santiago


Às vezes penso que deveríamos ser como as estrelas. Milhões de anos, a morte, gás e poeira e teimosamente continuar a emitir luz. Depois com esses mesmos elementos renasceríamos outros, mas iguais.
O meu pai deu-me este nome porque eu nasci branco de leite numa terra de gente morena, este é o teu caminho Santiago, sei que o disse e se não disse, imagino que sim. De pé atrás da grelha, o carvão no ponto certo, sem chama, com brasa, salgava os peixes, escalava douradas, borrifava-as com azeite e ervas, um molho de salsa na mão como se fosse um pincel, para dar gosto e abrir o sabor do mar. Um toldo amarelo, uma mesa corrida, bancos de madeira e todo o verão as pessoas chegavam, sentavam-se, barravam de manteiga o pão saloio, a crosta estaladiça, a salada mista com o pimento assado, o sal grosso e o pescado da madrugada, fresco, quase vivo. No final, o leite-creme da minha mãe, o açúcar queimado com um ferro em brasa. Não era um restaurante, não era uma tasca, não era uma taberna. Era o toldo à porta da nossa casa, a mesa corrida, a areia quase debaixo dos pés, eu a girar por ali com os pratos e os peixes, a sentir-me grande e as gorjetas pertenciam-me.
Nas noites quentes de lua nova em que o atlântico se confundia com o mediterrâneo assumindo o sufoco dos países do sul, era no terraço que dormíamos deitados nas esteiras, os olhos nas espiraladas galáxias e o meu pai que falava de peixes descobria-me as estrelas e eu era a pequena nuvem de Magalhães e ele a grande. Santiago o meu caminho. Éramos tão simples que doía e a felicidade não se discutia.
No inverno, a casa do monte onde a minha mãe nascera, era e seria sempre sua pertença, até que a morte nos separou. O pão e o leite-creme para um lado, os meus pais nas estrelas e eu nesta terra perto do mar, a girar por aqui sem os pratos e os peixes, a sentir-me grande como de facto já sou.
Foi num destes dias que o encontrei, absorto numa dor qualquer, no meio do que restava da casa do monte, o saco de viagem aos pés, o carro velho parado na estrada de terra batida, os olhos tristes de procurar caminhos.
Eu disse, era minha, esta casa! e ele, vende-ma? Ofereceu-me um montante ilusório e eu dei uma gargalhada que estraçalhou a tarde de riso. Foi a coisa mais louca que eu fiz na minha vida, mas também a que me deu mais prazer.
Metemos as mãos nos tijolos e nas pedras, no cimento, no estuque, nos ladrilhos e no algeroz. Eu chamo-lhe professor e ensinei-lhe todas as minhas artes, ele partilha comigo as suas.
Ele chama herbarium às montanhas de caixas carregadas de amostras de plantas, as legendas de cada espécie desenhadas numa caligrafia fina. Eu respondo-lhe, aquarium, é esta aldeia que o abrigou.
Essa fotografia que aí vêem, está desfocada no tempo. Era eu pasmado à procura das galáxias. Agora tenho barba, cabelo curto, o nariz queimado do sol e das brasas.
E não há quem me vença a escalar um peixe.


santiago de todos os tempos desenho a carvão de mb 





37 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Vamos, isso promete!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Setembro de 2011

joaquimdocarmo disse...

"As quatro estações de Santiago"... vou ler e... reler... até ficar "branco de leite numa terra de gente morena"!
Parabéns, Manuela! Belo, também o caminho!
Beijinho e bom fim de semana
Quicas

Rogério Pereira disse...

Ás vezes penso que um texto pode parecer o firmamento, que as palavras são estrelas e que as ideias transmitidas são o caminho formado por elas:

"Éramos tão simples que doía e a felicidade não se discutia."

Isto que escreveu é quase tão belo como o céu

Evanir disse...

Que a Paz e o Amor estejam sempre presente em sua vida Sinta o que você diz...
Com carinho! Diz o que você pensa. Com esperança! Pense no que você faz.
com fé! Faça o que você deve fazer. Com muito AMOR. Sabe..
Eu ganho força,coragem e confiança E me sinto Feliz Através de cada mensagem que
VOCÊ me envia Continue me abençoando com seu carinho OBRIGADA DE CORAÇÃO
Beijinhos com muito carinho.
Evanir

Luís Coelho disse...

Mais um texto e uma caminhada no tempo.
Apanhei as asas desse tempo e segui correndo numa terra de gente morena.

Uma leitura que nos transporta.

acácia rubra disse...

herbarium e aquarium misturam-se, completam-se.

Da conjugação natural, um belíssimo texto como sempre.

Bom fim de semana.

Beijo

. intemporal . disse...

.

.

. vem daí . santiago . vem de dentro do teu tempo . onde me a.dentro com o escopo de te mostrar um outro mar .

.

