III - o pássaro do coração

Hoshi abriu a túnica, retirou do peito o tecido dobrado em quatro, pegou em duas pontas e soltou-o. O pássaro pintado era tão real e tão belo que o velho Haru deu um grito de espanto. Nunca tal vira e sabia de antemão que não seria capaz de reproduzir uma ave assim e se isso viesse a acontecer correria o risco de replicar o irreplicável, de tocar o intocável, de agitar o que jamais deveria ser agitado.
Mas os olhos de Hoshi brilhavam de alegria e tão simplesmente lhe contava dos trezentos e vinte cinco panos guardados no cesto de vime e das moedas que juntara para os comprar e de como seria bom se todos os habitantes da sua aldeia tivessem um pássaro raro a ondear nas janelas, que Haru, o pintor a quem os deuses bafejaram as mãos com um dom inigualável, calava-se e calando consentia num sonho mais alto que as montanhas geladas a norte da sua casa.
Hoshi era jovem, impulsivo, corajoso e generoso. Haru era velho, bondoso e talentoso e no pátio brotou um segundo rebento de cerejeira e ele ousou dizer sentindo o coração descompassado: temos sete dias para transformar os teus panos e outras tantas noites para soltar os teus pássaros. Aprenderás tu a pintá-los, porque se as tuas mãos calejadas fazem crescer os arrozais e penetrar na terra o arado, também se transformam em veludo quando acaricias a cabeça do teu cão.
No primeiro dia madrugaram e atravessaram as florestas de tílias, a ponte sobre o rio gelado. Colhiam pedaços pequenos dos ramos mais frágeis e com um canivete afiado faziam os cabos dos pincéis, as cerdas de marta. Pediram conselho aos monges que conheciam os segredos dos corantes naturais e da textura das sedas e aprenderam a esticar os panos em esquadrias de madeira. Ao entardecer eram quatro as crianças que os seguiam e quando o sol se escondeu no horizonte, entraram no pátio doze rapazes e dez raparigas ansiosos por aprender a arte dos tecidos.
Nessa noite ficaram mais leves os sacos de arroz na despensa de Haru na proporção inversa ao ânimo que sentia.
Ao segundo dos dias o galo cantou e nas cozinhas as avós fritaram bolinhas de carne e de arroz e prepararam taças de chá verde e sopa de miso.
O açafrão, a terra, o barro, as ervas esmagadas, a gema dos ovos. E os tecidos resplandeciam.
No terceiro, quarto, quinto e sexto dia, eram tantas as crianças sentadas em silêncio junto ao pátio de Haru que este se assustava perguntando, como é que eu aqui cheguei e eles comigo?
Todas as noites Tsuru o pássaro, largava o tecido que habitava e voava sobre as cabeças adormecidas. Fazia rir as crianças nos seus sonhos, desinquietava os jovens, soprava telas e tintas nos cabelos brancos de Haru e transportava Hoshi nas suas asas até ao reino dos peixes e das baleias brancas onde ele nadava nu como só ele sabia.
Na tarde do sétimo dia caiu a flor da cerejeira e todos os panos de seda secavam ao sol, mas em nenhum deles se via um pássaro de longo bico como Tsuru. Uma criança reconhecendo o tecido que pintara, gritou, essa é a minha mãe! e todas as outras, a casa do meu avô, a escola, o rio, a ponte, o céu, o cume da montanha.
Não se desiludiram nem entristeceram os dois homens e Hoshi disse, é tempo de eu partir. Esperam-me os arrozais, o búfalo, o arado, a minha casa, a minha aldeia e os meus amigos e a cada um darei um tecido de seda pura.
É tempo de eu ficar, disse Haru, retomar a ciência das minhas mãos e manter aberta a porta da minha casa. Não me esqueças.
Não te esquecerei, respondeu Hoshi e dobrou os tecidos magnificamente pintados e tingidos e voltou a guardá-los no cesto de vime. Depois chamou o cão, abraçou Haru e colocou junto do coração o pássaro de seda.
Gélida era a noite mas nos olhos do homem liam-se as estrelas.


montanhas geladas a norte de mb


significação dos sonhos

Tsuru o pássaro feliz
Haru a primavera
Hoshi a estrela






40 comentários:

joaquimdocarmo disse...

