seria a flor da laranjeira que cobria a noite daquele odor adocicado o desejo ingénuo de bater com força uma porta qualquer da vida
um vaso quebrado na janela do primeiro andar o tejo ao fundo é este rio manso as gaivotas não sei onde dormem talvez na areia das praias dos pescadores
sargaço

Não sei porque escrevo assim, disse. E abriu as portadas da varanda. Na gaiola vazia a memória do canário que não cantava de tristeza e um dia voou e agora dá-lhe uma paz sabê-lo esvoaçar de pássaro.
O senhor do segundo direito tosse, espalha folhas de jornal sobre as telhas para que os gatos vadios saibam que aquele território é o seu. Dele, homem. Mais tarde irão com o vento que se levanta nos telhados de Lisboa, as letras das palavras escritas misturadas com as más notícias e cai o tê maiúsculo num banco da avenida, o zê escorrega pelo focinho de um cão. Os jornais são companheiros dos velhos e bronquites crónicas como o medo.
Os cacilheiros cheiravam a alcatrão e a outra banda era do outro lado, esse é um sentimento de segurança que não sentirão mais graças a deus.
As margens fixas fazem estalar as têmporas, é apenas um conceito, nem tem que ser demonstrado, basta acreditar nele e os olhos mudam.

espalham-se pelas ruas latas de cerveja urina e vomitado o grito escuro quem disse que é preciso ir longe para agarrar duas mãos
desdobra-se um nó na garganta antes do sol nascer cegos os anjos da guarda
minha companhia

Não sei porque é branca e azul a luz da minha cidade, disse. E viu no rio os golfinhos do tejo outra vez, enquanto um barco se afastava do cais. 
No vaso quebrado cresceram bem-me-queres de olhos de sol e bicos de lacre e agora dá-lhe uma paz saber-se escrever assim.



 





conto segundo da minha cidade antes da páscoa





34 comentários:

BRANCAMAR disse...

Um ramo de bem-me-queres com Boa Páscoa ao Fundo é o que lhe trago Manuela, neste Domingo de Ramos.

Beijos
Branca

Luís Coelho disse...

Um texto que nos encanta. As figuras parecem mover-se e tomar parte de toda a acção.


"No vaso quebrado cresceram bem-me-queres de olhos de sol e bicos de lacre e agora dá-lhe uma paz saber-se escrever assim."

É tudo encantador.
Boa Páscoa.

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


... e dá-lhe uma paz saber-se escrever assim ... é caso para isso, podes crer!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Março de 2012

Téréré disse...

Béu, béu!

As gaivotas atualmente nem dormem...:)

Escreves tão bem, tenho tanto orgulho em ti!

Béu, béu!

Fézada disse...

Auf!

Se fosses para a cozinha como és para os escritos, olha, eu seria o cão mais feliz do mundo...

Mas, não se pode ter tudo!

Auf!

Sam Seaborn disse...

“um vaso quebrado na janela do primeiro andar o tejo ao fundo é este rio manso as gaivotas não sei onde dormem talvez na areia das praias dos pescadores”
Uma escrita muito poética, muito leve e bela.

walter disse...

lambida a luz, as cores e os sons do conto,
fecham-se-me os olhos no ponto final,
o último

assim... respiro, ouço e vejo melhor, a cidade que vive dentro de mim

e penso: que paz Senhor, que paz...!


olá Manuela, se já é bela Lisboa, ainda mais fica, à proa do seu regaço

e do meu regaço, atiro-lhe uma flor e um abraço, mas em câmara lenta, que é para não machucar a flor nem os meus bracinhos, tá? :))))))))

Nandinho, o pequenito

Nilson Barcelli disse...

Os teus bem-me-queres são belíssimos. Pintas tão bem como escreves...
"As margens fixas fazem estalar as têmporas, é apenas um conceito, nem tem que ser demonstrado, basta acreditar nele e os olhos mudam."
Na verdade, há demasiadas margens fixas à volta da maioria de nós. Mas ainda não será a hora do rio saltar as suas margens...
Excelente texto, como sempre.
Manuela, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.

acácia rubra disse...

Como comentar?

Não quero sequer ouvir o teclado para que não se acabe a magia desta escrita.

Num quase silêncio, um

beijo

Sonhadora disse...

Minha querida

Como sempre saio daqui completamente rendida às tuas palavras...deixo uma pétala de rosa.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Linda Simões disse...

Sabes que sou tua fã.
Vai escrever bem assim lá em...
Lisboa!

Um abraço de carinho,

Linda Simões

AC disse...

Desfolhar as suas palavras é descobrir pequenos encantos, a boca a esboçar sorrisos daqueles que nos aquecem os dias...
Ah, Manuela, agora fico para aqui, de sorriso aberto, a mirar os golfinhos no Tejo através da janela que me entreabriu. Obrigado.

Beijo :)

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

Sabe a desencanto e saudade esta viagem por uma certa Lisboa.Que felizmente acaba com uma réstea de esperança, olhando o Tejo mais os golfinhos que já lá não moram.

Quanta imaginação!

Abraço amigo, e bom domingo de ramos.

Vitor

. intemporal . disse...

.

.

. [.14.] .

.

. penso saber porque escreve assim . talvez pelo facto de Deus . ao ter.Lhe concedido essa bênção . Lhe tivesse expandido também um desejo in.equívoco . o de derramar esse desejo de dádiva . pelas avenidas do mundo . para sempre exposta através de uma grandeza profunda .

.

. . _____________ . a Sua .

.

. íssimo . sempre feliz .

.

.

© Piedade Araújo Sol disse...

saber-se escrever assim é um dom.

um texto que transmite serenidade e paz.

