até ao limite das coisas comuns






A portada da janela do quarto soltou-se e o rapaz acordou. Pelos vidros a chuva deslizava cada vez mais forte e ele deixou-se ficar, a roupa da cama puxada até ao nariz e as sombras na parede numa dança de fadas. Reconhecia a lanterna da entrada, a trepadeira onde cresciam flores lilases no verão, o pinheiro não tão manso agora. No instante em que julgou ver o gato do vizinho de rabo alçado a atravessar o quintal, tapou a cabeça com o lençol e fechou os olhos com força. Não se lembra de ter adormecido, adormeceu com certeza, não sabe se adormeceu, mas acordou. Como se alguém batesse nos vidros da janela. Não era um noque-noque de nós de dedos, não eram as unhas do cão a arranhar, não era o ramo da trepadeira despido de folhas, era diferente de tudo o que ele conhecia e mesmo não conhecendo, poderia imaginar. O rapaz levantou-se sem ruído, afastou as cortinas e a janela do quarto era agora o vidro de um enorme aquário, e ele balbuciou, ena como choveu e no centro desse aquário do lado de fora, rodopiava um ser vestido de algas e de nariz comprido a pedir-lhe para entrar. Colou o seu próprio nariz ao vidro e o outro fez o mesmo. Depois, num impulso, abriu a janela e ele entrou, mais uma centena de litros de água da chuva, paus e pedras da calçada.
Quem és tu, perguntou o rapaz. Sou um dragão, respondeu o ser de algas e nariz comprido. E acrescentou, marinho-comum. O rapaz nunca duvidava das coisas que sendo extraordinárias, são afinal comuns e observando o dragão, percebeu que ele também flutuava no ar. Assim, o rapaz e o dragão viajaram pelo quarto a construir castelos com paralelepípedos de madeira e o dragão cuspia fogo na luta contra os soldados inimigos e o rapaz conquistava fronteiras com a fronha da almofada enfiada na cabeça. O dragão explicou ao rapaz que era mestre na camuflagem e escondeu-se em cada canto do quarto, mudando de cor, baralhando-o continuamente e fazia-os rir tanta vilanagem.  
Pela madrugada sentiram-se cansados os dois.
Agora tenho de regressar a casa, disse o dragão. Eu vou contigo até ao limite das coisas comuns, respondeu o rapaz, que além de cansado se sentiu um pouco triste também.
O dragão deu a barbatana à mão do rapaz e nadaram os dois pela janela fora.
Quando regressou, o rapaz não se conseguia lembrar do caminho que fizera, mas cheirava tão bem a terra molhada e junto ao pinheiro agora já manso, centenas de pinhões brilhavam na noite.
Quando se deitou, pasmou-se por sentir a roupa quente e seca. Apenas uma alga encarnada estendida a secar aos pés da cama.



























14 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



Belíssimo!



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 18 de Outubro de 2015

Marcos Satoru Kawanami disse...

Desenho e conto além das coisas comuns. E eu aqui derretendo num calor além do imaginável. hehe

disse...

Son(h)os molhados, quem os não tem...

Benó disse...

Cavalgo no dorso do dragão pelas fantasias que entram pela minha janela aberta para entrar a lua.

Mar Arável disse...

Até a luz se fazer dia

Bj

Graça Pires disse...

É puro realismo mágico esta tua história, Manuela. Obrigada por me fazeres sonhar também.
Um beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

fico aqui enternecida a ler e a imaginar a magia com que pintas estas estórias de encantar.

o post anterior está o máximo, eu confesso que gosto de todos os personagens mas o olhar do Rufus é encantador, aquele olhar de quem fez alguma coisa e que não é nada com ele, mas o Silvestre está o máximo...difícil mesmo escolher o mais belo, pois são todos.

muito talento por aqui.

beijo

:)

Majo disse...

~ ~ ~
~~~ Encantador e delicioso.

~ Quanta criatividade e engenho,
nesta fabulosa expressão escrita!
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

Abraço com votos de dias felizes.
~ ~ ~

Isa Lisboa disse...

"nunca duvidava das coisas que sendo extraordinárias, são afinal comuns" - Que sábio que é este rapaz! E que linda que é a sua escrita, Manuela! :)

Beijinhos, boa semana!

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Fabuloso.
É bom de ler e de sonhar também. Sem esperar começamos a sentir os movimentos e a participar nesta luta que se faz da amizade e do sonho.
Beijos nossos

Jacintinha Marto disse...

Como eu conheço tão bem esse "noc noc" dos dedos,
benzódeus,
mas muito mais no som do "chop chop" dos ténis na lama, quando o outono avança e eles carregam, os migrantes de terceira geração portuguesa, toda eu sou um campo de refugiados,
chora o Intemporal a sua Kika,
pois a minha passareca ainda chora mais,
a minha kika que sofre um atropelo de kekas, e a partir de 1 de janeiro vai ser pior, quando caírem as medidas extraordinárias e voltar tudo ao "antigüamente", o meu "antigüamente" já era mais do que extraordinário, eles chegam, bem negros, e eu saio dali toda roxa, ontem foi o dia mais horrível do ano, pareciam morcegos em cima de mim, a cama entornada no apeadeiro da Damaia, virgem maria, eu só olhava para o relógio, a contar os minutos, a ver quando se esgotava a dor daquela hora, mas quando cheguei às duas, já eles eram três, aquilo saltou para trás, voltou à uma, e eles perceberam,
está quieta, minha cota, que daqui a uma hora a gente sai,
creio ser isto o sofrimento da eternidade.

Bem hajam, e adorei a sua história, sempre que vem o outono choro mais, sou um coração de cera que derrete com os calores da Ilha do Sal

Luís Alves da Costa disse...

É bom ver que, com o outono, regressam os grandes contos. A hora é extensa, mas muito mais a sensibilidade.

Sejamos felizes :-)

Laura Bouche disse...

Lembrou-se da sua Laura, é uma querida. Não tivesse eu uma vida completamente perdida, teria sido o Principezinho, pelo menos é o que diz a das cartas, com o azar do meu inconseguimento fiquei no estádio
de aluamento,
para rimar :-9

mz disse...

Que maravilhoso conto de chuva imaginária a entrar pelos nossos olhos dentro.Os sonhos que tão bem saem da sua escrita, Manuela.
Adorei.