o rapaz da bicicleta azul











Conheci-o entre as páginas cento e doze e cento e treze de um livro de viagens. Gosto de viajar, disse ele. E pousando a bicicleta sentou-se entre o terceiro e o quarto parágrafo. 
Tinha apenas dois centímetros de altura e o sorriso mais aberto que eu alguma vez vira. Lembro-me de gaguejar qualquer coisa como, estás aqui, quem és tu, não estava à espera. Ele olhou-me pelo canto do olho e continuou a falar do quanto gostava de se levantar cedo, pegar na bicicleta e ir por aí a pedalar até ao mar, atravessar os pinhais, os campos, parar à sombra das árvores, descobrir as cidades. De vez em quando metia-se num livro e consultava os mapas, via as fotografias e sonhava sempre ir mais além. Fora num desses momentos que me encontrara e dizendo isto, levantou-se de um salto, sacudiu as letras dos calções, pegou na bicicleta e desapareceu pela janela aberta, um rapaz pequenino numa bicicleta azul.
Nesse instante desejei ter inspiração para escrever um conto grande sobre um rapaz pequenino, uma viagem e uma bicicleta azul. Caracterizá-lo, uma voz de pássaro, a ligeireza de um esquilo, o cabelo liso e comprido a voar quando acelerava, os calções sujos de óleo, a camisola às riscas, os ténis pretos e a magia de estar hoje aqui e amanhã ali, sem dar contas a ninguém. Sei qual é a sua casa, onde ele regressa com saudades do pai, do cão e das vinhas em setembro e os cachos maduros a cheirar a mosto. No entanto este é um conto pequenino sobre um rapaz grande.
Da segunda vez que o vi tinha crescido seis centímetros e pedalava na asa de um avião em direção a leste, disse-lhe adeus, ele riu-se e a rota do avião desviou-se um pouco. Inexplicavelmente a bicicleta cresce com ele, não o larga, é-lhe fiel. E o rapaz guarda no seu livro secreto e invisível, todas as impressões das suas viagens, a luz, o movimento, o som, o cheiro.
Há noites em que eu me fixo neste visor branco e vazio e estou certa que não tenho mais a acrescentar, que já imaginei tudo o que era passível de ser imaginado. Peixe, ave, leão, tigre, pescador, bailarina, menina escanzelada, menino triste, princesa, pelicano, cavalo-marinho, homem louco, bruxa, gafanhoto, rã, lago, árvore, flor, rio, montanha, aldeia, cidade, rei, deus e o diabo.
E é aí que ele regressa, o rapaz da bicicleta azul. Senta-se na estante ao lado do candeeiro, as pernas penduradas, os pés a balançar, o cabelo liso a refletir sombras de anjos. Tira do bolso dois mapas, um dos planetas e o outro dos oceanos e numa voz tranquila e noturna pergunta, queres saber o que eu tenho para te contar. 












27 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA



Sim, quero saber, mais e mais, conta-me!



Jaime Latino Ferreira
Estoril, 14 de Setembro de 2014

Kika disse...

Kriu?

Eu não quero ser repetitiva, Manela, mas esta só pode ser, a tua melhor página de sempre!!!

Muitas asinhas, das mais audíveis possíveis, para ti!

Kriu!

disse...

Não há bicicleta como esta!

De facto, não precisas de qualquer espécie de estereofonia, para difusão do teu enorme talento!

. intemporal . disse...

.

.

. esta é uma página sem precedentes . que importa agarrar com unhas e dentes . :) .

.

. e estas letras todas e todas estas letras são . estrelas cadentes .

.

. !!! . bravo nelita . bravo . :) .

.

. íssimo feliz .

.

.

Rogerio G. V. Pereira disse...

Perdi, um dia um livro assim. Não era exactamente igual. Era uma rapariga e a bicicleta era amarela da cor dos cabelos dela... sem asas, parecia um anjo e as histórias que me contava eram sobre o espaço, por onde viajava, dum encontro com outro menino, um Principezinho, e os mapas que me mostrava eram quase iguais... eram de planetas e de estrelas... talvez se perdesse no meio delas, sem me fazer a tal pergunta noturna... "queres saber o que eu tenho para te contar?"

Espero que volte

Tem de voltar!

Rogerio G. V. Pereira disse...

...e voltaste!

:))

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Não sei o que dizer depois de me perder nesta leitura,de sonhar e imaginar coisas...
Sem querer voltamos a ser crianças tão pequeninas e simples como esse rapaz grande...
OBRIGADO MANUELA

Beatriz disse...

E eu... posso viajar com ele, na pequenina bicicleta azul? Também quero o mundo como limite!!!

Um beijinho Manuela

Bia

Dulce disse...

