quase nada e um pessegueiro



Sentou-se no último degrau da escada e disse em voz alta “os pessegueiros estão em flor…”. Depois riu-se e a gargalhada foi pousar no muro do jardim entre a caixa do correio e o portão de ferro pintado de verde.
O calor prematuro da estação emprestava-lhe um quebranto estranho e os pés descalços nas chinelas aquietavam-se obedientes como se já fosse Verão.
Por entre as pedras, as lagartixas iam e vinham nervosas, a pele macia saudosa do sol, as mandíbulas ágeis prontas a enrolar insectos. E o coelho perguntou: ”estás a escrever um livro…?”
Ela olhou-o serenamente na firme convicção de que, se não todos, pelo menos os coelhos brancos tinham o dom da palavra e apanhou do chão o caderno de folhas quadriculadas e uma bic laranja. As pessoas diziam-lhe, “que tolice, com tanta caneta com gel e sem gel, com aparo e tinta preta, é com uma reles bic que gostas de escrever…”, pois era, com uma esferográfica em vias de extinção.
Deste modo as escritas antigas não lhe fugiam, os paradoxos faziam sentido e a coordenação das ideias vinha muito de trás, quando ainda sabia falar a língua das árvores e dos pássaros.
Por cima da sua cabeça e das orelhas espetadas do coelho, esvoaçou um bando de andorinhas e ela respondeu: “não! é o livro que me está a escrever a mim.”
Na rua o alcatrão estalou e o coelho encolheu-se.
As flores do pessegueiro prometeram-lhe uma casca fina, uma polpa doce e sumarenta e um canto de Páscoa quando o calor terminar.
Por entre os dedos, as tocas dos animais de pêlo curto escorregaram e o jardim calou-se à espera do anoitecer.
Deu a mão ao coelho e entraram para jantar.




"quase nada e uma flor de pessegueiro" desenho a pastel de óleo sobre cartolina








23 comentários:

BRANCAMAR disse...

Adoro a flôr de pessegueiro, senti-lhe o aroma e a pele macia dos frutos e senti na parte final o espírito do meu querido e nem sempre bem compreendido por todos, António Lobo Antunes. Ele também costuma dizer que é o livro que o escreve, que se torna autónomo.

É uma imagem linda, humilde e inteligente...

Beijinhos Manuela
Branca

manuela baptista disse...

Branca

gosto muito do "seu" António!

mas ignorava que ele dizia isso...não foi minha intenção plagiá-lo

o que só prova, que ele é um grande escritor e eu uma aprendiza

e isso honra-me imenso!

não vou acrescentar esse facto à minha página, porque o novo editor de mensagens é óptimo, mas não posso mais mexer em nada, sob pena de uma desformatação à escala global

um beijo

manuela

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Longe de mim pensar, muito menos querer insinuar um plágio naquilo que afirmei.
Ao contrário do que a Manuela diz isso só prova que é uma grande escritora. O que eu mais adoro no António Lobo Antunes é o que os jornalistas detestam, é o seu ar reflectido, as palavras parcas, mas profundas, os silêncios...um homem difícil de entrevistar, mas para mim de conversa extremamente atraente e foi numa dessa entrevistas, por mais que uma vez que lhe ouvi a afirmação de que acaba por ser o livro a ganhar vida própria depois das primeiras linhas. A ideia é essa, mas não quero dizer que o tenha dito exactamente como a Manuela e eu percebo muito bem porque o livro ganha vida, as personagens autonomizam-se, o enredo vai-se alterando e tudo se transforma e por isso acho também que os seus contos têm essa vida, personagens em movimento no seu quadro real, belamente ficcionadas.

Beijinhos
Branca

. intemporal . disse...

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. "bic laranja bic cristal . duas escritas à nossa escolha . bic laranja escrita fina . bic cristal escrita normal" .

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. e,,, .

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. re.voltamos por ora à imagem de um conto que re.volta a casa para jantar .

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. um conto suave e bel.íssimo acompanhado a desenho a pastal de óleo sobre cartolina .

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. "e a gargalhada foi pousar no muro do jardim entre a caixa do correio e o portão de ferro pintado de verde." .

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. a possibilidade da realidade se enquadrar de uma forma tão expressiva numa história que se pretender contar .

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. e o mar? o mar permanece ao fundo . tão longe e tão perto . tão certo o caminho . atalho do meu trilho . sustento deste fulgor que sendo brilho é por vezes uma réstia de estrilho . :=) . por causa do Lobo Antunes .

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. um .

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. dois .

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. três .

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. íssimos felizes .

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. intemporal . disse...

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. ups...

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. errata: "pastel" e "pretende" .

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. sorry . :) .

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AC disse...

Quando damos conta que os pessegueiros estão em flor (e aqui o dar conta faz toda a diferença) abrem-se sempre novas janelas naquele tipo de olhar que desemboca directamente na alma. Ouve-se o flautista, e até Botticelli pode vir ao nosso encontro. Mas talvez ele seja demasiado sofisticado, aqui privilegia-se a simplicidade das coisas. Talvez por isso o coelho não se recorde da Alice.
Se gostei? Gosto sempre, Manuela!

