as raízes de sara


- É aqui que vieste parar, a este fim de coisa nenhuma? - lançou-lhe,  como um insulto, o fim, a coisa nenhuma, o olhar que o desafiava e ela, ora num pé ora no outro, desengonçada, magríssima nos calções sem bainhas, esfiapados, a t-shirt impecável, quem diria a mochila, a viagem, o pó da estrada. O cabelo de veludo castanho-escuro sedoso deslizava como uma cortina obstinada, escondia-lhe o rosto como quem deseja esconder o sol.
E depois,
- Posso ficar contigo uns tempos? - a voz não treme, a cabeça ligeiramente inclinada e acrescenta – a mãe sabe, é-lhe indiferente.
Na cabeça dele ficou a ecoar, indiferente, a indiferença é a pior das diferenças. Quis dizer, e a faculdade? mas calou-se, tímido. Estendeu-lhe a mão, ela encolheu-se.
Era a mais nova dos seus três filhos, apanhada no turbilhão dos sentimentos e das confusões dos adultos, parecia ter crescido mais depressa do que os irmãos, parecia independente, parecia terem-se esquecido de lhe dar mimos, calada como ele, inteligente, bonita, como a mãe. Tinha escolhido viver com ela, com a mãe, na incerteza de que não se escolhe nada, coisa nenhuma, este fim, viemos aqui parar os dois.
Ele contou-lhe da casa, das uvas da parreira maduras em setembro, dos trabalhos que continuava a fazer, da calma da aldeia, da sua paz. Fizeram a cama de lavado e ela balbuciou, cheiram bem estes lençóis, é alfazema, respondeu, este quarto é minúsculo, a água quente é quase fria, resmungou ela. Deixou-a só, com a cómoda, a cama, o sofá pequeno em frente à janela, o mar lá em baixo, o indispensável para perceber as pinceladas vermelhas do entardecer.  
Comeram ovos estrelados com espargos verdes e a gema nos dois pratos ficou para o fim, um olho redondo, bem definido, até que o pão mergulhou no amarelo-laranja e ela fez, hum, tão bom! e não disse mais nada.
Foi ficando, sem perguntas e ainda menos respostas. Trazia sempre consigo um bloco de papel A5 e desenhava raízes. Subterrâneas como ela, aquáticas como o pai. Aéreas, sugadoras, grampiformes como a mãe. Fasciculadas, os irmãos. Terrível quem se deixa julgar.
Quando Santiago aparecia para conversar ela ia-se embora, dizia-lhe, cheiras a mar, o teu reino é dos peixes. Mas riam-se e ela sabia que as raízes daquele homem-peixe não as saberia desenhar.
Ele habituou-se à sua presença, aos jantares partilhados, ao quarto habitado, às camisolas espalhadas pela casa porque o tempo esfriava, aos risos emprestados por Santiago dos peixes, aos cabelos compridos que lhe entupiam o ralo da banheira, aos blocos A 5, aos olhos que já não fugiam para outro lugar.
Algumas luas depois falaram das diferenças. De quem abandona e de quem julga ser abandonado, de quem fica e de quem se vai embora com o coração apertado, do encantatório nada às variações de um tempo.
O cabelo de veludo castanho-escuro deslizou.
Ela disse,
- Pai.  


raízes carvões de mb







30 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Por cada personagem que entra em cena é uma planta de tonalidades maravilhosas que ao herbarium lhe acrescentas ...!

Boas vindas ao Outono!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Setembro de 2011

Luís Coelho disse...

Vidas diferentes, raízes e sementes
espalhadas a pincel do escritor.
Conversas e letras, apontamentos em A5 sem perguntas nem respostas...
Gostei de ler.
Fiquei a sonhar...
Apeteceu-me descobrir mais sementes nessas casas minúsculas onde mora a paz.
Apeteceu-me saber, mas fiquei a pensar.....na janela onde se via o mar...nos calções esfiapados...

Desejo bom fim de semana.

AC disse...

Manuela,
Há formas de tecer a vida que não têm nada a ver com as séries americanas. Felizmente.

Beijo :)

. intemporal . disse...

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. "a indiferença é a pior das diferenças" . e pode fazer toda a diferença . não julgo . não me julgo . a.penas me ar.rasto . ou a.penas me afasto . ou sigo o teu rasto .

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. deste não.lugar . onde estou como quem não quer.estar . raízes de um tempo comum . seguido à risca por uma gota d`água . fingida arisca como quem se julga à tona . da raiz que desenhou tingida mas soterrada .

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. íssimo . deste.lugar . onde o só o tempo é raiz .

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walter disse...

"Posso ficar contigo uns tempos?"

seja o tempo que for... a pouco e pouco, as raízes adormecidas no fundo do mar, surgirão vivas na crista das altas vagas, que nem peixes voadores, entontecidos pela luz de um céu outonal...

e nada mais será como dantes...

talvez Sara um dia seja recordada, como a menina-peixe, talvez...quem sabe!?


um beijo, Manuela!

Walter

Fernanda disse...

Sara, nome de menina só... que finalmente encontra, por tempo indefinido, sem contrato assinado, ou acordo pré-estabelecido, o sabor da palavra pai.

Belíssimo, Manuela, a menina que sempre carrega cadernos de A5.

Beijinho

© Piedade Araújo Sol disse...

fim de coisa nenhuma ou o principio de todas as coisas.

como não gostar destes personagens com a delicadeza nas palavras dedilhadas com mãos e dedos de fada da escrita.

posso ficar Pai?

um beij Manela

obrigada!

