natividade

 


Digo-te que eram apenas três, os pinheiros no cimo do monte. Surgiram em simultâneo, pequenas plantas ao sol, o tronco, os ramos, as agulhas a dançar com o vento, o pico a ansiar o infinito. E no entanto não tinham todos a mesma altura e se um crescia três centímetros ao meio dia, o segundo crescia dois ao entardecer e o terceiro permanecia igual. Não sei porque me lembrei disto, talvez pelo frio lá fora, pelo gelo fino que se formou à superfície das poças onde os pássaros bebem água e os pinheiros, nem os vejo da janela ou dos muros altos do quintal, os três no cimo do monte.

A rua está deserta agora. Silenciaram-se os operários da construção, as máquinas, os assobios, o rádio de pilhas. Os cães também e o galo, sobrevivente de uma urbanidade insana. Os homens juntaram-se à roda de uma fogueira e assaram febras que comeram no pão. Um rapazinho apareceu por ali, vindo não sei de onde, as mãos nos bolsos das jardineiras azuis e ria-se das piadas adultas e fazia caretas quando o fogo saltava e cantou com os homens uma canção antiga. Fez perguntas a que ninguém respondeu, pediu um pão que ninguém lhe estendeu. Mas sorria.

Recordo a estrela tricotada na minha camisola de lã e tantos foram os invernos em que vesti a camisola preta com a estrela amarela até ela se romper, encurtar e eu grande como o pinheiro maior no cimo do monte e o rapazinho ora num pé ora no outro e os homens que não o conseguem ver. Esta é a hora dos morcegos, das luzes nas janelas, do deambular dos seres mágicos e serenos em busca de conforto e companhia.

E assim, ora num pé ora no outro, desejo-te um Feliz Natal.

Boas Festas!







outonar




Guardamos as bicicletas e as botas da chuva, pesamos as castanhas até perfazerem um quilo, para que cheguem para todos, assadas cá fora entre as cinzas de uma fogueira já extinta. É uma arte esta forma de as assar, lentamente, pacientemente. Mas a infância é impaciente e a espera, um espaço vazio e solitário. No parapeito da cozinha alinham-se as tigelas de marmelada e o gato vagueia por ali.
Depois, preenchemos o silêncio com uma gargalhada, um grito, uma briga, o ruído de uma dobra numa folha de papel. 



 













O pássaro perguntador e as flores da cerejeira

 



Era uma vez um pássaro verde, de peito branco e olhos azul-turquesa. Um pássaro curioso, diziam os melros. Um pássaro pequeno, afiançavam os gaios. Azougado, insistiam os verdilhões. Ágil, afirmavam as carriças. Na verdade ninguém sabia exatamente o nome daquele pássaro verde, de peito branco e olhos azul-turquesa. 

Por seu lado a cerejeira não era curiosa, nem azougada, nem ágil. Quanto muito, seria pequena e em toda a sua vida nunca tinha dado flor. O pássaro gostava da cerejeira, de cambalhotar nos seus ramos frágeis, de cantar para ela quando o vento soprava. E o pássaro perguntava, vês aquelas nuvens altas, árvore fininha? E as poças de água onde eu gosto de esvoaçar? E os grãos que eu gosto de comer? Porque é que não voas comigo nas manhãs de sol, nas tardes quentes? continuava o pássaro. A cerejeira estremecia um pouco e não respondia. O pássaro, contudo, jamais se cansava de perguntar e a cerejeira gostava do pássaro tal como o pássaro gostava da cerejeira.



Passaram muitas nuvens altas, outras baixas e ainda médias. O pássaro voou, esvoaçou, cambalhotou e a cerejeira cresceu a ouvi-lo perguntar. Um dia floresceu. Tantas eram as flores de cerejeira nos ramos frágeis e o pássaro louco de alegria saltava de um para o outro e tão feliz era o pássaro verde, de peito branco e olhos azul-turquesa que nesse dia esqueceu-se de perguntar.

Naquele verão as cerejas foram doces, firmes e vermelhas e enfeitaram as orelhas de uma ou duas bailarinas que por ali tinham ido dançar.



Para a Mar ler quando for grande.

15 de agosto de 2020







lenga-lenga para fazer o pão crescer





As papoilas. Lembro-as em maio, em junho também, afogadas em malmequeres silvestres e nós a procurarmos ramos de oliveira, braçadas de trigo e o cheiro da terra e espinhoso é o pão nosso de cada dia. Massa mãe, água, sal. Descansa, recompõe-se, amassa-se novamente, arredonda-se, abençoa-se, faz-se-lhe o sinal da cruz. Sem bênção não cresce, como os catraios do campo, os pés descalços, a pisar tarolos e estrume às vezes, enfezados, a caminhar quilómetros para chegar à escola. A pá leva-o, ao pão, para o forno de lenha. Nas histórias do faz-de-conta os meninos são levados na pá, para o forno, mas escapam, exatamente porque são magrinhos e correm para casa, mãe, era uma bruxa má, mãe. Não mintas, é feio mentir, vai para a escola, aprende as contas de multiplicar sonhos, mas não mintas, faz apenas de conta. E o pão ainda quente é partido e repartido e a manteiga a escorrer pelos dedos e faz-se-lhe o sinal da cruz porque neste tempo de caminhos tão longos para chegar à escola, lembram-nos as papoilas encarnadas a dançaricar com o vento.