aparentemente, a rã























Habitava o lago, a rã. Tinham-lhe inveja as cobras de água. Da água, das margens, do leito, dos seixos, dos piscos de peito ruivo que esvoaçavam em tontices por ali. E esta à tona, os olhos grandes, o corpo líquido e coaxava uma vez para que lhe respondesse aquela outra que vivia na superfície espelhada e era apenas o oposto de si. Troçavam-na os salgueiros e os nenúfares mais acostumados a sombras e reflexos. Como a luz a dissolver o verde da água e das folhas e dos insetos e dos pulmões e da pele da rã.
E nas noites quentes de junho partíamos à caça de sei lá o quê. Descalços, as lanternas nos bolsos, o riso quase a estalar. Picavam-nos os mosquitos e as melgas e o lago era a paisagem habitada pela lua cheia de verão.
Aparentemente a rã dormia.







ciclo verde lua






19 comentários:

Kika disse...

Kriu?

Maravilhosa escrita, minha amiga, Manuela. Um encantamento!
Beijo imenso.

Kriu!

disse...

A questão dos mosquitos não deixa de me incomodar...

Os desenhos estão muito bonitos, pelo que, presumo que tiveste que te deitar completamente no charco para conseguires desenhar perfeitamente a rã...

manuela baptista disse...

completamente,
ia apanhando com o metro em cima


o calor encharca-nos, Té :))

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



aparentemente, só aparentemente a rã dormia já que refletida coaxava

ou vice-versa, sei lá



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Junho de 2014

Olinda Melo disse...


Cara Manuela

Tudo o que escreve e descreve soa a verdadeiro. Consegue-se visualizar tudo, todo o ambiente, os seres que por ali pululam, as plantas, a água, e... a Rã, tão presente não só nas palavras como também no desenho,e no seu coaxar em busca do seu oposto. Ai os olhos dela! Vê-se perfeitamente que, aparentemente, ela dormia. :) Gostei muito.

Abraço

Olinda

Petrus Monte Real disse...

Manuela:

Gosto muito do texto e das imagens.

A rã, esse singular e disfarçado animal,
faz parte do meu imaginário infantil:
era uma fonte de diversão;
muito me contentava a "música" do coaxar colectivo
que ecoava nas noites de verão.
Creio que vão rareando
os sítios que, ainda hoje,
nos podem proporcionar esse espectáculo,
mas ainda os vai havendo.
Acho extraordinária a ilustração: os pequenos grandes olhos
combinam perfeitamente
com os intermitentes reflexos (do luar?).

Um abraço

Beatriz disse...

Lembrou-me a infância.....quando meu avô nos chamava para procurar rãs no pequeno lago que tinha se formado em seu quintal....
Bons tempos!
Grande abraço, Manuela
Bia

Rogerio G. V. Pereira disse...

História bela, parece uma tela... mas traz-me à mente
um passado recente, de um sapo sapudo
engolido
vivo
e tudo
e não está... adormecido

Graça Pires disse...

À revelia da memória, a minha, este seu conto trouxe-me enredos de fim de tarde quando as rãs só "aparentemente dormiam"...
Sei que a infância não volta, mas o que escreve e o que pinta conseguem devolver-me a inocência desse tempo...Bem haja.
Um beijo, Manuela

Agostinho disse...

Aparentemente!
A rã não dormia
apenas não pestanejava
perante a beleza de si.

. intemporal . disse...

.

.

. (re).encontrar o sentido e o dulcíssimo sabor de uma escrita genuína é tão simples como chegar aqui .

.

. simples a chegada . simples uma escrita assim . a qual só é possível . quando o seu autor é . por si só . uma Pessoa de dentro.para.fora . dotado d`um olhar presente . mas assente na distância de uma vida quase inteira . na lonjura dos equinócios . dentro.ou.fora dos seus tempos programados . e que a cada nascer do Sol se e.terniza . ou se imortaliza .

.

. é única . sabe disso . mas não sabe . :) .

.

.

. íssimo feliz .

.

.

Graça Pereira disse...

As rãs são donas dos lagos e dos charcos...por vezes poisam num nenúfar e namoram com a lua...saudades de as ouvir coaxar, espantando mosquitos e pedindo ao céu um pouco de chuva...
Um regresso ao passado através desta belíssima história...Bem hajas!
Hoje, vou sonhar com rãs...
Beijo
Graça

luís rodrigues coelho Coelho disse...

A passada semana uma rã veio visitar-nos.
Deu uns saltos e foi acomodar-se no fresco verde da relva, abrigada à sombra de um brinco de princesa.
Esperei que cantasse como nos charcos mas veio em silêncio e assim ficou.

© Piedade Araújo Sol disse...

aparentemente a rã dormia, mas só aparentemente porque pelo que li ela estava bem atenta ...

uma escrita sui-generis

beijo

:)

Rita Freitas disse...

Lindíssimo! Leva-me para um tempo de inocência e de natureza ainda virgem.

Adorei como sempre.

Beijinhos

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Aventura duma noite de Verão, à descoberta do coaxar das rãs.Que para azar dos aventureiros, afinal tinham decidido remeter-se ao silêncio. Talvez porque nessa noite já tivessem dito tudo o tinham para dizer...Que frustração!

Muito bonito, tal coma as rãs desta história.

Um abraço e boa semana.
Vitor

Mar Arável disse...

No seu lago

só aparente mente
as rãs dormem

assim fora nas margens

Bj

Isa Lisboa disse...

Dorme a rã ou o lago?
:)
Beijinhos

mz disse...



Nunca menosprezar uma rã!
E eu, descalça é que nunca.

;)