Fézada disse...

Auf!

Esta Sara se fosse como eu... Agradeceria os croquetes como quem agradece o ar que respira.

Auf!

Maltese Goat disse...

Mééé!

Pais há muitos! Mãe há só uma! E mama, a minha, as minhas, são tantas!

Mééé!

Malu disse...

Manuela, gosto da forma como edifica cada linha de suas histórias.
No final são castelos a nos mostrar suas diferentes torres e em cada uma delas personagens que se eternizam...
Abraços, sempre.

Beatriz disse...

Muito bem costurado este conto, como sempre! A indiferença é uma triste verdade....e, poucas vezes, necessária.
Beijinhos e um ótimo domingo!!!
Bia
www.biaviagemambiental.blogspot.com

joaquimdocarmo disse...

Manuela
Que bela história de amor, com raízes no mar e cheiro a alfazema, tecendo vidas que não cabem em folhas A5...
Pai! O "fim" ou o começo?!
Beijinho
Quicas

Linda Simões disse...

Manuela,

Querida amiga!

Tu és mestra em histórias que nos fazem refletir.E sempre tiramos lições que nos acompanham...

Saudade...

Beijinhos que são dois


Linda Simões

Evanir disse...

A vida é magia e encanto.. é preciso preservar a beleza dos nossos corações.
Saber olhar com pureza de alma respirar como se nascêssemos a cada instante!
A felicidade e a Magia é algo, que entra em nossas vidas, com total explêndor.
Um feliz e abençoado Domingo
Bjs com eterno carinho.
Evanir

Nilson Barcelli disse...

Belíssimo texto, como sempre.
Querida amiga Manuela, tem um bom resto de domingo e boa semana.
Beijos.

António disse...

Manuela,
Hoje é-me difícil deixar aqui algumas palavras. As da sua história marcam.
Bjs.

Eva Gonçalves disse...

Hoje comovi-me mais do que o costume... Linda esta história. Tão diferentes que são as perspectivas de quem parte e de quem fica... de quem julga ou se sente abandonado e de quem é forçado a partir... mas a vida permite estes (re)encontros entre pai e filha...(ou filho e mãe...) e nas folhas A5, cabem sempre raízes... :)Beijinho e boa semana!

alegria de viver disse...

Querida amiga

Sua historia de vida tem um encantamento, sempre digo que fico hipnotizada.
Fincou as raízes com tanto amor.

Amiga tenha uma linda semana BJS.

Maria João disse...

Dentro das raízes, até os silêncios sabem do tempo de se aprender a não julgar nem a sentir-se julgado. Basta tão pouco e, no entanto, o olhar prende-se tantas vezes, no meio das redes dessa indiferença que diferencia um mar possível para navegar.

Também é do tamanho A5 o bloco que me acompanha e dele escorrem linhas, como caules aprumados das minhas raízes.

Um beijinho, Manuela

Graça Pereira disse...

A indiferença, é a pior das diferenças...e dói! Há encontros ou reencontros que vamos buscar às nossas raízes... e não nos deixam soçobrar! Posso ficar contigo uns tempos?
Sabe bem dormir numa cama de lavado com cheiro a alfazema e aquece ainda mais o coração dizer baixinho: Pai!
De certeza que escreveu muitas vezes esta palavra , no seu bloco A5, entrelaçada com os desenhos das suas raízes. Afinal não era ele a sua raíz principal?
Comovi-me com esta história,Manuela!
Beijo
Graça

BRANCAMAR disse...

Encantada com o seguimento da história, afinal não deixei para amanhã esta última página e o entusiasmo foi maior ainda.

Preciso de silêncio para me concentrar, é algo que ando a treinar e tinha perdido temporáriamente, por razões várias e a concentração nas raízes de Sara levaram-me a mundos que pretendo descobrir...
Cada vida um mundo diferente, ninguém é igual a ninguém, tal como as personagens tão ricas que aqui nos traçou.
E a palavra

-Pai.

dita assim, soa mágica.

Muito rica esta história Manuela!

Beijos
Branca

Linda Simões disse...

Cada personagem, cada minúcia no conto,cada linha nos leva para lugares distantes e tão perto...

São desenhos, são paisagens,são lugares...

Obrigada ,amiga.

Dois beijinhos

Eita!

Graça Pires disse...

Uma histórias com raízes de amor como se fora a única coisa que importa...
Mais uma vez me emocionei com as tuas palavras. Obrigada.
Um beijo, Manuel

Lídia Borges disse...

Histórias que prendem como raízes, pelo que contêm de realidade num universo da ficcional.

Obrigada

L.B.

Maltese Goat disse...

Mééé!

O teu conto comparado com as palavras da "Djanira" vale "rien"!

Mééé!

Virgínia do Carmo disse...

É mesmo tão difícil perceber quem abandona e quem é abandonado. É que nas linhas da vida nem se chega a perceber, tantas vezes, quem anda sobre elas ou sob elas.
E depois nasce esta nostalgia. Que a Manuela escreve e desenha tão bem. E que nos sublima qualquer coisa cá dentro.

Um beijinho, Manuela.

Fézada disse...

Auf!

Vamos cantar a Djanira
Vamos cantar as Djanêras
Por esses portais adentro vamos
Às raparigas soltêras

Auf!

ki.ti disse...

Já é Natal?

é só gambiarras...

Poetesa Ferreira disse...

gosto. muito. muito.



derretidaaaa.


gaita. gaita.





pf.

manuela baptista disse...

enraizadamente

agradeço