Hei-de cá voltar quando a noite estiver menos gélida para, então, melhor ler as estrelas que a Manuela coloca "nos olhos do homem"! Lindo!
Beijinho
Quicas

Jaime Latino Ferreira disse...

MANUELA BAPTISTA


Continuaste e acabaste muito bem ... Tsuru continua a voar da Primavera às estrelas!


Jaime Latino Ferreira
Estoril, 31 de Janeiro de 2012

Luís Coelho disse...

Foi maravilhoso entrar com o artista e ver as crianças.
As mãos se transformam e os sonhos acontecem.
Que mais poderei dizer de tanta maravilha ?

Graça Pereira disse...

Não sei se aprendi com Haru a pintar um tsuru mas...contigo, aprendi a soltar todas as histórias guardadas no meu peito e a apanhar estrelas que adormecem no meu olhar!
Parabéns pelos desenhos, simplesmente maravilhosos.
Beijo
Graça

Graça Pires disse...

Lêem-se as estrelas nos olhos de quem assim escreve...
Um beijo, Manuela

© Piedade Araújo Sol disse...

a noite até pode estar gélidas, mas que interessa se nos olhos do homem as estrelas escrevem luz...

um beij

walter disse...

Manuela,

de coração para coração...

bendita esta história e todas quantas me contou

benditos todos os seres e todas coisas que (re)inventou

benditas todas as horas, as suas e as minhas, em perfeita comunhão

bendita a sua alma de Tsuru
bendito o seu coração de Haru
bendito o seu olhar de Hoshi

benditas sejam [sempre] as suas mãos por muitas histórias [ainda]por escrever

benditos a semente e o fruto da sua criação

bendito o mundo visto por si

______________


um grande abraço, Manuela!

Nandinho

manuela baptista disse...

um grande abraço, Nandinho!

alegria de viver disse...

Querida amiga

Fico comovida sempre que leio este maravilhoso blog, todos os textos são de uma riqueza infinita, se poder escolher, na próxima encarnação quero ser escritora e se não for pedir muito também desenhista.
Isto tudo é motivado pela leitura que faço aqui, a qual considero uma linda influência. Serei uma alma do bem.

Linda semana BJS.

Gato Repsol disse...

Oi galera, beleza!

Eu vim aqui reclamar a proposito daquela bloggerzinha, que tem nome de posto de gasolina azul!

Ela vive sendo muito abusada, viu! Metida a besta mesmo!

E quem tem nome de posto de gasolina, deve honrar esse nome!

Miau!

Mar Arável disse...

Mais um texto de encantar
uma história de sentidos
plena de poesia

Fernanda disse...

Ainda hei-de ver estes textos escritos em livros onde todos possam usufruir deste encantamento.
Consegui ver o Tsuru e o brilho nos olhos de Haru e de Hishi.

Obrigada amiga Manuela.

Beijo

AC disse...

Manuela,
À medida que ia lendo uma espécie de encantamento foi-se apoderando de mim. Já passaram alguns minutos, mas o doce torpor continua. Não sei, sinceramente, que comentar, apenas dizer que é um enorme privilégio usufruir da partilha das suas palavras.
Tão bom, Manuela, tão bom...!

Beijo :)

Hanaé Pais disse...

Fulgurizante!
Pastagem verde, suave, dócil, a onde rebolam os meus sentidos...
Indubitávelmente o melhor blog!
Cheio de magia, na maravilhosa ordem de Puros afectos.
A suavidade da seda pura, numa fábula de levíssima aragem.
Siga... que eu sigo-a e aguardo, palavras reiteradas serenamente...

BlueShell disse...

..."Uma criança reconhecendo o tecido que pintara, gritou, essa é a minha mãe! e todas as outras, a casa do meu avô, a escola, o rio, a ponte, o céu, o cume da montanha...."
Excelente, como já nos habituaste_ nem estava à espera de menos. Perfeito.

Maria João disse...

Há um tempo para ficar,
e eu fico.
O mundo sem as suas histórias, Manuela, não seria a mesma coisa...
nem o céu, sem o brilho da sua escrita.

Um beijinho grande

. intemporal . disse...

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.

. um beijo .

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. d.aqui . de onde eu gostaria de viver permanente.mente .

.

. sempre e para sempre .

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manuela baptista disse...

de aqui

com o nariz gelado

para aí
com mais um lindo ponto encarnado :)))

Linda Simões disse...

...

