II - a traição dos esquilos voadores

Quando chegaram ao sopé das montanhas, Brama e o esquilo descansaram. Por esta altura já o veado entendia a linguagem da cauda do esquilo e os movimentos e as cores que lhe estavam associados. Para inspirar respeito e assustar os inimigos, a cauda triplicava de tamanho, abria como um leque e ganhava tons mais escuros. Para demonstrar alegria, agitava-a ligeiramente para a direita e quando a deixava tombar, queria dizer que estava triste ou cansado. Se a abanava de trás para a frente, significava perigo mortal. Os seus olhos enormes e redondos davam-lhe o conhecimento animado dos objetos e dos bichos, e pressentia até, o que se passava nas suas costas.
E Brama chamou-lhe Timóteo. O esquilo riu-se com os dentes de fora e desatou aos saltos e às cambalhotas.
Nas montanhas existiam três torres invisíveis aos olhos humanos, mas perfeitamente percetíveis para os olhos dos animais da terra seca. A cada torre correspondia um patamar e destinavam-se a abrigar os caminhantes na sua subida até aos cumes gelados. Na Antiguidade Primeira, tinham sido habitadas por velhos e pacíficos guardiões que tanto poderiam ser animais como homens, a única condição era possuírem um coração manso e corajoso. Na Antiguidade Segunda, parcialmente destruídas e tomadas de assalto pelos violadores de pensamentos, ficaram desoladamente abandonadas, tornando a subida mais penosa e solitária. Na atualidade eram habitadas por uma feroz comunidade de esquilos voadores sob a égide de Perfidus, o rei dos esquilos voadores.
E porque a aproximação, de quem não provoca, não intimida, não magoa, não causa tumulto, incomoda os que se julgam poderosos, começou a crescer na cabeça de Perfidus o rei, um plano diabólico, maléfico, vingativo.
Perfidus odiava os esquilos comuns, os veados, os lobos, os ratos, as aves, os peixes e praticamente todas as criaturas. Perfidus tinha cinco filhos. O primeiro era feio como o lodo, o segundo, assustador como as trevas. O terceiro era falso como as finas camada de gelo, o quarto era magro e escuro como as varas de bater nos porcos, e por fim o quinto, era belo, o pelo lustroso, o nariz perfeito. Mas mentiroso, frio, calculista. Perfidus não amava os filhos. Amava o que os filhos tinham de ruim. Enganando a sua própria natureza, excluíam-se do equilíbrio das espécies e excluíam todos os outros.
Brama e Timóteo subiam. O veado levava entre os dentes um último ramo de pinheiro bravo, manchado de pequenos flocos de neve que lhe matavam a sede. O esquilo guardava nas bochechas nozes e bolotas para os tempos de penúria e não se podia rir, nem mostrar os dentes, sob pena de perder todos os seus víveres.
Quando atingiram a primeira torre sentiram um silêncio assustador. A cauda de Timóteo abanava de trás para a frente e os olhos abriram-se como se quisessem rodar. E vindos do nada, como se o nada fosse o mais temível desconhecido, surgiram cinco esquilos voadores e rasaram as suas cabeças e quatro deles seguraram nas patas de Timóteo enquanto o quinto, belo, perfeito, frio e calculista, desatou a corda que trazia na boca e prendeu Timóteo com treze nós tortos. Cego de raiva Timóteo gritou, fez sair as unhas dos quatro dedos dianteiros, mais as cinco unhas dos dedos traseiros, mas os esquilos voadores eram mais fortes, mais negros, mais falsos, mais feios, mais escuros e num segundo, levaram-no dali.
Brama sentiu uma dor aguda dentro do peito. Como se o frio da montanha lhe tivesse paralisado o sangue nas veias, nas artérias e nos capilares. Firmou as patas dianteiras no solo, escavou, baixou a cabeça, investiu com força contra uma rocha, impotente e desolado. As hastes caíram.
Foi então que soltou o maior dos bramidos. E tornou-se tão destituída de sentido aquela subida.



 Timóteo, o esquilo comum



esta é a parte segunda das crónicas de Brama
em que tomados de assalto pelos violadores de pensamentos
Brama e Timóteo ficam desoladamente abandonados e sós




23 comentários:

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Ahhh!!!

Timóteo e Brama ...!

Assim sim, vencerão todas as provações.


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 23 de Novembro de 2012

Bloguinho da Zizi disse...

Estou aqui te acompanhando Manuela.
Beijinhos

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Uma história que parece ter outros contornos (políticos quiçá...)

Gosto muito de seguir e ler os textos pela beleza que lhes dá com a sua pena e imaginação.

© Piedade Araújo Sol disse...

