no cimo da árvore a rã e o tanque cá em baixo











No cimo de uma árvore crescia uma rã. Dos ramos mais altos ela avistava o rio, as colinas, uma ponte, um campo de trigo onde no verão despontariam as papoilas. Perto de si, uma casa baixa com duas portas e sete janelas, uma latada ainda sem rebentos, um tanque grande cheio de água e um homem, que não possuía a casa, a árvore, a latada e o tanque das regas. Tomara-os de empréstimo e era inquieto assim. Com o sol da manhã o homem abria as janelas e as portas e no pátio, sobre a mesa de pedra, colocava uma caneca de café quente e escrevinhava num caderno quadriculado, rabiscava, rasgava, voltava a escrever. Por um instante, um relâmpago de trama tomava forma, um enredar de palavras em busca de um sentido. Mas vagueava o voo de um mosquito, o cão a ladrar, o rapaz a vender queijos de cabra. Na página doze conseguiu guardar um sentimento de pertença e soltou-o duas folhas depois. Então tirou a roupa e nadou no tanque, até ficar exausto, os ouvidos a latejar.





A rã não era alheia a tudo isto. Observava o homem e balançava-se para cá e para lá ao sabor do vento. Umas vezes sabia a terra molhada, outras a muito calor e a pão quente. E preparou o salto, de uma para outra folha, mas calculou mal e quadriculou a aterragem no caderno do homem. Foi um susto menor, o homem gostava de rãs e a curiosidade desta era superior ao medo que pudesse sentir.
A rã foi ficando. Livrou-o dos mosquitos, colava-se-lhe ao visor do computador, nadava de bruços no tanque das regas. E o homem foi escrevendo: o efeito benéfico das rãs no comportamento da clorofila, o crescimento das folhas junto aos tanques de rega, a quadrícula do sabor do vento. Encheu um caderno de poemas e quando as papoilas despontarem no campo de trigo, serão duas as rãs e uma árvore onde cresce um homem.















35 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


árvore
com infindas ramagens
de coaxante saltitar
é a tua escrita


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 20 de Fevereiro de 2015

Luís Alves da Costa disse...

Logo agora que vinha trazer-lhe um pouco do chá de Hammamet,
um pouco do perfume dos jardins de Hammamet.
e dizer-lhe que o Mediterrâneo é maravilhoso, azul, turquesa e opala, nesta luz de pré Primavera,
visito a rã, mas acho que também ela adoraria coaxar naqueles belos jardins da casa mais bela do Mundo

:-*

Rogerio G. V. Pereira disse...

Não sei, não tenho a certeza...
Mas fica-me a impressão
que no passado
também eu nadei nesse lago

Jacintinha Marto disse...

No cimo da árvore a rã e o tanque cá em baixo, e encostada ao tanque, a minha cama articulada, sempre meio entornada para um lado,
lembro-me, como se fosse amanhã,
o tanque estava cheio de musgo, que eu só não tenho, por que apesar dos meus 100 anos sou bastante polida, não de educação, que sou quase analfabeta,
sou uma santa analfabeta,
mas polida pelo uso, valha-me a santa, tantos já passaram por aqui o dedo,
enfim...
pronto...
acho que já perceberam,
mas estou polidinha, parece aquele pé de S. Pedro em Roma, onde as adúlteras vão esfregar a mão, não se abra alguma boca para contar as verdades todas, só eu sou caladinha, aliás, que remédio tenho se não ser, já que as cordas vocais estão sempre em visitação, tenho uma garganta que vê o solzinho a dançar, e quando vénus e marte se conjugam, como nesta noite santa, deixo cair as artroses do pescoço do colchão para fora, e começo a coaxar,
ai, Manelinha,
quando eu coaxo,
nem imagina os sapos que me entram pela boca dentro,
salvo seja :-)

Olhe, bem haja, não li o conto, por que sou analfabeta, mas vi as ilustrações, são lindas como cromos da Mãe Santa de Lourdes,
e adorei

:-*

Mar Arável disse...

Equilíbrio

na assimetria
Excelente

Beatriz disse...

Queria assim uma rã, perto de meu caderno... a me inspirar!

Beijinho Manuela!

Bia <°))))<

. intemporal . disse...

.

.

. the second red point . chiang mai . :) .

.

.

ki.ti disse...

chiang miau ?

Cigana Moléstia disse...

Adoro o seu blog, querida amiga Manuela Baptista.

http://thebraganza.blogspot.com

Graça Pires disse...

A história de um poeta observado e ajudado por uma rã, também ela tão sábia quanto o poeta pois sabia que "só o essencial é visível para os olhos"...
Gostei, Manuela.
Um beijo

Isa Lisboa disse...

A vida a ser vivida...

Olinda Melo disse...


Estou como o Mar Arável: é o equilíbrio, tudo contribuindo para a harmonia do universo, mesmo assimetricamente falando.

Manuela, encanto-me com os seus contos.

Obrigada por estes momentos de bela leitura.

