II - salto


Eram uns sapatos calados.
Os vestidos pretos tinham a voz da madrugada, os encarnados, a da pimenta verde. Bastava o olhar de uma mulher e eles deixavam-se ir abandonados a uma quimera de teias, de pontos, de cortes, de bainhas, de linhas com que se cosem as tramas.
Os sapatos não. Andam por baixo no ponto mais próximo da terra mesmo que coberta por pedras da calçada, cascalho ou alcatrão. Sentem-se inquietos quando imóveis, exposta a sua natureza viandante a imagem de um é o oposto do outro. Face interna que é externa, o espelho, o esquerdo e o direito, o avesso, o reverso da pele.
No interior de cada tacão, que como sabem é para altear o calcanhar e fingir que as pessoas são maiores do que realmente são, escondem-se por vezes partículas dos seres que os criaram. O dedo que se cortou e sangrou, a unha que lascou. Por isso o sapato tem alma, que o sustenta e o faz caminhar e parte-se. É essa a sua essência humana.
Eram uns sapatos tristes.
Não gostavam de flores a enfeitá-los porque essas são dos campos, das varandas, das jarras, das lapelas, dos altares e das toalhas nos dias de festa.
Pregada na parede, Camila a rapariga moldada em pasta de papel de jornal e cola branca, sabia que dificilmente aqueles sapatos seriam comprados por alguém e ela não tinha pés. Desejou-os, implorou-os, abriu ainda mais os olhos já abertos, mas na azáfama dos dias não lhe entenderam a linguagem parada das tintas e ninguém lhe moldou o resto do corpo.
Numa noite, à hora em que a cidade supostamente adormecia, dando um golpe de rins que ela não tinha, soltou-se do expositor e espalhando pelo chão as pérolas falsas e as contas de vidro, abriu a porta da loja e disse, vão.
Os vestidos gritaram histéricos e tontos, as gavetas deslizaram despejando lenços, meias, casacos de malha, as prateleiras caíram. Depois a calma voltou.
Lá fora na praça, os bancos quietos e um rumor de cortinas a esvoaçar. Cheirava a outono e os sapatos calados pretos tristes abertos de verão, aperceberam-se da inutilidade solitária das estações.




sapatos calados e vestidos tontos
óleos de mb




28 comentários:

Rogério Pereira disse...

Li duas vezes
e uma terceira
em voz alta
de modo a que os meus sapatos
a um canto encostados
(por ventura, cansados)
ouvissem teu belo texto...
Nada,
Não disseram nada
É que os sapatos
além de mudos
... são surdos
(pelo menos os meus)

Daniel C.da Silva (Lobinho) disse...

E Camila permanece na tessitura do seu etéreo formado em cartão, mas simbolicamente forte na constelação das coisas até à solidão dos seus próprios sapatos e daqueles que não precisam de enfeites para se tornarem belos...

Um beijo

Graça Pereira disse...

Ai, os sapatos...aonde eles me levam!
A sua alma, não tem pena da minha, pelo contrário moem-me os pés e cansam-nos!
Se são surdos e mudos como diz o Rogério...não são cegos e levam-me por caminhos que eles bem conhecem.
Foi bom o que os vestidos, as malhas, saíssem porta fora e deixassem as prateleiras vazias... É urgente de vez em quando uma sacudidela para que caiam todas as vaidades.
Camila, chegará à conclusão que os sapatos com alma, tem afinal...uma alma adormecida.
Beijo
Graça

Téréré disse...

E Camila permanece na tessitura do seu etéreo formado em cartão, mas simbolicamente forte na constelação das coisas até à solidão dos seus próprios sapatos e daqueles que não precisam de enfeites para se tornarem belos...

Um beijo

. intemporal . disse...

.

.

. uma história .

.

. com pés e cabeça . dos pés à cabeça . da cabeça aos pés .

.

. e sempre . com o odor salvífico da esperança . ainda .

.

. os meus parabéns . rainha dos vestidos . :) .

.

. íssimo . sempre feliz .

.

.

Fernando disse...

ai sapateiro sapateiro, com que linha(s) costuraste as solas da tua
vida!?

não me confundas sapateiro, com a tua "aparente tristeza", és um sonhador, um romântico, não tens culpa se os pés do mundo já não sonham, nem com uma simples for
pespegada à orla dos teus sapatos, da tua alma...

mas onde estão os pés de Camila, Santo Deus?

Belo salto neste 1º dia de Outono, Manuela! :)

Beijo

Nandinho

Lobinho disse...

E Camila permanece na tessitura do seu etéreo formado em cartão, mas simbolicamente forte na constelação das coisas até à solidão dos seus próprios sapatos e daqueles que não precisam de enfeites para se tornarem belos...

Um beijo

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Abrem-se todos os corações e calçados de vestidos histéricos fizeram a festa!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 22 de Setembro de 2012

© Piedade Araújo Sol disse...

por vezes me questiono como consegues inovar com tanto talento os teus textos.
dar vida e voz a uns sapatos e ainda por cima da Camila é obra.
gostei como sempre.
um bom fim de semana.
um beij

Fernanda disse...