é assim que saio daqui.

as imagens tão simples e belas.

uma boa Páscoa e um beij

Rogério Pereira disse...

"Na gaiola vazia a memória do canário que não cantava de tristeza e um dia voou e agora dá-lhe uma paz sabê-lo esvoaçar de pássaro."

Parei aqui, um bom bocado, antes de continuar a percorrer contigo este quadro da nossa Lisboa...

ana costa disse...

Olá Manuela, um pouco por acaso vim aqui parar e posso dizer que não me arrependo.
Gostei muito da sua escrita, ele é feita com alma, com sentimento, com emoção...
Parabéns, conto voltar mais vezes...
Um abraço

alegria de viver disse...

Querida amiga

Bendita seja por tão belos contos, e se Deus lhe concedeu esse dom, o merecimento é fruto do seu coração.
A reverência pelos animais é linda.

Com muito carinho e admiração BJS.

FELIZ PÁSCOA.

Rita Freitas disse...

Tornei-me fã dos seus contos.
Têm uma intensidade e uma magia que pacifica a alma...

Beijinhos

Eva Gonçalves disse...

E são tantas as histórias que ficaram por ler, que virei de surdina lê-las em segredo, prometo. Hoje comento apenas esta. Não é a minha cidade, é a tua, mas dá-me uma paz imensa lê-la assim... para além disso, faço minhas as palavras do Paulo!! Ah... e gostei do barquito também porque apesar de não vir há muito a este mágico cantinho, nunca te quis ver pelas costas!! :) Beijo e um ramo de bem-te-queros nesta Páscoa!

Graça Pereira disse...

Uma Lisboa que não tem craveiros à janela mas...malmequeres com olhos de sol e uma luz que dizem, das mais bonitas do mundo...
Ainda bem que o canário já não canta as suas tristezas, voa em liberdade, num esvoaçar que dá paz...como me dá a mim a tua história, a mim, que apanhei um "P" de um jornal que rodopiava pela cidade...
Roubei-te um malmequer para enfeitar a minha Páscoa mas, em troca, deixo-te um beijo.
Graça

Fernanda disse...

Esta é uma nova cidade, assim d.escrita tem o encantamento que nunca lhe encontrei.
Obrigada, Manuela.

Páscoa Feliz

Um beijo

Mar Arável disse...

Uma bela viagem pelos tempos

escrita limpa
com metáforas transparentes
à vista dos roazes
que já foram golfinhos

Mz disse...

E porque se escreve assim?

Soltam-se os pássaros e a liberdade assenta bem nesta cidade rio e luz.

Escolhem-se flores que dão frutos e flores que dão alegria ao olhar e perfumam...
Nem tudo é fétido, porque sabemos ver o belo.

Uma Santa Páscoa!
Beijo,

AnaMar (pseudónimo) disse...

a mim também me dá paz esse dom de saber-se escrever assim...
visitá-la é uma lufada de ar fresco, nesta Primavera descontente pela seca.

E como a li a escutar musica aqui fica, com um abraço de imensa gratidão pelo fascínio que nos (me ) proporciona...
Um abraço e Erik Satie - Gymnopédie No.1

http://youtu.be/S-Xm7s9eGxU

Menina no Sotão disse...

Há dias que esse post esta aqui aberto para que eu leia. Eu li. Uma. Duas. Três vezes e fui percebendo a cidade e seus elementos. Os contornos. As saudades. E tudo foi ficando para fora, da pele, da mente, da alma.
E agora volto a mim e digo "quero ser como os pássaros e ter um anjo da guarda chamado asas". rs

bacio

Silenciosamente ouvindo... disse...

Manuela, li no Facebook na página
do Alejandre que a Glorinha de
Lion faleceu. Estou profundamente
triste. Não sei se já sabia.
Alguém que ainda tinha muito para
dar à vida e aos amigos.
Beijinho para si.
Irene Alves

Inaie disse...

Desculpe a invasao no seu blog, mas soube pelo blog cantinho she, que a Glorinha de Lion faleceu. Fiquei arrasada e vim dividir com voce por que vi no blog dela suas palavras de carinho e amizade.

manuela baptista disse...

alguém escreverá nas estrelas

as pessoas com garra, ficam sempre connosco

Irene e Inaie, um abraço especial

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

Desta vez em "ronda pascal", para lhe desejar Boa Páscoa e Domingo bem passado, se possível com todas aquelas coisas saborosas da quadra...

Com um abraço amigo
Vitor

Fézada disse...

MANUELA BAPTISTA



Minha querida amiga,

Venho desejar-te uma boa Páscoa!

Muitos Beijinhos.



Fézada Zacarias de Oliveira Nunes
Cão-Deixa-a-Nova, 6 de Abril de 2012

Téréré disse...

BAPTISTA MANUELA



Desejo que passes toda a Santa Páscoa à janela!



João Téréré Ferreira Granizé
Esposende, 6 de Abril de 2012

Branca Mil-Homens disse...

E hoje, apesar de já se encontrar tão distante o Domingo de Ramos, volto, apenas com a jarra, pois os bem-me-queres, entretanto, já secaram todos.

Uma boa Páscoa, minha alma gémea do António Lobo Antunes, homem que tanto aprecio, desde o meu tempo de menina, tempo em que, no colégio de franciscanos onde estudava, me escondiam sistematicamente todas as Playgirls que eu comprava com o dinheiro da semanada, pois não queria engordar e já nem precisava...

Beijos
Branca

joaquimdocarmo disse...

Apesar de tudo, sempre será "branca e azul a luz da (minha) cidade" e, vasos quebrados verão florir "bem-me-queres"... Felizmente para nós, vamos podendo ler quem sabe escrever assim!
Beijinho, Manuela com votos de Feliz Páscoa!
jc