ou ao fim da tarde


A chave, deixo-a no terceiro degrau do segundo patamar da escada,  exactamente onde o mármore quebrou e construiu um nicho apenas visível para os seres rastejantes ou para os conhecedores de segredos. Não é sequer preciso disfarçar se por um acaso, algum vizinho te disser “bom dia!” e tu inocentemente envergonhado trocares os bês pelos vês e deixares cair a chave e a lagartixa e a caneta e o bloco de desenhar as praças da cidade.
Eles sabem que é ali que eu a escondo, pois o mais seguro lugar é aquele que todos conhecem e a curiosidade e o desejo de distância constroem-se de uma outra forma.
Abre então as janelas para o sol nascente, sopra as cortinas, espalha pela casa o cheiro a café e só depois de ela te reconhecer os passos, inicia a tarefa de contar os vasos. Os maiores não me têm causado problemas, numa modorra contemplação do Tejo, deslocam-se apenas à passagem dos cacilheiros que tão pouco já nem são cacilheiros, mas se vão para Cacilhas sê-lo-ão ternamente para mim. Os mais pequenos, pelo contrário, desaparecem nas noites de lua nova, mas peço-te que os procures pelos telhados e nas mansardas e os chames de volta aos parapeitos e às varandas. A lista com os nomes está na porta do frigorífico.
As violetas apodrecem se a água for excessiva, deita-a no prato, espera trinta minutos e escorre a que ainda resta.
Os malmequeres são os bem-amados e basta muito sol nos dias quentes para lhes queimar as pontas dos ramos. Se isso acontecer, rega-os abundantemente e explica-lhes porque são as suas flores compostas. Verás como se reconstituem.
Os jarros são como eu, aquáticos, não causam problemas.
As plantas mais jovens, as da floreira baixa, são regadas todos os dias de manhãzinha ou ao fim da tarde e as túlipas amarelas se te apanharem a jeito, falar-te-ão de bolbos e de baixas temperaturas.
Os melros e os pardais gostam de pedaços de pão sem manteiga que deverás esfarelar no canto direito da varanda, juntamente com este bilhete que aqui te deixo. De outra forma, debicarão todas as plantas e o teu trabalho terá sido em vão.
É este o momento em que deves colocar um solo de saxofone, talvez piano ao fundo ou ao contrário como desejares e lembra-te de mim.
Não te apresses, o Verão ainda agora começou e eu não sei se estou de férias ou não estou e saudades teremos sempre dos dias que ainda não vivemos, mas se preciso for, mudamos as praças desta cidade e os desenhos que tu e eu fazemos delas. Damos outro nome aos poemas, mandamos, às urtigas, não! que são verdes e ainda as terás que molhar, para a outra curva do rio, os detentores das verdades e das palavras bafientas, tediosas, fastientas. 
Rega-me as flores por favor e esconde a chave onde toda a gente a veja.




"flores a solo"  óleo sobre cartolina preta de mb







27 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


... tu não sabes e eu também não sei se estou de férias mas, regadas as magníficas flores dá-te a ver melhor no teu lindo auto-retrato do perfil para que melhor te escondas ...

... bravo!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 26 de Julho de 2011

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Para além de conhecer as plantas, os pássaros, de não saber se está ou não de férias e é tão bom não saber isso, andar apenas ao sabor das coisas que gostamos e "mandar...para a outra curva do rio, os detentores das verdades e das palavras bafientas, tediosas, fastientas." eu ajudo, pergunto ainda:

Agora que também nos mostrou o lado de retratista (auto-retratista), com o que é que nos vai surpreender mais?

Sabe fazer scones? Vou já a correr. :))

Beijos
Branca

Jaime Latino Ferreira disse...

BRANCAMAR


Querida Amiga,

Scones sabe a Manela fazer e bem mas, se correr, não tropece!

Beijinhos


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 27 de Julho de 2011

walter disse...

o quê vai de férias?
e este recado emoldurado de malmequeres é para mim?

pode confiar, tratarei de tudo tal qual me pede, sabe o quanto sou rigoroso e dedicado, sou o mais fiel dos jardineiros e bués de responsável... já nasci com estes predicados todos!

vá descansada, tratarei de dar pão esfarelado aos malmequeres do terceiro andar, e os melros são para regar mas só à noitinha não é? e as lagartixas são para por no frigorífico por causa do calor excessivo... penso que é isso! o que é que eu tenho mesmo que fazer com as túlipas para elas não me chamarem de bobo? bem o melhor é não lhe dizer nada...já percebi que é para não lhe dar trela...
as violetas é deitar-lhe água até mais não, e os jarros são para as regar... olhe um dia ainda lhe ofereço um regador, tem é que ser da loja dos trezentos, têm menos buracos mas regam na mesma...
ah as cortinas, já não gosta delas? ok eu despacho-as e tranco bem todas as janelas...
ok tudo bem até agora, mas, essa de ter que subir ao telhado e chamar os vizinhos para me ouvirem a tocar saxofone é que me está a lixar... nunca tive jeitinho nenhum para instrumentos de corda... pífaro vá que não vá, pode ser?
e pronto, depois faço o café, mas é só para cheirarem do lado de fora não é? acho que faz muito bem, o café tá caro, o cheirinho chega muito bem!
e pronto, ao fim do dia mando a chave às urtigas e tá feito!

