Primeiro a árvore, o tronco mais estável, os pés juntos, os braços ao longo do corpo, a cabeça ligeiramente inclinada, o pensamento virado para dentro. Nós, sozinhos e o pulsar do coração. Depois endireitamo-nos e num impulso lançamo-nos para o alto e para a frente, o corpo dobrado pela cintura, os pés estendidos, entre as pernas e o tronco um ângulo reto. A entrada na água faz-se de cabeça e tem de ser perfeita. Assinalado um círculo como se fosse nada, um respirar de peixe à tona, um olho a girar.
O que é profundo mede-se em pés e no regresso à superfície está implícito o oxigénio do ar.
As carpas comuns eram acinzentadas, monótonas, tristonhas, uniformemente semelhantes. Enjoadas de si próprias sofreram uma mutação genética, dizem-na espontânea, mas poderá ter sido premeditada. Um dia pensaram, vamos mudar e coloriram-se. Saltaram para os tecidos de seda pura, para os vasos de cerâmica, para as folhas dos livros, as telas e o imaginário dos homens.
Algumas foram aprisionadas em aquários, viveiros e lagos artificiais, impedidas de fugir, privadas de liberdade tornaram-se híbridas, incapazes de se reproduzirem. Mas foi apenas um pequeno número.
Às vezes também nos nauseamos de nós próprios, monótonos, repetitivos e refazemos na cabeça o salto encarpado e perigoso das férias felizes, aquele que ousávamos dar ingénua e corajosamente porque é crescente o quarto de cada vida.
O peixe que pensa é raro e no entanto salta para as telas. Não sei porquê mas hoje chegou-me o verão.
Não quero saber de solstícios nem da configuração dos astros ou da posição relativa das estrelas. Das palavras corretas muito menos.
Quero das outras imaginariamente novas inventadas que fazem de mim um ângulo raso de água.







carpas de mb






21 comentários:

. intemporal . disse...

.

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. é sempre crescente o quarto de cada vida . assim como em crescendo . saltam as carpas para todos os lugares onde se elevam . felizes .

.

. palavra.fêmea.femeal.ventre.útero.veste.vestal .

.

. a que encontro sempre aqui . neste local . onde a serenidade veste cada palavra . clássica . e por isso . terna . e . e.terna .

.

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. curvo.me . e saio . rendido .

.

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. íssimo . íssimo . íssimo .

.

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Fézada disse...

Auf!

Cuidado com os ângulos rasos...

Não é por nada, é só por causa do Sol, esse atrevido!

Auf!

Téréré disse...

Béu, béu!

Raso é sem graduação nenhuma, logo, não há perigo de pegar fogo!

Béu, béu!

nacasadorau disse...

Também quero muito mergulhar de cabeça, mudar de cores e que o verão seja hoje.

Beijo amiga Manuela.

Fernando disse...

"O peixe que pensa é raro e no entanto salta para as telas. Não sei porquê mas hoje chegou-me o verão."

salta, não penses em nada!


C A R P E D I E M

:)

um beijo

nandinho

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


E rasa, planando sobre as águas, que belo ângulo tu vais formando!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 16 de Junho de 2012

Isa Lisboa disse...

Por vezes precisamos injectar em nós mesmos novas cores e procurar novas águas... Inspirador e belo, como sempre, Manuela!
Beijos e boa semana!

Menina no Sotão disse...

As vezes e preciso outra palavra, outro sentir, outra paisagem para ser outra coisa qualquer. Me fez pensar em Pessoa...

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

E cá estamos nós metamorfoseados de carpa; monótonos, pardacentos, e de quando em vez tentados a lançarmo-nos de cabeça - a ver se à vida conseguimos dar alguma cor...

Lindo, como sempre.
Abraço
Vitor

AC disse...

Manuela,
Constantemente no (re)inventamos, mas nem sempre da melhor forma. Mas por aqui as águas são límpidas, há muito que os rios que por aqui correm sabem da sua verdadeira função. E a nós, humildes leitores, mais não resta que agradecer tão perfeito e harmonioso mergulho.

Beijo :)

Filomena disse...

Manuela,

Refazer os saltos... sempre que pudermos.


Beijo a saber a verão?

Filomena

Rita Freitas disse...

Também nós por vezes nos aprisionamos em aquários, viveiros tornando-nos híbridos, mas, podemos sempre nos inspirar neste belo mergulho :)

Beijinhos

Silenciosamente ouvindo... disse...

A imensa necessidade de mutação...
Gostei. A carpas...porque não?
Um grande beijinho
Irene Alves

Nilson Barcelli disse...

Acho que estamos todos a precisar de um salto encarpado em vez de carpir mansamente por empregos...
Excelente conto. Adorei.
Os teus desenhos, como sempre, são deliciosos.
Manuela, minha querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.

CamilaSB disse...

Os desenhos são muito bonitos e expressivos, gostei do rosa no cinzento... o conto revela uma sabedoria imensa e comovente... foi um gosto ler!
Olá, Manuela, agradeço as palavras no meu simples "jardim". Um beijinho com carinho e amizade!

© Piedade Araújo Sol disse...

Manela

mais uma vez me rendo às suas palavras, mais uma vez mergulho inteira nesta escrita.

um pouco rebelde, um pouco livre.

e ficou-me esta frase:

"Das palavras corretas muito menos."


um beij

Graça Pereira disse...

Manuela
Quanta vontade de mergulhar de cabeça
e ganhar um novo colorido...Nada do cinzento tristonho das carpas. Quero mergulhar no teu verão antecipado, só porque sim...seja em que ângulo for.
As tuas carpas, essas sim, foram desenhadas num ângulo primoroso!
Beijo
Graça

alegria de viver disse...

Olá querida amiga

Amei suas carpas.

O Verão deixa tudo lindo.
O Sol ilumina e aquece nossas vidas.
Que a luz ilumine sempre seu coração.

Com muito carinho BJS.

Carlos Ramos disse...

O Verão, pode ser isso, antecamara para novas visões, palavras e cores, odores de diferente dimensão.
Gostei imenso do texto.

Mz disse...

Um banho livre de todas as rotinas também nos faz renascer.
Também me apetece mergulhar assim!

Um abraço.

AC disse...

Assim se clareia a alma, na vontade de fazer o que gostamos para lá do fundo cinzento. As cores, filtradas com o brilho dos olhos, acabam por surgir com a naturalidade das coisas certas, mas que constantemente surpreensem.

Beijo :)