. o índico . a ti que sabes tão bem do atlântico mesmo quando insiste em ser outra vez a vez do mediterrâneo a acalorar os países do sul . mar interior situado entre terras de homens pungentes .

.

. no índico . as areias são de um açucar refinad.íssimo . os corais inventam barreiras transponíveis para a preciosidade de uma beleza estonteante . e ser.te.ão turquesa todas as estrelas onde [ainda] te revês e onde choras a saudade daqueles que amas .

.

. e que mais não são do que o sangue do teu sangue . a carne da tua carne . o espírito do teu espírito .

.

. em essência . progenitores de uma barba que ainda tens .

.

. vem comigo . santiago .

.

.

. íssimo . sempre e para sempre feliz .

.

.

walter disse...

a fotografia que aqui vejo, é a imagem tridimensional de um caminho galáctico, espiralado de emoções, sonhos, sensações, vivências, desejos...

Santiago,a pequena nuvem de Magalhães a ganhar relevo, a crescer no espaço e no tempo, alargando ainda mais o universo... o seu universo, concentrado num olhar infinitamente belo, tão belo quanto uma mesa corrida acotovelada de gente feliz, tão belo quanto um minúsculo grão de areia fina, que em si guarda as mais remotas lembranças do mundo


um beijo, Manuela!

Walter

Nilson Barcelli disse...

Foi sob toldos como o que descreves que comi do melhor peixe em toda a minha vida, no tempo em que a ASAE ainda não tinha sido inventada...
Mais um excelente conto. És imparável...
Querida amiga Manuela, tem um bom fim de semana.
Beijos.

António disse...

"Éramos tão simples que doía e a felicidade não se discutia."
Somos especialistas em complicar as coisas simples. Todos devíamos ser especialistas em partilhar.
Abraço.

Virgínia do Carmo disse...

Os caminhos do Santiago hão-de levá-lo longe, sempre.

Belo, como só podia ser.

Beijinhos, Manuela

Eva Gonçalves disse...

Todos temos caminhos por encontrar... entre os astros e entre os homens. E eu a girar nestas palavras, sem pratos e peixes, a sentir-me cativada, como de facto estou... :)Beijinho

antonio ganhão disse...

Somos do tamanho dos caminhos da nossa vida e perante isso as galáxias são apenas pequenos pontos de luz.

Graça Pereira disse...

Lá no sul, muito a sul...perdia-me pelo caminho de Santiago... e "éramos tão simples que doía e a felicidade não se discutia".
São tantos os caminhos por onde andamos...alguns, não sabem como chegar casa...Ah, se todos fossemos como estrelas!!
E entre estrelas me perco e volto ao caminho de Santiago...mas ao teu e daqui não consigo sair!!
Levo comigo a fotografia de Santiago para não me sentir tão só por entre tantas galáxias.

Beijo
Graça

Fézada disse...

Auf!

E a mim a cãomer um croquete?

Não há quem me cãovença!

Auf!

Auf!

Maltese Goat disse...

Mééé!

Santiago, bem mais do que tu sei eu e não me entrego a saudosismos.

No entanto, valeu a pena, pelo simples facto de te teres inspirado em mim.

Mééé!

Eliete disse...

Manuela, sempre que passo por aqui apremdo muito. Vou levar esta lição comigo. Ser como uma estrela.bjs

© Piedade Araújo Sol disse...

mais uma narrativa excelente.

estamos perante uma escritora de mão cheia.

um beij

AC disse...

Santiago, um herbário, um aquário, a respiração dos elementos...
Venha mais, Manuela!

Bjs

alegria de viver disse...

Querida amiga

Os desenhos estão lindos.

Comecei lendo e logo estava com muita fome, quanta coisa, pão manteiga de crosta estaladiça, salada mista, pescado fresco, e o leite-creme.
Ora para uma pessoa que não come carne como eu é o manjar dos Deuses.
Amiga, bendita sua iluminação.

Com muito carinho BJS.

Linda Simões disse...

Se eu fosse poeta ou escritora te faria mil reverências com a luz das estrelas que brilham em vários caminhos,desde o Brasil até Portugal...

E não sei dizer mais, do tanto que achei a história linda.


Vale um abraço,amiga. Um não,dois...


Beijinhos de muito carinho


Linda Simões

Beatriz disse...

Manuela

Estrela você já é, sempre renascendo em cada novo desenho, em cada novo verso. Assim é a vida dos poetas....não é?!!!
Beijinhos
Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

Mariazita disse...

Boa noite, Manuela
Posso parecer repetitiva, mas não me canso de dizer:
Adoro ler-te.
Consegues imprimir um ritmo e um encanto tal às tuas "histórias", que prendem a atenção do princípio ao fim.
Obrigada por mais esta excelente partilha.

Boa semana. Beijinhos

ONG ALERTA disse...

A cada palavra mágica que nos coloca, beijo Lisette.