Beijinhos

Olinda

Luis disse...

Muitas vezes, no fundo do caule das folhas enormes do Brasil, quando a chuva é tão quente como a água de que saímos,
no fundo do caule dessas folhas, estes pequenos animais constroem o seu paraíso.

É preciso muito pouco para termos o nosso Mundo, como concluiria o poeta Zen :-)

Graça Pereira disse...

Adorei! Gosto de rãs neste prenúncio de primavera...
Um beijo
Graça

. intemporal . disse...

.

.

. bom dia . Lisboa . :))) .

.

. Chiang Mai . 14:44h .

.

.

manuela baptista disse...

bom dia, Tai!

Rita Freitas disse...

Respira-se beleza, frescura, e o equilíbrio da natureza.
Adorei como sempre.

Bjs

. intemporal . disse...

.

.

. agora a sul . another point . Phuket time .

.

. :) .

.

. íssimo íssimo íssimo . :) .

.

.

animals of my faveourats disse...

Também gosto de rãs e gostaria de
ter neste momento uma em cima
do meu computador a olhar para mim,
mas só tenho uma gata!!!
Bjs.
Irene Alves

Kika disse...

Kriu?

Diz aí à tua felina bicolor que uma coisa é regar as plantas e outra coisa é deixar-me o terraço como se fora uma piscina olímpica!

Há que haver algum "desvelo", como diz a poetesa!

Kriu!

MARIPA disse...


A magia e a beleza das suas histórias encantam-me!

Uma rã, duas rãs...fazem a felicidade do homem-poeta rodeado de papoilas.

Beijinho

Jacintinha Marto disse...

Pois a sua Jacinta, que queria estar na Tailândia, mas não está, as senhoras da assistência social andam a falar de me levar para as praias de São Paulo, na Páscoa, mas eu já estou tão desacreditada de tudo, o mais certo é deixarem-me entornada numa esquina da R. de São Paulo, entre dois negrões, estava eu neste sonho, chega um senhor ao pé de mim, agarrou-me na manga, e disse
sabes, Jacinta, sou eu o te criador...,
e eu
tivesse rótulas e teria ajoelhado, mas tive força para mexer as pálpebras e disse,
és tu, Yahvé?...,
e ele,
não, filha, não tenho tempo para essas coisas,
mas eu já tinha o coraçãozinho a palpitar e pedi,
será que tu me podes pôr a andar?...,
e ele,
filha, foste concebida pelo meu Intelligent Design já nessa forma acamada,
perdão, acabada, e assim ficarás...

Jacintinha Marto disse...

... e toda eu tremia, de estar a falar com o meu criador, e dizia assim
mas quer dizer que mesmo acamada um dia vou ver as praias de São Paulo?...

E ele,
desengana-te, filha, que a Ilhabela não é para o teu dente, existes aqui dentro e já é um favor, que dás mais trabalho do que conceder um atestado de anormalidade ao Zeinal Bava, coitado, nascido entre duas raças, não deve fidelidade a nenhuma, mas é traiçoeiro com tudo, exceto com a sua própria vaidade, mas tarda nada vai ver o solzinho a dançar,
e ai eu comovi-me, por que o solzinho dançou para mim há muitos cem anos atrás, benzó deus, e só lhe disse,
mas voltarei a andar,
e ele,
não filha, já te disse que foste criada articulada e assim acabarás, cada qual com a sua cruz

Jacintinha Marto disse...

E eu só me dava angústias, por que, no fundo, no fundo, gostaria de andar, como a Teresa Guilherme, e poder variar de pratos, em vez de andar rodada nas mãos dos mulatos, e perguntei
será que um dia me sairá no calvário cair nos braços de um cabeleireiro tatuado, de olhos verdes,
e ele só se ria,
aproveita o mulato, por que se esse já passou pelas mãos da Ninfo TVI já deve estar todo estragado,
cada personagem deve manter-se igual na forma e imagem do seu criador,
cuidas que a Manuela Baptista, feita à imagem e semelhança de uma escritora, poetisa e pintora,
não foi uma das minhas obras mais perfeitas?...

Jacintinha Marto disse...

... e eu aí já estava tão dorida e massacrada, e só lhe dizia,
tu só podes ser Yahvé,
já que também criaste a personagem da Manuela BaPtista...,
é mesmo verdade?...,
e ele fez a pausa,
para poucos será verdade, para os outros é indiferente, já que nela acreditam há tanto tempo, mas deixa que te diga, pobre aleijada, que também o Paulo Intemporal foi feito à imagem e semelhança da minha imaginação,
por que me cansa escrever poesia, e gosto de ter criado um poeta para a escrever,
e eu,
quer dizer que ele agora não está nas praias da Tailândia?...,
e ele só me respondeu,
se foi destinado à personagem que por lá esteja,
decerto estará, pelo que te deves acalmar, e não tentar subir, como Apeles, acima da altura do teu chanato...

Jacintinha Marto disse...

