acuarela


Depois, antes, agora, sempre, eternamente. São as férias grandes. Os sacos, as sandálias, a bola, a bicicleta, o panamá, os calções de banho onde a avó bordou um barco a ponto cruz, duas velas, uma onda do mar. Se mergulharmos, naufraga e a rocha é dura, quebra os pontos, a madeira frágil, a cruz.
Não mudamos de casa, mas para nós é diferente. Abrem-se as portas e as janelas, espalham-se almofadas pelo chão, adia-se a sopa de cenoura para os dias frios onde é de facto necessário ter os olhos bonitos. Nestes dias mais felizes é que não.
A face da senhora Maria é morena e as mãos brancas de fermento e farinha de trigo. Lambuza-nos de saudade e de beijos, as bolas de Berlim enroladas em papel manteiga e vai avisando, não deixem cair! mas nós deixamos. Açúcar e areia fazem o mesmo som quando trincados.
Os banheiros montam e desmontam as barracas, enrolam os panos de lona dos toldos, assobiam.
A infância só por si é navegar.



Quando todos partem nós ficamos. Embrulhados nas toalhas, o fato de banho húmido, os joelhos abraçados pelos próprios braços, o nariz levantado para o sol ainda. Quase noite entardece, as aves marinhas reaproximam-se do espaço cedido aos humanos, esvoaçam, lutam pelas migalhas, gritam. Um cão dispara numa corrida louca, ladra de alegria, o dono lança um pau à água e ele nada, reconquista-o, entrega-o ao homem. E recomeça, uma e outra vez sem manifestar cansaço.
Os banheiros desmontam as barracas, enrolam os panos de lona dos toldos, riem-se. Podemos agora falar do que nos importa e o sol no horizonte é um vermelhão de luz.



Azul cerúleo é o azul do céu ou verde mar por ser azul.
Azul ultramar é lápis lazúli sem lápis só azul.
Branco é da espuma das ondas dos gelados de nata do leite sem chocolate é a luminosidade o luar.
A cada entardecer, distintos. Enrolam-se, curvam-se, dobram-se, são corpo, sombras e luz. Têm vida. Poderiam libertar-se das cordas, rodar e dançar e seriam arte mágica. Nós permanecemos às riscas azuis e brancas e somos pano, lona, tecido imaginário, dobra no tempo, ponto onde cruzamos imagens, azul ultramar.



"carpas" acuarelas de Enrique Ochotorena

aqui onde o imaginário é luz

gracias lupus!






23 comentários:

. intemporal . disse...

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. navego.me . ____________________ . nesta infância de verão . azul . verde . lápis lazúli . branco . de espuma ao amanhecer .

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. navego.me . cedo e cedo.me .

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. clap . clap . clap . clap . clap .

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. um beijo imens.íssimo . manu.ela.de.elo . baPtista . escritora . e poeta . e . e . e .

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. um abraço . Enrique . meu amigo . terno e e.terno . e sempre ao alcance . de tanta arte .

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Fézada disse...

Auf!

A lona é gira para um bibe... para as meninas mais gordinhas...

Auf!

Téréré disse...

Béu, béu!

"A infância só por si é navegar."

Então porque andas nos bombeiros?

Já és crescida!

Béu, béu!

lupus disse...

No merezco un marco como éste, tu blog, para enmarcar mis acuarelas, es éste un lugar auténticamente mágico en el que nos regalas tus magníficas historias, tus relatos para leer a la luz de la luna en la tranquilidad de la playa, acunados por el suave murmullo de las olas en la marea baja...
No sé cómo darte las gracias, Manuela, por esta entrada maravillosa, creo que no merezco tanto, pero....¡Gracias! De corazón, me has emocionado.
Te dejo un pequeño presente, y antes de que me olvide, mis gracias y un abrazo muy fuerte para nuestro común amigo Paulo, esa alma pura que toca con sus palabras las esquinas del cielo, que provoca el tenue aleteo de los querubines, emocionados ante tal cúmulo de sentimientos envueltos en azul de terciopelo.

Mi presente para tí:

“ LA PLAYA DE LAS CATEDRALES”



"Preciosa...la Playa de las catedrales,
con formas rocosas señoriales,
que nos llevan de la mano
caminando por sus arenales,
de fina arena rubia,
a veces blanca,
que parece el lecho de
mil amores
tantas veces compartidos
con blancas y rubias mujeres,
quizá meigas, quizá lamias,
que hasta estas orillas
llegaron huyendo de
persecuciones varias,
y hasta ellas atrajeron
para perpetuarse
a miles de hombres
que les concedieran prole.

Columnas que emergen de la arena
que casi tocan el cielo
en un afán irresistible
de contar al mundo
la soledad de su destierro,
acariciadas por el agua a veces,
otras golpeadas con saña
en una suerte de amor
en el que nadie pierde ni gana,
tan sólo es la fuerza contra la fuerza,
el mar contra la roca,
un día y otro, así meses,
que aunque pasen los años,
el mar y la roca, alli permanecen.

Belleza de la natura
que en el tiempo perdura
para asombro y maravilla
del ser humano que las mira
con ojos abiertos como lunas
queriendo beberse tanta hermosura
tanta belleza que entre las rocas brilla.

Es el mar, es la arena, es la roca,
es el todo que nos rodea
cuanto aquí nos convoca
como queriendo decirnos
que no somos nada
ante esta explosión de riqueza
que los tres nos regalan,
el mar, la arena, la roca,
los tres unidos....en la playa."

Con todo mi cariño,

Enrique Ochotorena.

Rogério Pereira disse...

"Podemos agora falar do que nos importa e o sol no horizonte é um vermelhão de luz."