AnaMar (pseudónimo) disse...

sim, como estrela que brilha, com esta escrita que me (pre)enche o peito, o olhar, as mãos vazias de mim.

passo pouco, mas quando venho, vou mais rica, mais forte.

sou. quando leio, absorvo e entro neste caminho que sei me leva ás estelas. onde já estou tantas vezs, mas agora mais, no tempo em que construia herbários e os aquários eram refugio.

sim, escritora, contadora de histórias, crei haver por aí, alguns livros que preciso de ter (ao contrário do neto do bibliotecário:-) tenho que possuir todos os livros. mesmo os que já li.)

Como posso obter os seus?
Um beijo de gratidão pelo tanto que me dá. mesmo que o não saiba.

manuela baptista disse...

Anamar

grata, pelo seu comentário!

eu sou como o neto do bibliotecário, os meus livros estão todos na minha cabeça e no meu coração

e se tiver paciência, nas folhas virtuais deste blog e nalgumas outras, muito especiais, do intemporal

é só andar por aí

um beijo

manuela

Fézada disse...

Auf!

Este "Santiago" tem pinta de ser irmão do "Malaquias" ou até namorado, ou marido, sei lá.

Auf!

Auf!

Maltese Goat disse...

Mééé!

Fézada, canito!

Não és lindo como eu, mas dá cá um abraço, ó rafeirote!

Mééé!

luís filipe pereira disse...

Um texto belíssimo, cerzido,
com a minúcia de Penélope, adentrando-se por caminhos, e de todos os mais fundos: os interiores, e riscando o firmamento de uma procura ínfindável.

grato pela partilha,

filipe

Glorinha L de Lion disse...

Manuela, minha querida, não há ninguém como tu nesta arte de encantar-me com tuas estórias das quais posso sentir o cheiro daqui...cheiro de mar, peixes e brasa...que enchem-me a boca e a alma de perfumados sabores e encantamentos, beijos, minha linda,

Fernanda disse...

Manuela, fiquei sem fôlego, sem palavras ... a alma tão cheia que acho que vou reler mais uma vez e talvez mais outra, de possível, até saber o texto de cor.
Quem me dera pelo menos disso ser capaz.

Não refiro nenhuma passagem em particular, fascinaste-me do princípio ao fim com este conto do Santiago que nasceu branco numa terra de gente morena e que escala peixe como ninguém.
Vou embora com a cabeça nas estrelas, "pasmada à procura das galáxias".

Gostava de ter os teus livros.
Beijo

Mel de Carvalho disse...

Manuela,

em Santiago e no seu olhar, se cruzam, peregrinos, todos os saberes e os caminhos dos dias grandes.

e eu, vinda do sul, das estevas e do sol encarniçado de um setembro quase outono, ainda sinto, meu, o olhar que, sendo seu, me (acon)chega com Santiago.

e abraço-o, grata.

beijinho, Manuela
bem-haja.

Ana Martins disse...

Manuela, boa noite!
Hoje passei por cá, com o intuito de me embrenhar na leitura e deixar-me levar pelo encanto do seus textos. Saio imaginando o brilho e a grandeza das galáxias, e levo comigo a beleza do conto.

Beijinho,
Ana Martins

Fernanda disse...

Manuela!

Faltava-me a palavra certa para o espanto da não publicação de qualquer livro para cá voltar.
Assim mesmo, de rajada ... não posso acreditar!
Então quem escreve? quem publica?
Será que já fez alguma coisa nesse sentido?

Posso dizer-lhe que há verbas nas autarquias para promover a cultura e particularmente a divulgação dos autores locais. Se tem um bom número de textos, experimente levá-los ao Gabinete de Cultura da sua Câmara.

Faça-me o favor de não esperar mais.
Quero ver os seus livros espalhados por aí.

Beijinho

manuela baptista disse...



agradeço a sugestão

não fique triste, porque eu não estou

em último caso, vou por aí fora e espalho as minhas folhas até ao norte em dia de ventania!

seria bonito, não acha?

um beijo

manuela

Maria João disse...

Leio nos caminhos de Santiago, a nervura das folhas que bebem da transparência das águas, a promessa dos oceanos. Das estrelas, guardo cada uma das pontas brilhantes e peço-lhes que me guiem por entre as ervas.
E na sua escrita, Manuela, aprendo tudo o que nunca ninguém me disse assim...

Um beijinho

BRANCAMAR disse...

Deslumbrante o personagem Santiago e a sua emocionante vida. "Caminhos de Santiago" são realmente os seus, em busca da estrela perdida, de uma infância onde "Éramos tão simples que doía e a felicidade não se discutia...", mas se calhar existia nos afectos que perduraram nas lembranças.

Só não falo do leite-creme queimado, porque sei de um ponto em que o açucar faz um caramelo líquido, capaz de lhe dar um gosto a "vinho do Porto", :), adoro, memórias que tenho em comum com Santiago.

Belíssimo!

E agora que pus a leitura em dia e me apaixonei pela história volto amanhã para continuar.

Parabéns Manuela.
Beijos