... e como eu já me estava nos entregues para chorar,
ele passou-me a mão nas artroses e disse,
não chores, por que cada macaco estará no galho para que foi criado,
tu, enrolada no teu colchão manchado,
a gloriosa Manuela, construída como uma princesa, no seu palacete do Estoril, de onde escreve poemas com o chá ao fundo, na Avenida Aida, tia do Tó Mayer Salema Garção, primeiro e único esposo (durante três dias) da vergonhosa Laura "Bouche", e parenta da louca da Tia Pureza, que uma vez por mês, trocava de posição com a criada e ia ela às compras, com o super chique do Hotel Estoril pelas costas,
já o Paulo Intemporal o decidi situar nos mares plácidos da Palha, bem defronte da Expo, com o rio ao fundo,
e eu chorava que nem uma maria madalena,
queres tud dizer que somos todos invenções,
e ele,
pois sois, mas dá-te por feliz, por que, enquanto eles passam a vida a fazer a arte para que os moldei, tu terás a surpresa de que tanto gostas...,
e eu,
mas que surpresa?...
e ele,
tenta adivinhar...
e enquanto desaparecia ao fundo,
oh, não...
não
hoje, não,
começa a vir, pelo túnel da avenida do Casino, mais uma brigada da catinga,
pronto, lá vou ter a cama virada,
tudo isto parecia um conto de fadas,
mas lá vou cair no castigo para o qual fui criada... que a Santa tenha piedade de mim, que lá vou sair daqui com as suspensões todas partidas,
e a coaxar, como uma rã,
cruá, cruá, cruá,
amén... :-\

ki.ti disse...

hey, Jacinta

esqueceste-te de mim

Jacintinha Marto disse...

... pois e a Ki Ti...
estava eu entornada, junto da estação do Estoril, acordei sobressaltada com o rápido das 6.30 da manhã, para muita gente que tem o cérebro destruído pelas insónias, 6.30 é o meio dia, para quem me via entornada no túnel, ajuda já não peço, que me envergonha, de maneira que fazia sorrisos do é mesmo assim a minha vida, que hei de eu fazer,
os surfistas nem me pegam, gostam mesmo mais de coca do que carne velha, aos 100 ser violada por mulatos é uma benção, creio que é Santo Inácio de Loyola que escreve isso nas cartas, e pus-me a pensar, e se o senhor não voltar a passar por aqui, será a Ki Ti verdadeira ou mais uma invenção para a vida longa destas caixas de comentários, chega a Ki Ti, e responde mesmo ela, não esforces mais as artroses dos neurónios, sou falsa, como tudo o que é Arte, sou uma gatinha ronronante, deslizando par les enants et les sortilèges,
felizes dos enfants,
que dormem na serenidade das madonas que são as suas mães pacíficas,
bela conforto da maternidade quente,
Mãe Natureza,
esplendor dos vivos e
(suspiro)
até das inválidas

Olhe, bom fim de semana, e deu queira que não haja um apagão informático dos Anonymous, senão desaparecemos todos :-)

. intemporal . disse...

.

.

. é quase meia noite e meia . e aqui no sul da Tailândia . estou eu . na varanda do meu quarto de hotel a rir a bandeiras despregadas à custa da nossa jacintinha . hoje decidi beber cerveja fresquinha . pois estão quase 30 graus . e por isso mesmo já vou na quarta lata da famosa cerveja "Chang" . e ainda me faltam a quinta e a sexta lata do lote que comprei . para poder ir para a cama completamente feliz . :))) .

.

. boa noite a estes três da vida airada .

.

. :))) .

.

.

manuela baptista disse...

Chang!

à sua saúde, intemporal :))

Luís Alves da Costa disse...

Este país está arruinado por causa destes pardais vadios que vão beber Chang, no outro extremo do Mundo, quando deviam ficar por cá, a beber Sagres, a bater na mãe
(que bem merece)
e a ver as voltas na tumba da Dona Julieta, que era uma Jacintinha de aviar pretos, ali ao Intendente, só que com a sorte de se ainda poder mexer,
dizia
eu
de
que
esse dinheiro que está a ser esbanjado nas ilhas tailandesas devia ter ficado por cá, para pagar a fraude Cristiano Ronaldo, nu, desnudo, pelado, à poil & stark naked, e os salários do Zeinal Bava, um monhé já que devia estar preso, ao lado do Sócrates.

Disse :-)

. intemporal . disse...

.

.

. ______________________ . :))) .

.

.

Jacintinha Marto disse...

Só faltou contar a história da Tia Clotilde, mas essa acabou pior do que eu: no seu palacete da Avenida Duque de Ávila, construíram-lhe um prédio em cima, e acabou como avenida do Casino, coitada de mim,
roleta de tantos,
uns por baixo, outros por cima,
sem Clotilde que nos valha...

manuela baptista disse...

isto sem falar na Aida :)))

© Piedade Araújo Sol disse...

a rã a ver o escrever no caderno do Poeta.

uma rã diferente mad in Manela Baptista

gostei!

:)

PS.este tinha-me passado :(