fio



Seleccionou, agrupou, dividiu pelos compartimentos, seis ao todo, limpou o pó à tampa e à base, verificou a segurança dos fechos, a firmeza da pega. Inspirou o cheiro a resina ao longe os pinheiros de um rei, a essência, a natureza das coisas, o que há de mais puro.
O saco no ombro direito, a caixa na mão esquerda, uma espreitadela nas horas e uma corrida até à estação como todos os dias.
O lugar ao lado do seu permanecia vago e ele pousou a caixa no assento, o saco entre as pernas. Depois distraiu-se, o movimento uniformemente acelerado, as conversas das raparigas, as extensões do cabelo a vulgaridade dos gritinhos nervosos, o mar agitado, a chuva na janela. Dormitou um pouco que foi tanto e na estação onde deveria sair, saiu.
O rapaz entrou, a mochila e as calças a cair, sentou-se no lugar vazio olhou para a caixa, pegou-lhe, abanou-a, cheirou-a. A miúda dos óculos do banco da frente ajoelhou-se virada para ele, a mãe disse -está quieta e continuou a cortar as unhas.
A miúda,
-Não abres, para ver o que tem?
Num impulso o rapaz fez-lhe uma careta, mas pensou na irmã mais nova tão desajeitada a ralharem-lhe por tudo e por nada, o olho direito ligeiramente estrábico, magra demais, pequena demais e disse
-Toma fica com ela!
Colocou-lhe a caixa nas mãos, pegou na mochila e mudou de carruagem.
A miúda virou-se para a frente, a caixa nos joelhos, a mãe perdida em revistas de famosos a copiar poses e dizeres: “fulana feliz com namorado novo faz plástica para endireitar a vida”.
Lá fora o bugio e uma carreirinha de ondas, clicam os fechos, levanta a tampa, a boca abre-se num O de espanto azul cobalto. A mãe dá um salto para o atraso da manhã, puxa a filha, entorta-lhe os óculos, diz, que disparate é este? atira a caixa para o banco da frente e arrepia o caminho que lhe parece estrelado mas não é.
O senhor da gravata às bolinhas apanha a caixa do chão, passeia os dedos entre o verde esmeralda e a siena queimada e franzindo a testa vermelho carmim, desabafa: há mulheres insuportáveis. Com os dedos sujos de tinta e no momento exacto em que o rio se acinzentava debaixo das pontes, o senhor passou a caixa a uma rapariga gorda verde alface, que por sua vez a transportou para a carruagem da frente e a entregou a uma senhora triste branco titânio.
Entre as chegadas e as partidas os tons de cada um misturaram-se e fluíram, tal como as manhãs entardecem e a noite é o princípio da perspectiva das sombras. Não interessa o número de pessoas que nos olham, importa sim a sua natureza.
No último comboio, o homem larga o saco, pousa a máquina fotográfica no banco vazio e vê a sua caixa perdida.
-És uma sobrevivente – exclama – e dando duas pancadinhas na tampa de madeira regressam a casa os três: o saco, a máquina fotográfica e o homem. A caixa das tintas fica.
Quando eu a abri foi isso que encontrei. O cheiro da resina, dos pinhais, a essência de terebintina. Verde esperança, uma pincelada de magenta.



óleos de mb







21 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Bravo, a ti e a quem te deu a caixa!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 5 de Novembro de 2011

Nilson Barcelli disse...

Mais um magnífico conto.
Continuas a encantar-me com a tua excelente narrativa.
Querida amiga Manuela, tem um bom fim de semana.
Um beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

e as voltas que a caixa deu...acho que sim!

é uma sobrevivente.

gostei muito.

um beij

AC disse...

Manuela,
O rapaz da caixa talvez ainda não saiba (ou sabe?) que, enquanto vai espalhando o verde esperança, ele vai adquirindo a cor do trigo maduro.

Beijo :)

Rogério Pereira disse...

Vamos repetir a viagem
Agora com uma garrafa
que tem dentro uma mensagem?

É que a beleza, a esperança e a imaginação, não têm dimensão....

Sonhadora disse...

