III - outro diferente do primeiro



- Quando partimos de um determinado lugar podemos regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro. O mesmo acontece com o tempo, daí a sua circularidade. Compreendes, Zê?
Esta era a voz de Aurora e os sapatos pretos não paravam e Zê abria os olhos imensos no reconhecimento distante de que ela teria decerto razão e quem era ele para questionar tal coisa. No entanto atreveu-se a caracterizar o que procurava, na esperança de que descrevendo a sua terra ela se materializasse mais cedo do que tarde e a passagem perdida fosse apenas a porta onde poderia bater.
E assim foi dando nome ao que lhe recordava o coração e dizia palavras como, pai, casa, árvore, água, framboesa, mergulho, cascata, verde, campo, norte, sul. Rolando, aos pulos, repetia-as, Aurora cantarolava-as, os sapatos batiam o ritmo. E aqui e ali surgia o verde de um campo, a árvore, a casa.
Nem sempre o caminho foi seguro e pelo que nos será dado saber, tiveram de enfrentar a terra escura, o vale das feras enjauladas, a gruta das incertezas e a cobradora de sonhos. Esta última, ao perceber que nem Zê, nem Aurora e muito menos o rato lhe cederiam o mais pequeno dos seus sonhos, levantou o gordo pé direito e pisou com força a cauda de Rolando e este guinchou.
Fugiram dela e dos largos sapatos forrados de pedaços de notas, correram, correram muito e o coração disparou com eles e só muitos quilómetros adiante descansaram deitados na erva, os olhos postos em Vénus que desvanecia. Nesse momento Aurora sentiu um pesado sono invadi-la e compreendeu que não lhe seria permitido continuar. A noite dá lugar à aurora, a madrugada ao dia, este ao entardecer, como o desânimo dará lugar à esperança, completando os círculos imensos que se ligam e desligam, como Zê se ligou a Rolando, como Aurora se ligou a ambos, até ao infinito.
Aurora bocejava, os sapatos aquietavam-se, as meias apagaram a luz aos pirilampos e a sua presença esbatia-se a cada respirar.
-E agora, – disse baixinho Zê, um soluço entalado na garganta – como é que faremos sem ti?
- Apenas têm de seguir o sol, tal como fazem os girassóis amarelos quase laranja – respondeu Aurora.
Depois enrolou-se, um pontinho suave debaixo de uma folha e o sol nasceu.
Rolando e Zê encontraram a passagem secreta que era uma porta mas também não o era, o campo dos girassóis amarelos estava um pouco mais além e os Leonardo receberam Rolando como se fosse um Zê.
O pai, o mergulho, a framboesa, a casa, a cascata, a árvore, o campo, o verde, o irmão, os pontos cardeais e a esperança, materializavam-se à medida que se reconheciam uns aos outros.
E porque quando partimos de um determinado lugar podemos regressar pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro, Rolando, com saudades das fatias de queijo da serra, despediu-se de Zê e voltou para casa.
Estranho, foram os girassóis a crescerem no empedrado que desenhava labirintos pretos, cinzentos, brancos sujos, numa esquadria desajeitada, tosca. E tornaram a rua sossegada menos triste.
terceira e última parte de O estranho caso de Leonardo Zê
em que as sementes de girassol há muito tinham empreendido a viagem de regresso


a cobradora de sonhos
o campo de girassóis amarelos quase laranja









Aurora, Rolando e Zê continuam a encontrar-se nas madrugadas de sábado
umas vezes convidam-me outras não

18 comentários:

. intemporal . disse...

.

.

. dia houve em que me apareceu também . a cobradora de sonhos . era inverno . estava frio . mas não chovia .

.

. apareceu para me cobrar todos os sonhos realizados ao mesmo tempo em que me prometeu também . cobrar.me todos os sonhos futuros .

.

. não teve sorte . porque os passados eram já porque sao pertença minha . e os futuros . vieram todos . sem exceção . e com tal intensidade . que ainda hoje não consigo ter juízo .