Encontrei por aí sinais da sua escrita...
Não a sabia de novo a publicar, pois da Net ando arredada :)
Voltarei com tempo para a ler com o gosto de sempre.
Beijinho, Manuela.

Fernanda disse...

Encontrei por aí sinais da sua escrita...
Não a sabia de novo a publicar, pois da Net ando arredada :)
Voltarei com tempo para a ler com o gosto de sempre.
Beijinho, Manuela.

manuela baptista disse...

olá, Ná,

não se arrede se faz favor, seja bem aparecida!

e a dobrar...

CamilaSB disse...

Sou um belo busto
um rosto de boneca
sem pernas e sem pés
Poderia usar vestidos
pretos, vermelhos
e lenços como adorno
assim, ninguém percebia
que não tenho pernas
nem pés...
Mas, eu não preciso de vestidos
nem de lenços
nem de jóias falsas
que não me fazem falta...
O que eu quero são os sapatos
mágicos que a Manuela desenhou
os que têm uma florinha
que faz lembrar a primavera
Eu sei que não tenho pés
nem pernas...
Mas, o que eu quero
são esses sapatos com alma
que me fazem sentir completa
com cabeça, pernas e pés...
Eles fazem-me sonhar
e abrir mais as janelas para ver
a beleza que existe no coração
de todas as estações!
Camila a boneca :)
Lindíssimo! Beijinhos e BFS

Sonhadora (RosaMaria) disse...

Minha querida

Como sempre um bailado de palavras...uma festa tecida de mil fios de inspiração.

Beijinho com carinho
Sonhadora

Rita Freitas disse...

Uma vida que nunca imaginei terem os sapatos.
Mas por cá o que não falta é imaginação e beleza.

Beijinhos

Silenciosamente ouvindo... disse...

Fiquei a olhar para os meus sapatos
de uma outra maneira. Afinal tudo
pode ter vida...tudo se pode trans-
formar...e quem sabe estará aí a
revolução necessária?
A Manuela escreve de uma maneira
"que não é fácil à primeira leitura
compreender" e nem sei se (eu)
consigo entender verdadeiramente
aquilo que quer transmitir...
Mas vou tentando...e esta dos
sapatos e da Camila vai-me fazer
reflectir e isso é bom.
Bom Outono para si também.
Beijinho
Irene Alves

Filomena disse...

Olá!

Há bocadinho não podia comentar... será que sim, agora?

Amei o texto ( como sempre )
Amanhã, vou calçar uns sapatos pretos novíssimos... será que vou voar?

Beijinho de outono


Filomena

Fernando disse...

ó aqui não tem ALL STAR... :(

ki.ti disse...

Já não há cookies, digo bolachas.

uff!
ainda bem que não uso sapatos

Nilson Barcelli disse...

Uma história deliciosa, com belos desenhos. E um acto de liberdade da Camila...
Manuela, tem uma boa semana.
Abraço.

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Movimento ao inanimado, vida, alma aos objetos. Camila, é tão linda! Os sapatos fizeram-me lembrar do Raimundo "pés descalços", que conheci na minha infância...era um consertador de pianos, que andava sempre de terno (fato) branco mas os pés descalços.
Por que será que o sapato calado, fez-me lembrar do Raimundo pés descalços? Vai saber!!!

Beijos, Manuela!

Mz disse...

Eu sabia que os sapatos tinham alma!
É uma alma diferente. É a alma do ser objecto, aquilo que fortalece, equilibra e faz toda a diferença.

Assim são os teus contos Manuela. Têm alma.

Abraço amigo.

rosa-branca disse...

Olá amiga, posso dizer que é um belo sapateado e um bailar delicioso. Amei demais. Beijos com carinho

alegria de viver disse...

Querida amiga

Sapatos, fetiche de homens, ou será de mulheres?
Não importa, sim este conto nos transporta.

Linda e muito alegre sua semana BJS.

Lu Guedes disse...

Preciso confessar. Sempre deixo seu blogue para ler por último porque sempre me demoro mais por aqui. Seus escritos tocam minha derme, pelo lado de dentro. Gosto deveras disso. Fico aqui apreciando as imagens, os sons e tudo o mais que se forma. Vou percebendo cores, diagramas inteiros e pronto. Me vejo envolvida por essas linhas que de repente são minhas e no entanto são tuas. rs
Gostaria de publicar suas linhas na revista Mostra Plural? Sou editora da revista e me sentiria muito honrada caso aceite o convite.

bacio

manuela baptista disse...

se puder, indique-me o site da revista

e obrigada!

Não me esqueças.... disse...

muda o clima, alteram-se estações do ano, e revoluciona-se esta escrita, passe o tempo em que ando longe, e o Chá no Deserto, de quarentena:-))

os meus sapatos são histéricos, mas gosto mais destes calados e dos belos vestidos tontos, sou apaixonada por estas histórias com mar ao fundo e com mar dentro do coração.
sempre grata por me sentir diferentemente melhor sempre que a leio.
Um abraço à senhora destas palavras mulher deste mar que me fascina. com história(s)

manuela baptista disse...

não esqueço

grata pelo comentário!