Querida Amiga, Manueka.... repito me ao Jaime, também quero sabe mais! Que bom passar por aqui! Dois beijinhos voadores e ... por onde andará a Linda? :) Se dela souberem, aqui lhe deixo mais um beijinho meu ;)

Mar Arável disse...

Mais um excelente texto
que nos transporta
nas asas do sonho
a pedalar pela vida
de carne e osso

Luís Alves da Costa disse...

O principezinho,
que viajava de livro em livro,
cada estante, um continente,
e ao perdermos os livros,
nada nos ficava
que o sorriso candente

Rita Freitas disse...

Tive uma bicicleta amarela que me acompanhou até tarde. Era com ela que atingia uma liberdade longe de existir na minha aldeia.

Adorei como sempre.

Beijinhos

Carolina Mariani disse...

Olá Manuela, meu nome é Carolina e trabalho para a editora Multifoco. Gostaria muito de conversar com você à respeito da possibildade de publicar um livro seu. Meu email é o carolina.multifoco@gmail.com
Estarei aguardando seu contato para conversarmos melhor.
Att.

Agostinho disse...

azul como convem
a quem
pedala nos ceus

a fantasia da Manuela
nao tem limites no voar

posso pedir uma
nos sonhos meus,
pergunto.

Dulce disse...

Querida Manuela, a escrita apressada ... :) valeu e muito este meu lapso de escrita para falarmos e nos rirmos um pouco e que não nos falte nunca esta alegria ... e já o nosso Virgílio nos dizia 'Vive o instante que passa' e disso tratámos nós. Dois grandes beijinhos na promessa de um até breve! :)

jorge esteves disse...

Por entre o prazer da leitura, emergiu-me a figura do Fagulha, o rapaz azougado da Colecção Condor, com quem, em segredo, partilhava as minhas aventuras de menino...
Uma belíssima leitura.
jorge

Graça Pires disse...

Voltaste, Manuela, com um livro maravilhoso que todos gostariam de ler.
Mas vamos lendo contigo...
Um texto excelente.
Beijo.

© Piedade Araújo Sol disse...

e a Manela voltou
e a bicicleta transportou-nos a um mundo de fantasia onde a ficção tem réstias de momentos reais...

sempre o estilo peculiar na escrita lindissima da autora

beijinho

:)

Silenciosamente ouvindo... disse...

Eu quero sempre saber o que tem para me
contar porque a sua imaginação é
fabulosa!!!
Gostei desta bicicleta azul e do rapaz
tão pequeno...
Bom fim de semana.
Bj.
Irene Alves

Jacintinha Marto disse...

Gosto muito de bicletas.
Quando tinha sete aninhos e ainda tinha sensibilidades da cintura para baixo, pedalava de Lisboa até à Cova da Iria, agora,
coitada,
nunca mais vi uma...
Minto, faz três anos que me deixaram na Lapa, para irem celebrar o Santo António, fazem sempre isso, para as assistentes da Segurança Social a vida são manjericos, para mim, noite de passar com a cama encostada aos latões de lixo da Câmara,
que mais não têm onde deixar a aleijada,
vieram uns ordinários pela rua fora, sentiram o meu cheiro a santidade, já nem me lembro do resto, quando dei por mim, tinham-me enfiado, como uma Petrouska, numa bicicleta sem selim, empurraram-me pela calçada do 28 abaixo, foram mais três meses de Egas Moniz,
mas eu acho que são estas coisas que me vão santificar.

Bom fim de semana e reze por mim

:-*

Kika disse...

Kriu?



Eu te baptizo em nome do ar,
disse minha mãe com aves na voz.
[...]



...e foi desde aí que lhe nasceram os pés de galinha... :)))



Kriu!

disse...

E a Manela voltou
e a Manela voltou,
voltou de lá, voltou de lá,
ainda ontem estava em França
e hoje já está cá.

:)

Manela, Manela, tu tem piedade e não te rias dela...

Vitor Chuva disse...

Olá, Manuela!

E cá fico eu à espera,para saber o que mais contou este rapaz dono duma bicicleta voadora azul.E como gostaria eu de ter uma assim...

Um abraço e bom fim de semana.
Vitor

Isa Lisboa disse...

Gostaria de os conhecer, ao rapza e à sua bicicleta...!
Um abraço, boa semana!

ki.ti disse...

o que me vale é que este rapaz não me rouba as almofadas

Marcos Satoru Kawanami disse...

O teu desenho é quase igual à minha bicicleta, que é azul, uma Barra Forte do ano de 1989, quando eu tinha 13 anos de idade. Ando nela até hoje.

mz disse...

A manuela é magia fluida de quem vai e volta sem compromisso e depois nos encanta assim.

Gostei muito do rapaz minúsculo com uma bicicleta azul que sacode as letras dos calções e nos deixa com vontade e muita curiosidade de conhecer o tem para nos contar.