Brama e Timóteo

ficaram ainda mais fortes e unidos

uma beleza indescritivel sobre tudo o que escreves Manela

bom fim de semana (com chuva)

beijo

Isa Lisboa disse...

E ainda há violadores de pensamentos nesta antiguidade que vivemos...

Dói-me ler esta história, por Brama e Timóteo, mas quero ler mais...! Obrigada por partilhar este mundo de sonho!

beijo, bom fim de semana

Fernando disse...

assim derrepente, focando (exclusivamente)o nosso pensamento no mundo de Brama e Timóteo, poderemos correr o risco de não percebermos a subtileza e inteligência da mensagem deste conto, que de simples, só mesmo na aparência

"engana-nos" fácilmente se a nossa visão for curta e desprovida de sentido crítico

em jeito de fábula, a verdade de um outro mundo - o dos homens, espécie capaz de tudo, até de trair o seu semelhante...


bravo, Manuela... leve a bom porto esta sua/nossa demanda, ok?:)

beijo

nandinho

Rogério Pereira disse...

Junte-mo-nos a Brama, reforcemos a raiva de Timóteo!

(não consegui ler teu texto sentado, como se a crónica me passasse ao lado)

Kika disse...

Kriu?

Falta um dedo em cada pata dianteira do esquilo! Há próteses muito boas na Protexrodentia...

Téréré disse...

Kika, até parece que tu tens os dedos todos...

. intemporal . disse...

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"O discípulo perguntou ao mestre zen:

- “Como posso distinguir o bem do mal”?

- “Eis uma pergunta tola. Reflita, e me responda você mesmo”.

Depois de refletir, disse o discípulo:

- “É muito simples. Tudo aquilo que é capaz de destruir as coisas feitas com amor, é considerado o Mal”.

- “Você já viu um tigre? Quando ele sai em busca de comida para os seus filhos e encontra na floresta uma bela corça, fruto do amor de seus pais, ele não a devora assim mesmo?”?

- “Sinto-me confuso” – disse o discípulo.

- “O que vai contra a nossa natureza é o Mal” – respondeu o mestre. – “Todo o resto é o Bem”."

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. assim pressinto este texto . o qual coteja o transtorno entre o bem e o mal . e é nesta diversidade que a concórdia constrói a rijeza essencial . promotora da quietação e da elevação do bem . como força capaz de fazer avançar o mundo .

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. _____________ . gostei muito . :) .

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. íssimo . sempre feliz .

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Nilson Barcelli disse...

Venha o terceiro capítulo.
Estou a gostar.
Um abraço, querida amig.

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida Manuela

Estou adorando cada capitulo desta saga a que dás um colorido especial, mesmo com todas as contrariedades.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

Pobre Timóteo, tratado sem caridade pelos seus irmãos de raça...no coração do seu amigo veado inspirando um desesperado gesto de solidariedade.

Sendo uma fábula(?) parece mais uma história com gente dentro...

Abraço
Vitor

Rita Freitas disse...

Um conto interessante e belo, com uma (subtil) mensagem potente.

Estou a adorar

Beijinhos

Mz disse...

Quem se engana a si próprio vivendo apenas com um único objectivo substimando tudo o resto, escapa-lhe sempre algo.

Estou a contar contigo Manuela, tu és a chave para que os nossos amiguinhos superem essa comunidade ruím.

Bj**

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Tão mais "humanos", tando entendimento, nos olhares, caldas, gestos...
espero, a parte III!

Graça Pereira disse...

E começou o drama, suavizado, quanto a mim, pelo nome feliz de Timóteo!
Mas é nas atribulações que a amizade se fortalece e tenho a certeza que, juntos, eles vencerão o que vier...
Continuo deslumbrada...e à espera do que aí vem!
Beijo carinhoso.
Graça

rosa-branca disse...

Olá amiga, venha o próximo porque este já cá canta e é en/cantador. Adorei. Beijos com carinho

O Puma disse...

A partir de Janeiro

basta um fósforo

ki.ti disse...

Tantos bichinhos...

Kika disse...

Kriu?

Bichinhas, quererás tu dizer, ki.ti!!!

Desde um castor que tem uma cauda que mais parece uma ventarola sem varetas, até uma mamífera digitígrada e tão doméstica como tu... kriu, kriu...

Vai, vai comer espinhas, sempre será melhor do que estares abraçadinha a um gatinho amarelo, armadinha em tonta e com a relvinha a servir-vos de almofadinha, isso sim é que é uma piroseira da pior espécie...

Ah, "pais" é, ou não "hanaé" ?

Téréré disse...

Claro que "hanaé" !!!

Auf, auf, auf! :)))

alegria de viver disse...

Querida amiga

Não quero estragar esta bela leitura falando bobagens, portanto me calo e agradeço OBRIGADA.

Com muito carinho BJS.