Falo-te destas coisas, simples como as folhas do loureiro,
para que as guardes na memória e depois as contes e as voltes a recontar.
Acrescenta um ponto ou dois, mas deixa espaço entre as linhas e os parágrafos,
como entre as pausas e a melodia. Se é assim na música, porque não o seria com
o arroz de açafrão? Esta é a especiaria mais cara. Em cada flor roxa crescem apenas
três estigmas carmim, que dão o perfume, a cor, o sabor e são necessárias
quinze mil flores para obter cem gramas de açafrão. Coloca-se uma medida de
arroz jasmim no fundo de um tacho, uma colher de chá de sal, duas medidas de
água e quando esta ferver, solta-se uma mão-cheia dos estigmas secos de
açafrão, tapa-se o tacho e deixa-se cozer em lume brando durante dez minutos. Saboreia-se
acompanhado, ou não.
E no entanto há um outro, açafrão-da-terra, curcuma,
raiz-de-sol, açafrão-da-Índia. Uma raiz como o gengibre que depois de seca e moída dá um pó amarelo-torrado e podemos cozinhá-lo, tingir um vestido, pintar uma
tela. Sem ele o caril não seria o mesmo e a flor é distinta, avermelhada, como distinto é o
seu sabor.
Tudo isto para te dizer, que especieiro não é somente aquele
que vende especiarias, mas aquele que as interpreta seguindo as notas da pauta
ou as notas à sua margem. A flor da curcuma secou, empalideceu, terreou.
Pode uma flor mudar a face deste verão?
flor da curcuma