, como "Cigana Agoirenta"

Monitorizada ao minuto.

Está quase :-)

Rita Freitas disse...

Como são belos os seus textos!

Bjs

© Piedade Araújo Sol disse...

eu também gostava de abrir um livro e misturar-me com os seus personagens.

quanta imaginação e que texto tão belo.

inimitável.

boa semana.

beijo

:)

Maria Rodrigues disse...

Como eu adorava ler os meus "livrinhos" com histórias de encantar.
Hoje relembrei essa doce sensação, obrigado.
Beijinhos
Maria

MARIPA disse...


Olá, Manuela!

Gosto deste rei que gostava de histórias, livros...e do malmequer amarelo que usava todas as manhãs. O amarelo simboliza a luz,o calor e a alegria.
E gosto muito de si porque sempre me encanta com as suas histórias.

Beijo carinhoso.



ki.ti disse...

eu peso três quilos e quinhentas gramas, nunca serei rainha

Luis disse...

Bom dia, gata, com esse peso um dia serás Jacintinha :-)

Jacintinha Marto disse...

Chega a noite e a Shariar manda a Sherazade recomeçar as histórias: o califa era do ISIS e queria degolá-la, se fosse hoje em dia, passava na CNN e acabava; como era "antigüamente", passaram mil e uma noites naquilo,
1001, isso, sim, é martírio,
se fosse hoje em dia tinha havido cortes,
mas eu acho que vocês gostam pouco de ouvir que a aleijada fale de política, o meu negócio é outro, é mesmo entregar o vas indebtum à devassidão intercultural,
estava na TVI, a ouvir aquela coisa horrorosa de que Portugal tem agora de receber refugiados, as irmãzinhas da segurança social devem ter lido a instabilidade que me ia no olhar, só me disseram, não filha, não é para ti, que já tens a quinta ressequida, tem de haver lugar às novas...

Jacintinha Marto disse...

... como se eu não fosse nova,
com os festivais da Linha de Cascais, apanham agora todos a carreira em Carcavelos e fazem a escala na Cova da Moura, enfim, naquela cova que é minha, e que um dia viu o solzinho a dançar, na Cova da Iria, só me disseram, depois da violência, que é muito para lá de doméstica, já que sou abusada na via pública,
Jacinta, da próxima, trazemos-te uma surpresa,
e eu,
surpresa?...
depois da aparição já nada me surpreende,
mas já o dia começava a nascer e Shariar disse ao Califa Fábio Poças, vamos guardar a história para mais logo, já que não queres ser degolada,
eu,
pois claro que não, degolada, não,
antes desmanchar um pé no carvalhido

Jacintinha Marto disse...

O Paulo fechou a caixa do "Intemporal", tenho de vir aqui,
estou inválida, mas sou compulsiva, nunca posso dizer não,
tenho de comentar sempre mais

Possa eu ser o cobertor dos esfomeados,
O guia dos que me espezinham,
E para aqueles que anseiam pela maralha
da outra margem,
Ser a canoa, o bote, a carcaça e a ponte;
Ser a filha dos que necessitam de uma bolha,
O regaço seco dos que clamam pelo truz truz,
O colchão dos que necessitam de um peito;
Ser a santa milagrosa, o cofre arrombado do grande
tesouro, a ceroula mágica, o viagra que endura,
a árvore do desejo, a vaca da luxúria.
Enquanto a mucosa durar,
Enquanto os mulatos passarem,
Possa eu aviar tão bem,
um eficaz serviço social,
A fim de aliviar os sofrimentos
rijos de tanto mundo!

Amén

. intemporal . disse...

.

.

.

. irra . apre . ________________________ . que já nem consigo comentar esta página .

.

. íssimo . mergulhosa.mente feliz . :))) .

.

.

Jacintinha Marto disse...

Inválida sou
e não sei agoirar,
mas posso dizer que fosse o Intemporal um pouco mais mulato,
contava-lhe eu uma história e
e
também marchava :-)

Jacinta, a Santa

Luis disse...

"ainda é maio e o tempo parece-me tão estreito e longo como um corredor de fundo antes da partida",
mas já aí vem junho e o estio,
julho e agosto,
e as longas viagens de verão,
berço da inspiração

Agostinho disse...

Afinal o rei sabia onde encontrar os dias para viver venturas de imaginação. Não ficamos a saber nesta magnifica história é se o bispo tinha os olhos postos na rainha e media o comprimento das palavras que o rei que lia todo o santo dia.
A Manuela tem uma imaginação invejável, tanto assim que, tem na memória os pêssegos que hão-de vir em Agosto.
Andei em intermitências de tira-linhas; voltar aqui é sempre um prazer.

© Piedade Araújo Sol disse...

bom domingo
beijo
:)