Beijo :)

Fézada disse...

Auf!

Esta coisa do plágio é algo que já está no sangue que se diz azul mas que não deixa de ser encarnado...

_____________________ Aqui não há, nunca houve, nem haverá plágio...

Porque a humildade e a simplicidade elevam a escrita ao seu expoente máximo!

As idolatrações são para os/as carentes. do corpo e do espírito e do resto... Como todos sabemos!

Auf!

Auf!

Eva Gonçalves disse...

Lindo!! Lindas fotos e principalmente, lindo o quadro de quase nada e a flor de pessegueiro E o livro escrevia-a a ela :)O meu sorriso foi juntar-se à gargalhada pousada no muro do jardim nesta tarde soalhei ra de quase verão... Também gosto de bics laranja, e de bics cristal, enroladas em movimentos ondulados de lagartichas em busca de sombra. Como sempre, quase nada que é tanto... incluindo uma flor de pessegueiro! :) Beijinho e bom fim-de-semana!

walter disse...

esta é uma escrita fina, delicada como como botão de flor de pessegueiro - um conto que transpira e não é verão; um conto que é um canto feito de quase nada, e no entanto é tudo, porque tudo se renova, mal desabrocha um simples botão de flor de pessegueiro...

a páscoa está aí... foi o coelhinho que disse! :)


um beijo, Manuela!

Walter

Nilson Barcelli disse...

Mais um delicioso texto. Muito ao seu estilo, que é excelente.
Querida amiga, bom fim de semana.
Beijos.

ki.ti disse...

Manuela

Se prometeres afastar o coelho, eu entro no teu jardim para trincar o rabo das lagartixas e os raminhos do pessegueiro, que parecem mesmo pauzinhos de chocolate...
Não posso vir aqui muitas vezes, porque como sabes, água do mar, não!!

ki.ti

a gata

Graça Pereira disse...

Manela
O pessegueiro do meu quintal também está em flor mas...não tenho nenhuma gargalhada pousada no muro do jardim!!
Talvez tenha perdido a minha bic laranja e lá se foram as coisas boas do passado...o coelho da Páscoa, de chocolate, era o mais indicado, assim, não se encolheria quando o alcatrão da rua estalasse.
As lagartixas...dispenso-as! Que façam o favor de se esconderem em algum buraquinho do muro , quando a noite chegar e me chamarem para jantar!
Manela, adorei este conto, mesmo sem bic fui até lá longe á curva do caminho e...tanta coisa que eu vi!
Mil beijos e uma santa Páscoa!
Graça

alegria de viver disse...

Querida amiga

Como sabe amo seus contos mas este está tal e qual o pessegueiro, perfumado aveludado e roseado.
Também tem textura firme e gosto de quero mais.
Que a leveza do aroma lhe envolva.

Com muito carinho Deus lhe ilumine sempre BJS.

nacasadorau disse...

Não há como não ficar deliciada com estes contos que a (d)escrevem na perfeição, amiga Manuela.

Entre pétalas e flores belíssimas de pessegueiros... um coelho que faz perguntas pertinentes há uma onda envolvente na conversa e calor inesperado, desajustado, prematuro mas que me aquece a alma.

Beijo

Cildemer disse...

Um conto lindissimo! Faz pensar em "Alice no pais das maravilhas"!
Aqui na região onde moro só há uma variedade de pessegueiro que se chama "pêche de vigne". Para os outros faz frio demais.

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Beijinhos e feliz semana****

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Querida Manuela:
Sentei-me aqui a ler este seu belíssimo texto e senti que os querubins estavam sentados em meu redor, a ler, também eles deliciados, a história.
Tenha uma Santa e Feliz Páscoa.

Por toda minha Vida disse...

Manu.

Não sei se te peço pêssego ou a caneta, até que ter um coelho a me fazer companhia não seria nada mau...
Gosto muito de pêssegos aqui no nordeste do Brasil é raro chegar aqueles carnudos, doces e com sumo que escorre pelo queixo. Mas teu conto me fez sentir feliz...

Beijo

Maria João disse...

Do quase nada, a mão do coelho e a gargalhada pintada no muro.
Que importa se a caixa do correio está fechada, quando o portão de ferro se abre, prometendo perfumados e suculentos frutos?

Que bom que é imaginarmo-nos Alice, num país de maravilhas, que assim se escreve!

Um beijinho muito grande, Manuela.
Santa Páscoa

Graça Pires disse...

Um texto de quem sabe ainda falar a língua das árvores e dos pássaros. Muito belo!
Um beijo e Boa Páscoa.

. intemporal . disse...

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. [20] .

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. vin.te ver . :) .

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© Piedade Araújo Sol disse...

uma gargalhda a ecoar e os pessegueiros em flor, quase que a ouvi.

belissimo texto e desenhos que apetece cheirar.

beijos

manuela baptista disse...

quase nada

e tanto que vos agradeço!

manuela

Glorinha L de Lion disse...

Sempre que venho aqui ganho presentes...dessa vez, floradas de pessegueiro, que por aqui, devido ao calor são impossíveis de se ver...obrigada Manuela, tu és incrível....beijos,