já agora, depois telefone-me para me dizer a que horas chega o seu cacilheiro... eu quero ir esperá-la e sempre quero ver se me traz uma prendinha... acho que mereço!

ps: não precisava contar os vasos, ninguém os vai roubar... estão todos armadilhados... eu cá sou d'olhão! hihihi


:))))))))

Manuela, olhe o que você faz à minha cabecinha!?


um beijinho muito grande!

Walter

Rogério Pereira disse...

Farei como me mandas,
decorei bem o teu recado...
Só não sei
se assim tão bem
das flores
tratarei
ou se ficarei, olhando o Tejo, embasbacado

Regressa
depressa

Linda Simões disse...

Manuela querida

Gosto tanto, tanto,tanto de flores!

Amei!

Vale um abraço,daqueles apertados,de saudade!


Linda Simões

antonio ganhão disse...

Cuidemos sempre das nossas plantas, nas nossas ausência, mas sobretudo quando estamos presentes...

OutrosEncantos disse...

... é também pela manhãzinha ou principio da noite, por vezes de madrugada, que rego as minhas flores, lembrei-me de ti e passei por aqui para ver se as ruas já estavam com sede... :))

bom dia, Manuela!
ler-te é um conforto imenso.
beijo, até logo!

OutrosEncantos disse...

... queria dizer: se as tuas estavam com sede :)...

AFRICA EM POESIA disse...

Dia das avós é dia de Amor...

e foi mesmo,Ontem, Hoje e será também Amanhã...




Hoje é dias dos avós.
Mas... amanhã...
Depois de amanhã...
E sempre...
É dia dos avós...
... Do mimo...
... Da ternura...
... Do carinho...
... Do estar...
... E de poder transmitir...
... A força...
... E a confiança...

Eu sou avó...
Todos os dias...
E é tão bom...
Poder sentir...
Essa confiança!...

LILI LARANJO

manuela baptista disse...

Lili Laranjo

não há há como esta querida avó, para passar por cima dos meus textos!!

agradecida pela contínua distracção!

mas dias são todos os meus e só espero que os netos, quando os tiver,

sejam atentos como eu

manuela

Graça Pereira disse...

Meu Deus, como tudo se altera quando se vai (ou não) de férias...
Mas as recomendações são preciosas e penso que já muita gente anotou nas suas agendas...eu apontei logo"eles sabem que é ali que eu a escondo, pois o mais seguro lugar é aquele que todos conhecem" Nunca tinha pensado nisto!
Não me esquecerei de regar as flores e nem de esconder os detentores das verdades e das palavras bafientas, mas...por favor volta depressa porque senão terei saudades dos dias que ainda não vivemos.
Beijo
Graça

Evanir disse...

Muitas vezes não temos muito a oferecer,
ou repartir,mas enquanto existir palavras
que tragam de volta a esperança perdida nas longas
dificuldades da vida,
elas valerão mais do que do qualquer dinheiro ou bem material,
porque renovam a vontade de lutar
até encontrar soluções para nossos problemas.
Algumas palavras, nos momentos certos trazem de volta,
a vontade de viver e tem o poder de transformar
quem está quase desistindo.
Um beijo no coração para sempre sua amiga,Evanir.
Você é muito especial para mim..

Glorinha L de Lion disse...

Manuela, minha querida, e ainda me agradeces por te ler com paciência? Uma parva seria eu se não a lesse...me encantas, já te disse tantas vezes...acho que vou te mandar um bilhete para que pregues na tua geladeira dizendo: Glorinha ama os escritos e os desenho de Manuela. Só para o caso de esqueceres...rsrs boas férias!

Luís Coelho disse...

Mais um texto para levar de férias.
Cuidado com as plantas. Este verão está diferente e com um pouco mais de sol elas morrerão sem direito a regresso.

Seguirei o conselho e guardarei a chave onde toda a gente veja. Nem preciso de contar o terceiro degrau do segundo patamar.

Cá em casa é assim que fazemos. Bem à frente da casota do cão, talvez olhem primeiro para o cão e se esqueçam da chave...........

Mel de Carvalho disse...