Minha querida

Simplesmente FABULOSO este texto...quase estive no comboio...quase peguei a caixa e peguei o arco-íris que pintaste nesta tela.
Como sempre saio daqui tão pequenina perante o teu talento.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Téréré disse...

Béu, béu!

O Fézada já me avisou para não roer os fios... diz que fico com o pêlo como se tivesse feito uma permanente! E eu não gosto nada de caracóis...

Béu, béu!

walter disse...

depois de tantas mãos percorrer, de testar a sensibilidade em cada coração e as cores que ressaltam em cada olhar, a caixa por fim escolheu: as mais delicadas e hábeis de todas as mãos, o mais fundo e penetrante de todos os olhares, a mais viajante de todas as almas...

e com ela ficou!

muito belo o conto, Manuela!

um beijo

nandinho

Fézada disse...

Auf!

Eu também queria ter a caixa... Mas agora, ou tenho Médis, ou recorro às medicinas alternativas!

Auf!

Auf!

. intemporal . disse...

.

.

. "Não interessa o número de pessoas que nos olham, importa sim a sua natureza." .

.

. por.que é na natureza das pessoas singulares que reside a sua própria e pura natureza . ampla . inata e empírica .

.

. as restantes . as restantes não passam de olhares átonos . externos . sem morada subjacente ao corpo . e sem a marca d`alma há tanto por re.encontrar .

.

. por.que é da dádiva plena que nos aconchegam os significados das margens . e o leito ruma à foz onde a verdade é o caminho .

.

. o resto ? . o resto são pétalas de mal.me.quer .

.

.

. íssimo . sempre e para sempre feliz .

.

.

acácia rubra disse...

Assim, perante este texto, fico sem cor/palavra. Extasiada no "...O de espanto azul cobalto."

Agradeço ter podido ler este seu texto. Ainda há coisas muito belas...


Beijo

Linda Simões disse...

... E o verde da esperança se espalha

E acreditamos nas mudanças.


Com pinceladas de todas as cores,numa única nação...


Abração de saudade,

Linda Simões

alegria de viver disse...

Querida amiga

Este belo conto tem o fio que pretendo puxar para sempre.
Óleos maravilhosos, colírios para meus olhos.

Muito obrigada pelo carinho.


Linda semana cheia de alegrias BJS.

Graça Pereira disse...

As voltas que uma caixa cheia de tintas, tem de dar...para encontrar o seu destino...Como nós!!E vamos espalhando o verde da esperança, o azul cobalto da alegria, o esmeralda da fé, o vermelho carmim da felicidade... até que a caixa cheirando a resina dos pinheiros chegou às mãos de quem a cuidou!
Não importa o número de mãos por onde a caixa passou...importa sim, a alma de artista que a compreendeu!!
Beijo grande...a cheirar a tintas e a resina.

Graça

Luís Coelho disse...

Viagens e sonhos que se fazem no tempo e na carruagem de um qualquer comboio.

Uma leitura agradável.
O final é uma surpresa teimosamente estudada mas está maravilhosa.

Mar Arável disse...

As voltas que a vida dá

numa caixa de tintas

Belíssimo texro

ki.ti disse...

Uma greve de comboios até calhou bem à pobre da caixa!

fartinha de viajar, mortinha por chegar a casa.

Maria João disse...

Como uma caixa pode guardar, as cores com que se pinta a natureza daqueles que nos olham...

Um beijinho, Manuela

Lídia Borges disse...

"O cheiro da resina, dos pinhais, a essência de terebintina. Verde esperança, uma pincelada de magenta."
Tudo quanto basta para pintar uma,duas, muitas vidas...

Um beijo

Lídia

joaquimdocarmo disse...

Manuela
Admirável paleta de cores aqui nos desvela, tão variadas como a natureza das pessoas - os seus retratos desenhados com a perspicácia e acutilância que sempre extravasa os seus contos - nas voltas da vida!
Abraço
Quicas

Virgínia do Carmo disse...

Que bela pincelada a retocar as linhas da vida.

Gostei tanto.

Beijinho enorme, Manuela