variações








Um dia a minha avó disse, não vejo o mar da minha janela. A mimosa crescia a cada primavera e nós gostávamos daquelas flores amarelas que nos faziam espirrar. A avó dizia, santinha. Para que o nosso espírito não nos saísse pela boca e nos livrasse de todo o mal, amém. Era muito simples a minha avó. Havia o bem e o mal e os chocolates na primeira gaveta da mesinha de cabeceira. Mesinha, dizem os mouros. Banquinha, os nortenhos. Depois havia a mesa da cozinha, grande, de pedra mármore para fazer rebolar a massa dos rissóis e a tenra, que a fritar abria e se abrisse, era porque estava boa e soltava um pouco de recheio para o óleo quente. No canto oposto ao estender das massas, abríamos os cadernos de duas linhas e fazíamos as cópias e os ditados e o jogo da Glória, uma espécie de espirro glorificado. Até ao dia em que a avó disse não ver o mar da sua janela. Construímos-lhe então um pavilhão de ripas de madeira cruzadas, com teto, uma porta e uma janela. A hera cresceu e na sombra formada surgiu o mar que se via tão bem daquela janela.
Caramanchão é um lugar esquisso coberto de hera, dois ou três vasos de malmequeres silvestres onde dorme o gato no morno da terra.













15 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



um dia, como sempre, li-te e gostei tal como dos teus preciosos e movimentados desenhos



Jaime latino Ferreira
Estoril, 4 de Junho de 2016

Isa Lisboa disse...

É sempre tão bom voltar às memórias da infância! :)

Rogerio G. V. Pereira disse...

DESMENTIDO

Minha querida amiga
essa sua avó
não é a minha

apenas é parecida
embora também moura

há uma diferença de assinalar
lá em casa dela
havendo um caramanchão
nunca houve gato dormindo no morno da terra

ladrava-lhe sempre o cão

Graça Pires disse...

É quase um impulso incontrolado sentir-se a falta do mar. É o chamamento do azul. É assim que o podemos ver através de tudo o que se ama.
Maravilhosa a tua história e as ilustrações, Manuela.
Um beijo.

Majo Dutra disse...

~~~
Que frescura se respira com tão graciosas ilustrações!

Muito terno, como são todos os contos sobre avós.

porém, muito expressivo, criativo e bem escrito.

São tempos felizes os que se privam com elas...

~ ~ ~ Beijinho, Manuela. ~ ~ ~

Benó disse...

E desenhaste o mar e a avó passou a vê-lo e a ouvi-lo porque para isso basta só haver imaginação. E as avós têm sempre muita imaginação. Gostei tanto, Manuela.

. intemporal . disse...

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. a minha avó também era assim . e hoje pude aqui recordá-la e recordar um tempo ido e tão diferente do tempo de agora .

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. íssimo feliz .

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Marcos Satoru Kawanami disse...

Boas recordações, a gente é mais feliz quando todos estão vivos.

© Piedade Araújo Sol disse...

também preciso de ver o mar...
texto delicioso assim como as imagens.
um beijo
:)

Hanaé dos Ossos disse...

E os ossos, Manuela?...
Tantas flores e tantos caramanchões
e tantos chocolates,
e os ossos?
Quem tem a coragem de vir aqui falar dos ossos?...
Onde estão os ossos?...

Bom dia de feriado

Kisses desta sua Hanaé

Luis Alves da Costa disse...

Caramanchão
era o lugar onde cresciam as parras das uvas morangueiras, essa variante estranha das uvas regulares,
de uvas regulares andava eu farto, trepava às pedras irregulares e roubava um cacho, que deixava as mãos mais vermelhas.
Ao fundo, a avó, uma figura sombria, dizia-me que podia cair,
não caí,
apenas o tempo passou, e agora só vejo o caramanchão deserto, e algures, nas grades de fora, as pequenas rosas de santa teresinha,
há muito desaparecida a mão que lá as colocou,
num tempo longínquo de um outro tempo de junho

Luis disse...

Regresso, num portar a voz da minha prima Isabel,
que respondeu a estas flores e ao comentário delas


"Saudades, das uvas morangueiras... e das rosas de Sta. Teresinha...
e comíamos sem lavar... porque nessa altura tudo era mais puro... todas as escadas muros com canteiros de rosas chinesas, amores perfeitos, lavadouro de roupa em pedra, tanque, eram de grande alegria e saídos de histórias de encantar... mastigávamos as azedas dos campos, e todas as imagens eram mágicas... À noite, erguia-se no alto da Serra um castelo de mouros e um palácio mágico, cheio de luzes... até os pirilampos que desapareceram, iluminavam a escuridão... eram para nós crianças simplesmente mágicos... e falava-se de luzes e sons de fantasmas, portas que batiam, passos de ninguém... duma casa vizinha, em que os proprietários se tinham suicidado... e na nossa imaginação, por caminhos e carreiros, no meio do campo se viam lobisomens, enquanto comíamos framboesas, ou saltávamos muros dos vizinhos, para comermos algumas maçãs ácidas de tão verdes...numa época, em que éramos imortais... e os contos inventados na nossa imaginação se misturavam com a realidade, sem um limite... era o tempo em que as crianças brincavam nos campos, corriam de bochechas vermelhas, depois a água tão fresca, vinda dum moinho de vento... um mundo de infância... muito nosso..."

Creio ser isto a polifonia...

manuela baptista disse...

é sim, um canto polifónico!


continuamos imortais, apenas estamos a caminhar de costas

. intemporal . disse...

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. sendo a Jacintinha uma santa vegan . será que também estará interessada num amuleto tailandês ? .

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. :) .

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manuela baptista disse...

num amuleto de pedras, sim :)