Falemos então:
gosto da praia
à hora das gaivotas...
...lembras-te da canção?

Jaime Latino Ferreira disse...

ENRIQUE E MANUELA


A ambos ... bravo!!!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 30 de Junho de 2012

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Sinceramente?
Dizer o quê, diante de tanta beleza?
Meus colares, anéis e outros "badulaques" de lápis lazúli,nascidos no Chile, agora com mais valor, por fazerem parte desse poema que nos reporta à inesquecível e adorável infância...
diante dessa formidável aquarela...

Beijos,
da Lúcia

(P.S.: Gonzaguinha, é filho de Gonzagão)

elvira carvalho disse...

Engraçado há tempos que descobri este blogue e venho lendo sem no entanto nunca comentar. Não sabia de quem era o blogue. Agora creio ter percebido de quem será.
Parabéns. É um blogue muito bom. E este texto é prova disso, bem como
o poema aqui apresentado nos comentários.
Um abraço e bom fim de semana

Fernando disse...

e o que é que se poderia esperar do encontro de dois Grandes Talentos?

beleza pura!

Manuela e Enrique, abraço- vos,
com o mar ao fundo!

nandinho

© Piedade Araújo Sol disse...

e volto à infância e às férias grandes

as acuarelas de Enrique Ochotorena, são muito sugestivas.

um bom fim de semana.

um beij

Mar Arável disse...

é preciso fixarmo-nos

no ciclo das marés

Nilson Barcelli disse...

Se outras virtudes não tivesse, o teu conto teve o condão de me fazer regressar à infância e aos tempos de praia, sempre nas mesmas datas e nos mesmos locais. E às primeiras aventuras de beijos escondidos na sombra das barracas...
Excelente conto, como sempre.
Manuela, minha querida amiga, tem um bom Domingo e uma boa semana.
Beijo.

Isa Lisboa disse...

Que bela infância, essa!
Boa semana...a pensar nas férias de verão?
Beijos

Graça Pereira disse...

A praia da minha infância não tinha lonas...Estava cheia de mar e de azul! Também não havia gaivotas mas, adorei entrar numa outra realidade tão bem contada que, tive vontade de ter uma barraca às riscas azuis, desmontada todos os entardeceres e aberta no dia seguinte a todos os sonhos que o mar nos trás...
Parabéns ao poeta e a ti Manuela,grande escritora dos contos mais belos da blogoesfera.
Beijo carinhoso.
Graça

Sonhadora disse...

Minha querida

Como é bom mergulhar no mar da nossa infância e sentir as ondas mansas dos sonhos por dentro do tempo.
Como sempre ler-te é sublime.

Um beijinho com carinho
Sonhadora

Fernanda disse...

Simplesmente mais um ... daqueles que, eventualmente por ser o último, parece ser ainda melhor do que todos os anteriores.

Senti-me azul cobalto misturada nestas belíssimas aguarelas em tons de azul e achada nas tuas palavras.

Também eu ia de férias ... um mês para a Foz e dois para o campo.
Ficávamos na praia todo o dia, desde o nascente ...vendo apanhar polvos nas rochas, até ao pôr do sol ... até tiritarmos de frio... ou então ouvir a chamada do pai que lá nos vinha buscar.

Obrigada
Beijo

alegria de viver disse...

Querida amiga

Ler seu blog é instruir nossa mente.

Viva o Verão em todas as cores.

Com muita alegria BJS.

Mz disse...

É bom ficar embrulhado no fim quando todos se vão.
Do burburinho das vozes,
fica o melhor das aves e das ondas e do azul que permanece abraçado ao mar e ao resto de céu até ao cair do sol.

Um abraço!

Isabel Maria Rosa Furtado Cabral Gomes da Costa disse...

Como sempre, extraordinário!
E o "Azul ultramar é lápis lazúli sem lápis só azul", lá muito ao longe, muito para lá da bruma do tempo, a chamar-me de volta à minha infância, à minha praia, a tempos de outro tempo, a uma meninice que teima em não voltar...
Um abraço com todo o meu carinho e parabéns por mais uma pérola, pois é com pérolas que sempre presenteia quem passeia neste seu jardim.

Dulce disse...

por aqui também, Manuela

o imaginário é Luz

e somos a infância nos dias de Sol
bolas de berlim da cor do mar, múltiplos sentires perfeitos de tardes
dos dias.. que são finitos,
só porque acontecem profundos em cada um de nós..

belíssimo..Obrigada.

um beijinho grande, dulce.

Fernanda disse...

Assim digo adeus à Blogosfera …

…porque noutros lados também há barcos e flores… e uma vida que é muito mais a minha !

05.07.2012

Simplifiquei. Mais é impossível.

Aqui voltarei sempre, porque ler-te é um doce prazer.

Beijo

Silenciosamente ouvindo... disse...

É sempre bom voltar à infância...
e a recordação que eu tenho é da
Praia de Sesimbra, e como eu
gostava de ficar por lá até quase
anoitecer...Gostei deste seu conto,
como gosto de todos.Tem uma capacidade de escrita e uma imaginação...
.......................
Pois é, peço imensa desculpa mas
o poema soltou-se(o malandro e foi
não sei para onde sem me avisar)
Mas lá o consegui encontrar e voltei a dizer-lhe: ficas aqui.Para
já ficou, se for embora outra vez
eu tenho que respeitar a sua
liberdade, não é? espero que ele
goste um pouco de mim e se deixe
ficar...

Bom fim de semana. Beijinhos.
Irene

Nilson Barcelli disse...

Reli, com imenso prazer. O que é bom nunca aborrece...
Manuela, querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.