O pássaro feliz
A primavera
A estrela

E Manuela

A contadora de histórias que nos embala e nos faz acreditar nos sonhos.


Beijinho grande dividido para dois


Saudade

E.A. disse...

Sabe Manuela,
Depois de ler todos estes comentários, onde mora tanto carinho e reconhecimento, não sei muito bem o que escrever.
Fica a certeza de que, se eu pudesse, inventaria uma palavra linda e oferecê-la-ia a si, porque, embora não a conheça, tem dos corações mais puros que já conheci.
O beijinho de sempre,
Elisabete :)

© Piedade Araújo Sol disse...

deixo apenas o meu sorriso :)

votos de uma boa semana e sempre inspiração..

beij

. intemporal . disse...

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. os meus parabens . muitos . muitos . tantos . imensos .

.

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. e,,, a.a.mar.de.a.mar . estou .

.

. muito . imenso .

.

. issimo . sem acento . mas sempre feliz .

.

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manuela baptista disse...

:)

obrigada intemporal!

Elisabeth Candina Laka disse...

Ese río que no se sabe si baja o si sube, me gusta mucho :)

un abrazo

Nilson Barcelli disse...

Esta triologia é fabulosa.
Sabes encantar com os teus contos.
O meu pássaro disse-me que serás famosa por causa do que escreves...
Manuela, querida amiga, tem uma boa semana.
Beijo.

manuela baptista disse...

Elisabeth

nem eu sei,

mas acho que sobe :)

manuela baptista disse...

Nilson

o seu pássaro tem a loucura dos poetas

obrigada

BRANCAMAR disse...

Manuela,

Li de um fôlego, mas apaixonadamente os três capítulos desta história belísima, que nos transporta para lições de vida inebriantes. Dizer muito seria quebrar o encanto de ver as estrelas nos olhos do homem...

Há seres humanos assim, com pássaros ao peito e estrelas no olhar e abençoado é o momento em que se cruzam no nosso caminho e pintam sedas nos dias.

Um beijinho
Branca

Sonhadora disse...

Minha querida

Saio daqui embalada pela beleza com que dedilhas as palavras.
Não é para todos, apenas para quem tem a sensibilidade de o fazer.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Mariazita disse...

Olá, Manuela
Não tinha lido o episódio anterior, por isso foi por aí que comecei, terminando pelo actual.
O que senti ao ler esta história, levam-me a concluir: foi escrita com pincel.
E não digo mais nada para não pertubar o encantamento em que me encontro.
As imagens são lindíssimas.

Beijinhos

. intemporal . disse...

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. e vou . voar . dentro de momentos . no A380 / do dubai para Bangkok .

.

. issimo . feliz .

.

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joaquimdocarmo disse...

E é sempre com redobrado prazer que, privilegiado, releio... esta e todas as outras "histórias com mar (de encantamento) ao fundo"!

lupus disse...

Querida Manuela, nunca sé qué decirte cuando leo tus bellísimas historias..."Tsuru,Haru, Hoshi" bellos nombres para otros tantos bellos protagonistas de tu cuento.
¿Sabes? En euskera, la lengua de mi tierra, Tsuru sería Txori, Haru sería Udaberri y Hoshi sería Izar, para mí tres términos muy especiales.
Gracias por tu brillante creatividad.

Un fuerte abrazo.

Enrique.

. intemporal . disse...

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. thai . i . alguem . ? .

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. eu ja thai tou . :))) .

.

. 34 graus . sao 18.05h .

.

. issimo . feliz .

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ki.ti disse...

Thou ca eu.

Thai i quentinho, que sorte!

aqui sao e estao sei la que horas, sou gata,

e muito frio.

uma turra

ki.ti

vitorchuvashortstories disse...

Olá, Manuela!

Muito rica é a imaginação que consegue fazer voar um pássaro-desenho e encantar a criança que ainda se esconde dentro de nós ...
Muito bonito; parabéns!

Abraço amigo.
Vitor

Mz disse...

Afinal em cada um de nós existe a capacidade de fazer aquilo que procuramos nos outros. Este é o que nos ensina o teu maravilhoso conto pintado em forma de pássaro e guardado na seda do teu peito.

Boa noite.

manuela baptista disse...

grata a todos!

Hanaé Pais disse...

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=_w-xms9h0Dc

Hanaé Pais disse...

Para colorir o seu conto em cor lilás...
You tube:
The cinematic orquestra:: lilac wine.