.

. :))) .

.

. íssimo . mais do que feliz . entre girassóis quase laranja .

.

.

Kika disse...

Kriu?

Onde é que eu já ouvi esta história das meias (quase) laranja?

Agora, as meias apagarem as luzes aos pirilampos... Andas naquela cena dos cogumelos, né? Tens 15 dias para os entregar, até porque, os pirilampos têm luz própria e não precisam dos candeeiros para nada!

Kriu!

disse...

Ide, ide, idem, os três, a conta que Deus fez! Ide para as vossas casas, que já me cansam tantas orelhas, do avesso...

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma história que nos deixa sem palavras. A construção de um sonho, de uma viagem ou de figuras dos nossos dias que nos habitam em cores e desenhos.

Maravilhosa arte de escrever.

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Ora vejamos:

Quando partimos de um determinado momento podemos regressar a ele pelo mesmo caminho ou por outro diferente do primeiro.

Podemos mesmo?

Circular ou espiralístico?

Estás a ver, Zê?

E assim viu!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Abril de 2013

Jacintinha Marto disse...

O esforço que a inválida faz, para vir aqui, só para ver nascer as flores, mas fez esforço, e veio ver :-)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Aurora, Rolando e Zé deixam-me
saudades...e gostei muito dos
caminhos que percorreram...e
podem sempre ressurgir sob
outra forma, sobre outras cores,
sobre outras palavras.
Tenha um bom fim de semana.
Bj.
Irene Alves

Isa Lisboa disse...

Vou ter saudades da Aurora...
Obrigada por estes mundos aonde me levas, Manuela! :)

Beijos

=> Instantâneos a preto e branco
=> Os dias em que olho o Mundo
=> Pense fora da caixa

tulipa disse...

como tem sido bom
aPRENder
a
apRECIar
a NatuREza

aQUI

entre girassóis quase laranja

Venho
aGRAdeCER
os votos
de
PARABÉNS

foi bom
receber
a sua
visita.
OBRIGADO

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

Comoveram-me as ilustrações, depois de ler a estória. Talvez uma reminiscência do Saint Exupery nas ilustrações do sonhado.

Um beijinho... com sabor e forma de girasol, Manuela...

ONG ALERTA disse...

Sonhos nos fazem viver, beijo Lisette.

ONG ALERTA disse...

Sonhar é poder viver, abraço Lisette.

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

Linda viagem pelo mundo dos sonhos, na procura do lugar onde fomos meninos. E aonde tantas vezes imaginamos que gostaríamos de voltar - e de novo ser felizes.

Abraço amigo, e bom restinho de Domingo soalheiro.
Vitor

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Tempos, caminhos e personagens que povoam o imaginário mágico de uma bela alma artista...
Puro encantamento!

Beijo, Manuela,
da Lúcia

Nilson Barcelli disse...

Magnífico, como sempre.
Beijinhos.

Beatriz disse...

Manuela

Sonhos são sempre bem vindos, independednte do caminho. Mas, por via das dúvidas, sempre escolho o "outro" caminho, o diferente. O caminho de sempre, apesar de seguro, é muito óbvio. Desbravar o diferente me faz buscar mais sonhos, e.......adoro sonhar!

Beijinho

Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

disse...

Agora, com o novo "Plano para o Crescimento", vou conseguir cheirar-te o pescoço sem ter de erguer as patas dianteiras!

E assim, fomentarei doses extra de ciumeira, na fedorenta assustadiça que chora baba e ranho, por duas razões, por tudo e por nada e de duas maneiras, a torto e a direito!

Mz disse...

Bolas, existe sempre alguém forrado a notas para nos roubar os sonhos!

Como a vida seria tão mais simples se a solução fosse apenas seguirmos o sol, tal como fazem os girassóis.

Adorei a as personagens, principalmente da Aurora com os seus sapatos pretos e as meias que apagam as luz aos pirilampos.
Uma bela forma de nos mostrar-nos o amanhecer.

Um
Abraço.