E não que, Manuela, se me tivesse dado a lista eu a teria passado ao meu (in)fiel jardineiro-tratador de cães-guardador-de-lagartixas-amolador-de-facas-espantador-de-andorinhas, vulgo vizinho do quarteirão abaixo, e não teria, no último ano, tido o desgosto de ver mortas as violetas-africanas, os fetos imperiais e os tapetes de corda da soleira da porta?
no principio de que o mais é melhor e dos vasos-comunicantes nivelou a casa com o tejo, peripécia algo incomum porque a primeira está a uma cota até alta... o resto imagina.
quanto às chaves, essas ficam presas nas cortinas que fica armadilhada com garras de gata para afugentar os ratos que dançam nos ferros enferrujados das escadas ao som da concertina dos bailes de aldeia que já não se fazem... está tudo no seguro, e os ursos residentes nos canos fazem o resto, em especial porque por aqui tudo é como os ditos, para além de velho :)

Beijos, amiga. Adorei.
Mel

Maria João disse...

Regarei as flores, sim. Talvez seja essa a única coisa que faço bem.
E se não me esquecer da chave, perdida no bolso da minha algibeira, será nesse lugar seguro que a guardarei, mesmo que à sua volta cresçam as urtigas que, sendo verdes, são bonitas também.
O verão... estando de férias ou não, será sempre mais quente e belo se deixarmos que o olhar, desenhe um novo rumo no trajecto previsível dos cacilheiros.


Singular e magnífico, como sempre, Manuela!

Um beijinho

. intemporal . disse...

.

.

. os afectos . re.distribui.os equitativa.mente .

.

. por.que não há justiça mayor do que a da equidade .

.

. sem os afectos . os céus serão apenas tectos . e o Sol pousará os seus raios.furtados muito antes que seja dia .

.

. por ora . irei resgatar as palavras subtraídas fraudulenta.mente . aos donos sem activos . que carregam o ónus das falsas afirmações .

.

. ou da posse por conveniência . fora d`horas .

.

. por.que para todos é o que é de todos . e a responsabilidade é a idade muito antes ainda do tempo passar .

.

.

.

.

. íssimo . sempre feliz .

.

.

alegria de viver disse...

Olá querida amiga

É sempre uma alegria passar aqui, onde tudo tem cheiro de flores doces, e, gosto de quero mais.

Sonho com o dia de lhe conhecer pessoalmente, para cumprimentar e agradecer tão belos textos.

Com muito carinho BJS.

Dulce AC disse...

Manuela no melhor que a vida nos dá quantas vezes fundimo-nos enquanto pessoas que se dão em sentimentos de ternura numa sintonia tão perfeita..

Por aqui é assim a vida..
Que bom é sempre vir até si..!

Obrigada.
Beijinho grande, amigo.

dulce

manuela baptista disse...

Dulce, olá!!

sem fb, eu

sem blog, a Dulce

é aqui que lhe dou um abraço!

manuela

Lídia Borges disse...

Gosto tanto deste quotidiano iluminado de alguns poetas, do seu olhar minucioso sobre as coisas. Sim, porque das flores e das suas "manias", sabe só quem as ama e para amar é preciso conhecer.

Quando saio também deixo a chave atrás do vaso para que, de quando em vez, venham acarinhar a casa e falar às plantas. O regresso é sempre um doce momento de reencontro.

Um beijo

ju rigoni disse...

Oh, sim! Chaves à mostra... São sendentas, e devem manter-se viçosas as flores...

Vá para onde for, um poeta nunca sai de casa...

Um beijo, amiga. Inté!

Mariazita disse...

Olá, Manuela
Li de um fôlego todas as recomendações, tão minuciosas (!) para a rega das plantas.
E... a cereja no topo do bolo: as chaves guardadas bem à vista
Adorei este texto!

Um feliz restinho de semana. Beijinhos

N. Barcelli disse...

Eu até tenho um manual de instruções para a pessoa que me trata das plantas e de outras coisas que respiram.
Como ela é analfabeta, toca de ouvido e de vez em quando desafina...
Gostei da tua crónica. É mesmo excelente.
Querida amiga Manuela, boas férias.
Beijo.

OutrosEncantos disse...

Manuela

num abraço e beijo
desejo-te uma excelente semana, neste tempo cinzento [esperemos que breve] de férias.
não, não te esqueci :)
deixa que eu abrande esta corrida, logo, logo, completarei a conversa que ficou pela metade, prometo :))
férias, eu?! pois... não sei ainda.
se por um lado, bom, por outro, a rebentar pelas costuras :))
outro beijinho.
até logo.

© Piedade Araújo Sol disse...

a lista está feita, só esperamos que façam o que está escrito.
na casa da minha mãe a chave ficava enfiada num vaso, para ninguem a ver, mas acho que todos sabiam.
beijo enorme

(vou expiar os cacilheiros)